Animais de estimação

E a leishmaniose felina?

Todos os entrevistados para este artigo (Longe da cura, perto da prevençãopublicado na VETERINÁRIA ATUAL de junho de 2019) responderam que não detetaram até hoje nenhum caso de leishmaniose em gatos. No Hospital Veterinário Arco do Cego, “a maioria dos gatos vive no centro da cidade, e, muitas vezes, indoor, havendo menos possibilidade de contacto com o vetor”, explica Rita von Bonhorst.

Já Andreia Figueiredo, do Grupo Veterinário maisVida, refere que: “Apesar de algumas suspeitas e dos vários despistes efetuados, nunca foram diagnosticados casos de leishmaniose nos CAMV do grupo.” Esta realidade foi manifestada por todos os outros médicos contactados para este artigo.

Ricardo Almeida considera que, enquanto a classe estava sensibilizada para a elevada prevalência da leishmaniose canina, não tinha a mesma preocupação com a felina. “Agora que estamos sensibilizados para despistar a doença em gatos, praticamente não temos novos casos. Acreditamos que muitos gatos seropositivos para FIV ou FeLV sejam também positivos à Leishmania, mas os casos que temos despistado têm dado sempre negativos”, partilha.

Maria João Fonseca, diretora clínica do Hospital do Gato (que cedeu a fotografia que ilustra este artigo), no Restelo, em Lisboa, revela à VETERINÁRIA ATUAL que o diagnóstico de leishmaniose tem acontecido, mas de um modo pouco significativo. “Temos de ser mais pró-ativos no diagnóstico”, diz. As medidas profiláticas recomendadas para evitar a doença nos felinos passam, por um lado, por evitar o contacto do gato com o vetor (através do uso de redes, impedir o acesso à rua nas horas de maior atividade do vetor, entre outras), e, por outro, pela utilização de ectoparasiticidas com efeito repelente para o mosquito. “A maioria dos princípios ativos com registo para prevenção da leishmaniose em cães é tóxica para os gatos, no entanto, e ainda que sem registo específico para o flebótomo, existem ectoparasiticidas que podem e devem ser utilizados nos gatos com acesso à rua e alguns já com evidência da sua eficácia.”

No caso dos felinos, ainda existe “muito desconhecimento por parte dos tutores”. Nos centros urbanos, como a maioria dos animais vive dentro de casa, cria-se a ilusão de que as profilaxias não são pertinentes. “Nem mesmo a importância dos planos profiláticos vacinais está bem enraizada. Se falarmos de leishmaniose felina, existe certamente um total desconhecimento acerca do assunto por parte da população.”

E afinal, quais as diferenças entre a leishmaniose felina e canina? A diretora clínica defende que a distinção assenta, sobretudo, “no tipo de resposta imunitária do hospedeiro gato, e essa resposta imunitária particular faz com que a apresentação clínica seja muito diferente”.

Aos tutores que visitam o Hospital do Gato, recomenda-se que seja cumprido um plano profilático adequado, sobretudo para todos os gatos com acesso à rua. “Vivendo nós num país endémico, o risco de leishmaniose deve ser sempre equacionado e, como tal, a escolha do ectoparasiticida, adaptada. No caso particular de gatos portadores do FIV, e sendo as co-infeções FIV/leishmaniose um dado conhecido, é muito importante ter sempre presente esse facto.”

E se há uns 20 anos, os casos que chegavam à consulta com leishmaniose eram, muitas vezes, terminais, graças à prevenção e ao despertar da classe para a doença, o diagnóstico vai sendo cada vez mais precoce e com resultados mais favoráveis. “O gato tem um papel crucial, porque a pressão que é colocada na prevenção nos cães pode ter como consequência a procura de outros hospedeiros. Sabe-se hoje que o gato é um hospedeiro importante no ciclo, ou seja, não é apenas acidental e pode vir a representar um papel cada vez mais central na epidemiologia da doença”, avisa Maria João Fonseca. “Numa perspetiva One Health, toda a classe médico-veterinária, e não apenas quem faz clínica, tem uma palavra muito importante no que respeita ao controlo desta infeção e não pode nunca esquecer o papel de outros hospedeiros, nomeadamente do gato”, afirma a diretora clínica.

Maria João Fonseca crê ainda que a ideia de que a cura está longe pode não ser a mais apropriada. “Em muitos gatos verificou-se ‘cura espontânea’ e, sobretudo se existirem comorbilidades, o diagnóstico pode mesmo ser muito favorável.”