Com um aumento superior a 30% nos preços dos serviços veterinários na última década na UE, o setor enfrenta um novo paradigma de gestão. A pressão dos custos – desde recursos humanos a equipamentos de elevada tecnologia – obriga clínicas e hospitais a rever tabelas, estratégias de posicionamento e modelos de cobrança. Em Portugal, a resposta passa por ajustes graduais de preços, maior rigor na lógica custo-margem-lucro e pela adoção de métodos de pagamento mais flexíveis e digitalizados. O desafio? Garantir viabilidade económica sem comprometer o acesso aos cuidados de saúde animal.
Nos últimos 10 anos, o preço dos serviços veterinários na Europa aumentou mais de 30%, superando a inflação geral e dificultando a vida de muitas famílias. Segundo o Eurostat, os custos cresceram mais de 30% na zona euro e quase 37% no conjunto da União Europeia (UE), o que significa que uma consulta ou tratamento para animais de companhia custa hoje cerca de um terço mais do que há dez anos.
Em declarações à VETERINÁRIA ATUAL, Patrícia Azevedo, diretora clínica do Hospital Veterinário Aristocão, sublinha que “a evolução dos preços – tanto de medicamentos, como de serviços veterinários – tem vindo a aumentar, como em todos os serviços de saúde e em outras áreas. “Isto porque para além de acompanhar a inflação, fenómenos como a pandemia, a guerra na Ucrânia, e agora a guerra no Irão, forçam o aumento do combustível e das matérias-primas, o que forçosamente tem que aumentar os preços dos materiais e equipamentos”, refere.
Para Mafalda Andrade, diretora executiva do HOSPVET – Hospital Veterinário de Santa Maria da Feira, a definição de preços deve partir sobretudo da realidade interna de cada clínica/CAMV/empresa: “Inicialmente, quando o hospital abriu, andámos um bocadinho a comparar com a concorrência. A partir daí, as alterações que fizemos foram sempre muito mais a pensar na nossa estrutura e menos na concorrência”. O hospital que dirige iniciou atividade em maio de 2020 com o valor de consulta fixado em 30 euros. Em 2026, após vários anos sem alterações significativas, o preço passou para 32 euros – um aumento descrito como “simbólico”, até porque ainda se encontram em fase de cimentação do seu negócio/mercado. Uma estratégia que reflete uma preocupação com o posicionamento e a consolidação da carteira de clientes antes de aplicar revisões mais expressivas.
Além das consultas, a atualização de preços foi mais expressiva na ecografia, que passou de 50 para 65 euros. A decisão resultou da constatação de que o valor inicial não cobria adequadamente os recursos envolvidos. “Na veterinária fazer uma ecografia, se for um cão grande, implica dois enfermeiros a fazer contenção, implica um médico a fazer a ecografia. Temos que contabilizar todos esses custos”. Curiosamente, esta atualização não teve impacto negativo na procura: “Não notámos. Estamos numa fase de crescimento muito exponencial e não sentimos propriamente uma queda na procura, pelo contrário”, revela.
Quando questionada sobre os principais fatores de pressão sobre os custos, a resposta é clara: “No caso do Hospvet são os recursos humanos”. Embora equipamentos como TAC ou ressonância representem amortizações anuais elevadas, o esforço financeiro mensal recai sobretudo sobre salários, encargos sociais e formação contínua. Este cenário reforça a necessidade de alinhar preços com uma lógica de custo-margem-lucro, explica a responsável.
Por sua vez, Patrícia Azevedo adianta que, “em relação à mão de obra veterinária, felizmente, cada vez mais o valor do nosso trabalho e especialidade se aproxima do justo”, acrescentando que “obviamente, quem paga esta parcela de aumento são forçosamente os tutores dos animas que tratamos”. Como tal, e conscientes de que o nível de compra dos portugueses não acompanha o aumento dos preços, “tivemos que criar métodos de pagamento que facilitem o mesmo”.
Métodos de pagamento: do pronto pagamento ao parcelamento
Se a evolução dos preços reflete a pressão dos custos, a evolução dos métodos de pagamento reflete a transformação do comportamento dos consumidores.
Quando abriu portas, o Hospvet não disponibilizava pagamento parcelado, recorda Mafalda Andrade: “Quando abrimos não dávamos opção de pagamento parcelado a ninguém. Era pagamento a pronto no momento da alta”. Contudo, perante a crescente solicitação dos clientes, a unidade aderiu a uma solução externa de fracionamento no final de 2024.
“Quando abrimos [o hospital] não dávamos opção de pagamento parcelado a ninguém. Só pagamento a pronto no momento da alta. Contudo, perante a crescente solicitação dos clientes, aderimos a uma solução externa de fracionamento no final de 2024, o que se revelou uma forma muito útil de ajudar o cliente e de nós não ficarmos a perder”
Mafalda Andrade, diretora executiva do HOSPVET Santa Maria da Feira
“Víamos muita gente a solicitar a opção de pagar em duas ou três vezes. Começámos a perceber que era uma possibilidade que iria ajudar efetivamente as pessoas”. A adesão intensificou-se a partir do verão de 2025, representando atualmente cerca de 10 a 15% dos pagamentos. Para a gestora, a principal vantagem é equilibrar acessibilidade e sustentabilidade financeira. “Eu não conseguia, enquanto empresa, sujeitar-me ao risco de não vir a receber. Esta foi uma forma muito útil para ajudar o cliente e para nós não ficarmos a perder”, esclarece.
Uma opinião partilhada por Patrícia Azevedo, para quem “todos os CAMV deveriam pensar em ter ao dispor do cliente todas estas formas parceladas de pagamento, mesmo acarretando uma percentagem de juro para a empresa”. O Hospital Veterinário Aristocão dispõe de todas as formas de pagamento mencionadas (numerário, multibanco, MbWay) e ainda crédito pessoal e “Parcela já!”. O importante, advoga a diretora clínica, “é existirem todo o tipo de soluções para clientes e não aumentar a tensão no ato do pagamento! Obviamente que em grande parte essa tensão tem que ser diminuída antecipadamente, com a transparência e apresentação prévia de um orçamento, para que cada cliente faça as suas contas”.
Digitalização crescente nos pagamentos
Quanto aos meios de pagamento, o multibanco continua dominante, representando cerca de 80% das transações, seguido de numerário e transferências bancárias. No entanto, a digitalização é evidente, sublinha Mafalda Andrade. “As pessoas utilizam muito mais vezes a carteira, o wallet do telemóvel, do que propriamente o cartão físico”, diz a diretora executiva do Hospvet.
Realidade partilhada no Aristocão: “A forma de pagamento preferencial continua a ser o cartão de débito, mas outras formas como a wallet, o cartão digital, a transferência bancária cada vez mais fazem parte do nosso dia a dia!”, refere Patrícia Azevedo.
“A forma de pagamento preferencial continua a ser o cartão de débito, mas outras formas como a wallet, o cartão digital, a transferência bancária cada vez mais fazem parte do nosso dia a dia”
Patrícia Azevedo, diretora clínica do Hospital Veterinário Aristocão
A tendência aponta para soluções cada vez mais facilitadoras – links de pagamento, referências multibanco e carteiras digitais – embora a implementação dependa da capacidade organizativa de cada unidade.
Entre sustentabilidade e acessibilidade
O retrato atual dos CAMV em Portugal revela um setor em crescimento, mas sujeito a fortes exigências de gestão. A subida moderada dos preços, alinhada com a inflação e a evolução salarial, contrasta com a necessidade de maior rigor na política de descontos e no controlo de margens.
Ao mesmo tempo, a introdução de soluções de pagamento parcelado e a crescente digitalização demonstram uma adaptação às expetativas dos tutores, cada vez mais habituados a flexibilidade e rapidez nas transações.
Num contexto em que os recursos humanos continuam a ser o principal centro de custos e em que consultas e vacinas mostram sinais de abrandamento, o equilíbrio entre sustentabilidade económica e acessibilidade financeira será, provavelmente, o grande desafio estratégico dos próximos anos para as clínicas e hospitais veterinários.




