Dor crónica, cuidados paliativos, oncologia, luto e qualidade de vida dos animais seniores estiveram no centro do I Congresso Internacional de Ciências Veterinárias. A iniciativa reuniu centenas de profissionais em Paredes e refletiu a crescente importância da geriatria veterinária numa altura em que os animais de companhia assumem um papel cada vez mais central nas famílias.
Com o aumento da esperança média de vida dos animais de companhia e a crescente humanização da relação entre tutores e animais, a geriatria veterinária assume hoje um papel cada vez mais central na prática clínica. O envelhecimento da população animal traz novos desafios à medicina veterinária e à enfermagem veterinária, desde o acompanhamento de doenças crónicas à gestão da dor, dos cuidados paliativos e da qualidade de vida dos pacientes seniores. Foi precisamente para discutir estas questões e promover a atualização científica dos profissionais do sector que nasceu o I Congresso Internacional de Ciências Veterinárias, subordinado ao tema “Geriatria”.
O evento realizou-se nos dias 10 e 11 de abril, no Centro Cultural de Paredes, numa iniciativa conjunta do Mestrado Integrado em Medicina Veterinária do Instituto Universitário de Ciências da Saúde (IUCS-CESPU) e da Licenciatura em Enfermagem Veterinária da Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Tâmega e Sousa (ESTeSTS) do IPSN-CESPU. Com cerca de 400 inscrições, a primeira edição do congresso – dotado de um programa científico que reuniu especialistas nacionais e internacionais em diferentes áreas das Ciências Veterinárias – ultrapassou as expectativas da organização. “O número de inscritos foi, de facto, uma belíssima surpresa”, afirmou Nuno Vieira e Brito, coordenador do Departamento de Ciências Animais e Veterinárias e presidente da comissão científica do CESPU, Instituto Universitário Ciências da Saúde. O responsável destacou o desafio de organizar um congresso desta dimensão fora dos grandes centros urbanos. “Temos aqui um papel importante, que é deslocalizar dos grandes centros, o que torna o desafio ainda maior e, sendo este o primeiro congresso, havia naturalmente algumas dificuldades acrescidas”.
A escolha da geriatria como eixo temático surgiu da necessidade de encontrar uma área transversal à medicina veterinária e à enfermagem veterinária, mas também alinhada com a evolução da relação entre os tutores e os animais de companhia. “Hoje, os animais cada vez mais são família”, sublinhou Nuno Vieira e Brito. “Tentámos encontrar uma temática que fosse útil para todos nós e que fosse relevante do ponto de vista científico e profissional”.
Abordagem multidisciplinar
O programa científico refletiu precisamente essa abordagem multidisciplinar da geriatria veterinária. Ao longo do congresso foram debatidos temas como dor crónica, nutrição clínica, doenças degenerativas, oncologia, fisioterapia, cuidados paliativos, bem-estar animal e comunicação com os tutores. O cartaz reuniu médicos veterinários, enfermeiros veterinários e investigadores portugueses e estrangeiros, promovendo a partilha de experiências clínicas e de novas abordagens terapêuticas aplicadas aos animais seniores.
Para Nuno Vieira e Brito, o sucesso da primeira edição abre caminho para a continuidade do projeto. “Isto dá-nos esperança para criarmos um segundo congresso, que iremos organizar de dois em dois anos. Dá-nos força e conhecimento para criar mais salas de conhecimento e mais temáticas, reforçando a disseminação da ciência que fazemos nos nossos cursos e que queremos transmitir aos profissionais. O congresso serve fundamentalmente para isso: é um local de transmissão de ciência e de atualização de conhecimentos”.
Também André Queiroz, membro da comissão organizadora, destacou a importância crescente da geriatria animal num contexto em que os cuidados prestados aos animais de companhia se tornam mais exigentes e especializados. “O animal cada vez mais assume um papel fundamental nas nossas famílias e os cuidados estão cada vez mais exigentes e necessários”, referiu. “Com o aumento da qualidade e da esperança média de vida dos animais, a quantidade de animais seniores cresce e isso torna esta área fundamental”.
Para André Queiroz, a forte adesão ao congresso demonstrou o interesse da classe em aprofundar conhecimentos nesta área. “Foi com bastante orgulho que agarrámos este tema e conseguimos trazer colegas internacionais que tiveram interesse em vir partilhar o seu conhecimento, o que para nós é fundamental”, afirmou. “Enche-nos de orgulho termos aqui, na nossa região e na nossa universidade, colegas médicos veterinários e enfermeiros veterinários de todo o país”.
Apesar de considerar que esta primeira edição “ainda tem muito para crescer”, o responsável acredita que o congresso representa “a primeira pedra lançada” para um projeto de longo prazo. “Penso que é um caminho com bastantes alegrias e ciência para partilhar”.
Enfermagem já é mais valorizada
A valorização da enfermagem veterinária foi, aliás, um dos temas em destaque ao longo do congresso. Nuno Lima, enfermeiro veterinário e professor associado convidado no IPSN-CESPU, considerou que o evento foi “um importante marco” para a profissão. “Este congresso veio marcar a sinergia que existe entre a medicina veterinária e a enfermagem veterinária”, afirmou.
O docente defendeu que a profissão começa a conquistar maior reconhecimento dentro das equipas clínicas. “Cada vez mais se começa a reconhecer a importância do enfermeiro veterinário nas equipas médico-veterinárias”, explicou. “O congresso veio marcar essa importância de equipas cada vez mais multidisciplinares e trabalhar aquela tríade da medicina veterinária: médicos veterinários, enfermeiros veterinários e auxiliares veterinários”.
Para Nuno Lima, o encontro permitiu ainda “denotar a componente científica da enfermagem veterinária, que ainda está pouco reconhecida na nossa sociedade”.
Entre as várias palestras apresentadas durante o congresso, uma das sessões que mais atenção despertou abordou um tema frequentemente pouco discutido na prática clínica: o luto na medicina veterinária. Na palestra “Como lidar com o luto na prática de enfermagem veterinária”, a enfermeira veterinária Cátia Domingos da Costa defendeu a necessidade de formar profissionais para comunicar de forma mais empática e consciente com os tutores em momentos de perda.
“Hoje venho partilhar convosco um tema muito importante e muito presente na nossa prática clínica, mas muito pouco abordado”, afirmou a oradora no início da sessão. O objetivo, explicou, passava por oferecer “ferramentas práticas” que os profissionais possam aplicar nas clínicas e hospitais veterinários, tanto ao nível do reconhecimento do luto como das estratégias de comunicação com as famílias.
Ao longo da intervenção, Cátia Domingos da Costa partilhou também a sua experiência pessoal enquanto tutora que enfrentou a perda de um animal, relatando frases que ouviu na altura e que considera inadequadas em contexto de luto. “Eu sei o que está a sentir”, “agora ele já não sofre mais” ou “depois vais buscar outro” foram algumas das expressões mencionadas pela enfermeira veterinária como exemplos do que deve ser evitado. “Mais vale não dizer nada. O silêncio também é válido e tem muito valor”, defendeu. Em contrapartida, sublinhou a importância de validar emoções e adotar uma comunicação simples e clara. “Hoje, tenho muito cuidado quando tenho alguém perto a passar por isto. Digo sempre: ‘Eu não sei o que está a sentir, mas sei que dói’”.
A oradora destacou ainda o papel dos enfermeiros veterinários no acompanhamento dos tutores durante todo o processo de doença e fim de vida dos animais. “Somos nós quem está com o paciente antes, durante e depois da perda”, afirmou. “Somos o elo de ligação entre a família e o médico veterinário”.
Ao abordar temas como os cuidados paliativos, a eutanásia e o impacto emocional do luto nos profissionais e tutores, a palestra trouxe para o centro do debate uma dimensão humana da prática veterinária que nem sempre recebe espaço nos congressos científicos. “Podemos ser ótimos médicos, ótimos cirurgiões, ótimos enfermeiros, excelentes em anestesia, mas se no momento do luto não tivermos empatia com a família do animal, nesse momento estamos a ser maus profissionais”, concluiu Cátia Domingos da Costa.

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