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Médicos Veterinários

“A medicina veterinária não é só clínica!”

“A medicina veterinária não é só clínica!” Direitos reservados

Em 120 anos de história da Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias (SPCV), Maria dos Anjos Pires tornou-se na primeira mulher a presidir a esta organização, algo que encara como “o desenrolar natural de um percurso de vários anos de envolvimento”. Atualmente no segundo mandato, a responsável conversou com a VETERINÁRIA ATUAL sobre os novos estatutos da SPCV, que abrem as portas da Sociedade a qualquer profissional que trabalhe comprovadamente na área das ciências veterinárias.

Tomou posse em 2022, tendo renovado recentemente o seu mandato. O que representou, pessoal e profissionalmente, ser a primeira mulher a presidir à SPCV em mais de 120 anos de história desta organização?
Se quer que lhe diga, não pensei nisso até ao dia em que aconteceu. A Sociedade tem uma história muito longa e sempre houve uma tradição muito marcada, sobretudo ligada à Faculdade [de Medicina Veterinária da Universidade] de Lisboa, que durante muitos anos foi a única escola de medicina veterinária do país. Quando eu estava a estudar, existia o hábito de os professores nos incentivarem a tornarmo-nos sócios da Sociedade, em grande parte porque a SPCV editava uma revista que, à data, era a única publicação profissional da área em Portugal e, como tal, tinha um papel muito relevante: publicava artigos científicos, mas também incluía uma componente social muito forte, com notícias sobre os profissionais, prémios, atividades várias e eventos/acontecimentos importantes na comunidade veterinária. Era um espaço de partilha e de identidade profissional. Por isso havia uma tradição natural de publicar na revista e de pertencer à Sociedade.
Quando o curso [de medicina veterinária] abriu na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), eu vim para cá e começámos a desenvolver um núcleo da Sociedade em Vila Real. Tentámos captar mais sócios, organizar atividades e dinamizar a vida científica fora de Lisboa. Começámos também a atribuir prémios e a participar na abertura do ano académico. Foi um momento importante, porque a Sociedade começou a reconhecer que existiam outras instituições formadoras e outros polos de atividade científica no país.
Mais tarde, quando o professor Luís Ferreira [médico veterinário e atual reitor da Universidade de Lisboa] foi presidente da Sociedade, convidou-me para integrar os órgãos sociais. Inicialmente hesitei, porque estava longe e achava difícil participar de forma ativa. Mas, acabei por aceitar e, desde então, mantive sempre uma ligação à direção da SPCV. A minha presidência surge, assim, neste percurso natural de envolvimento ao longo de muitos anos.

 

Como evoluiu o papel da Sociedade desde a sua fundação até hoje?
A SPCV nasceu como ponto de encontro e de união dos veterinários portugueses. No início do século XX, quando os primeiros veterinários regressaram a Portugal formados no estrangeiro, sentiram necessidade de criar uma associação profissional. As primeiras reuniões ocorreram ainda antes de 1902, ano em que foram formalizados os estatutos. Esse documento histórico ainda existe e está guardado na sede.
Durante décadas, a sociedade funcionou como espaço central de discussão científica e profissional. Mais tarde, com a criação do sindicato – que passou a assegurar a vertente profissional formal – e posteriormente com a criação da Ordem dos Médicos Veterinários (OMV), parte dessa função agregadora foi naturalmente redistribuída.
A partir do final dos anos 60 e sobretudo nos anos 70 do século passado começaram a surgir sociedades especializadas, muitas delas ligadas à SPCV. Foram criadas, por exemplo, sociedades dedicadas à patologia animal, à reprodução animal ou à epidemiologia. Algumas mantiveram atividade ao longo do tempo, outras acabaram por desaparecer.
Hoje, a Sociedade mantém-se ativa sobretudo graças ao empenho das pessoas que a integram. Continuamos a organizar atividades científicas, a apoiar congressos e a manter a revista, que permanece um símbolo histórico e científico muito importante.

A revista continua ativa e a ser publicada com regularidade?
Mantém-se ativa, embora com uma frequência de publicação inferior à que gostaríamos. Um dos nossos objetivos é conseguir que a revista venha a ser indexada internacionalmente. No entanto, esse processo implica custos elevados e exigências editoriais muito rigorosas. Atualmente, os investigadores são avaliados com base em publicações indexadas, o que torna difícil captar submissões para revistas que ainda não o são. Mesmo assim, vamos publicar um número especial dedicado aos insetos no âmbito do projeto InsectERA – um projeto do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) em que estamos envolvidos – que esperamos que contribua para aumentar a visibilidade da revista.

 

Quantos sócios tem atualmente a Sociedade?
A sobrevivência financeira da sociedade é um desafio permanente. Dependemos essencialmente das quotas dos sócios e o número de contribuintes ativos é reduzido. Sócios pagantes temos cerca de cinquenta. No passado chegámos a ter mais de mil associados e o número nominal continua elevado, mas muitos deixaram de pagar quotas ao longo do tempo. Isso limita significativamente a capacidade de organização de atividades e de investimento em projetos estruturantes.

“Os médicos veterinários estão presentes na saúde pública, na segurança alimentar, na investigação biomédica, na indústria farmacêutica, na epidemiologia, na nutrição animal e em muitas outras áreas. […] É importante transmitir essa visão abrangente, tanto para os profissionais, como para a sociedade em geral”

 

Os estatutos da SPCV foram recentemente alterados. O que mudou de forma mais significativa?
Durante muito tempo, apenas médicos veterinários podiam ser membros efetivos da sociedade. Considerámos que essa limitação era redutora e não correspondia à realidade atual das ciências veterinárias, que são por natureza multidisciplinares. Trabalhámos quase uma década na revisão dos estatutos e, desde 2020, qualquer profissional que trabalhe comprovadamente na área das ciências veterinárias pode integrar a sociedade. Isso inclui investigadores, biólogos, zootécnicos, entre outros.
Temos já membros que não são médicos veterinários e, neste sentido, estamos a acolher, muito especialmente, os enfermeiros veterinários. Estes profissionais têm um papel determinante na prática da veterinária atual. Neste sentido, criámos um prémio para os melhores alunos de enfermagem veterinária, que atribuímos pela primeira vez em novembro de 2025.
O objetivo é criar um espaço verdadeiramente agregador de todas as profissões ligadas à área.

Essa abertura tem trazido uma nova dinâmica à sociedade?
Gostaria que trouxesse ainda mais. A diversidade é essencial para o progresso. Uma equipa composta por pessoas com formações semelhantes tende a reproduzir sempre os mesmos modelos de pensamento. Precisamos de perspetivas diferentes, experiências diferentes e abordagens complementares.
A atual direção reúne representantes de várias instituições e áreas científicas. Essa diversidade é intencional e reflete a visão de uma Sociedade que pretende ser um espaço de convergência.

 

Qual é hoje a principal missão da SPCV?
A missão central é a divulgação das ciências veterinárias e a promoção do conhecimento científico na área. Queremos valorizar a investigação, incentivar a publicação e proporcionar espaços de formação e debate.
Também procuramos oferecer atividades que complementem os grandes congressos científicos, como seminários temáticos, encontros de partilha de experiências profissionais e iniciativas de caráter cultural e histórico. Realizar iniciativas de divulgação da SPCV e continuar a promover a entrega dos Prémios da SPCV aos melhores alunos de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária são outras das nossas prioridades estratégicas.
A Sociedade distingue-se por ser abrangente. Não representa uma única especialidade, mas todo o campo das ciências veterinárias. É um espaço de encontro, de publicação e de circulação de conhecimento.

A dimensão histórica e patrimonial parece ter um peso particular.
Sem dúvida! Temos um espólio documental único, com revistas publicadas desde o início do século XX. Gostaríamos de digitalizar integralmente esse arquivo, mas ainda não conseguimos financiamento para o fazer.
Preservar essa memória é fundamental. A história da Sociedade acompanha a própria evolução da medicina veterinária em Portugal e constitui um património científico e cultural de grande valor.

Podemos dizer que a Sociedade faz a ponte entre investigação científica e prática clínica?
Sempre fez. Historicamente, a revista publicou artigos científicos e descrições de casos clínicos relevantes. Foi um espaço importante de divulgação de conhecimento aplicado.
Um exemplo simbólico foi a publicação da primeira descrição da doença hemorrágica do coelho em Portugal. Esse tipo de registo demonstra o papel da Sociedade na documentação da evolução sanitária e científica da área.
Também incentivámos durante décadas a publicação de trabalhos de estudantes, contribuindo para a formação científica de novas gerações.

Quais são as prioridades para o atual mandato?
As prioridades desta direção passam por reforçar a visibilidade da Sociedade, publicar o número especial da revista sobre o projeto InsectERA, promover seminários temáticos e dar voz a profissionais com percursos diversos dentro das ciências veterinárias.
A medicina veterinária não é só clínica! Queremos mostrar que esta área é muito mais ampla do que a prática clínica tradicional e evidenciar a diversidade de oportunidades profissionais. 

“As prioridades desta direção passam por reforçar a visibilidade da Sociedade, publicar o número especial da revista sobre o projeto InsectERA, promover seminários temáticos e dar voz a profissionais com percursos diversos dentro das ciências veterinárias”

Essa afirmação de que a veterinária vai muito além da clínica é uma ideia que defende desde sempre. Porquê?
Porque corresponde à realidade. Os médicos veterinários estão presentes na saúde pública, na segurança alimentar, na investigação biomédica, na indústria farmacêutica, na epidemiologia, na nutrição animal e em muitas outras áreas. Historicamente, os veterinários tiveram contributos fundamentais na microbiologia, na parasitologia e na virologia. A profissão está profundamente ligada ao conceito de prevenção e à abordagem integrada da saúde humana, animal e ambiental. É importante transmitir essa visão abrangente, tanto para os profissionais como para a sociedade em geral.

Que mensagem gostaria de deixar numa perspetiva de futuro da SPCV?
A de que todos os profissionais das ciências veterinárias são bem-vindos. Uma Sociedade com mais de um século de história só se mantém viva se for capaz de integrar pessoas, ideias novas e visões inovadoras.
Queremos preservar o nosso património científico e histórico, a nossa herança e tradição, alicerçando nestes pilares a construção do futuro. A continuidade depende da participação e do envolvimento de todos.

 

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