O gato será apenas um hospedeiro acidental ou a espécie felina desempenhará um papel relevante na epidemiologia da leishmaniose? Carla Maia e André Pereira estão a realizar um estudo epidemiológico sobre a leishmaniose felina em Portugal de forma a responder a esta e a outras questões problemáticas que a VETERINÁRIA ATUAL encontrou na prática clínica sobre a prevenção, o diagnóstico e tratamento desta parasitose na espécie felina.
A ideia começou a tomar uma forma mais consistente depois da publicação, em 2021, da tese de doutoramento em Ciências Biomédicas, na especialidade em Parasitologia, de André Pereira – Reservoirs of zoonotic leishmaniosis: the role played by domestic cats. Neste trabalho, o médico veterinário e investigador – muito instigado pela orientadora Carla Maia, reconhecem ambos em conversa com a VETERINÁRIA ATUAL – procurou “trazer dados novos sobre o papel epidemiológico do gato na leishmaniose zoonótica. Existem várias espécies de Leishmania, nem todas são zoonóticas, sendo a espécie que normalmente afeta os cães, e também os gatos [Leishmania infantum], uma espécie zoonótica”, com implicações conhecidas para a saúde tanto de animais, como de humanos.
Efetivamente, reconhece o também professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona, o cão “absorve grande protagonismo enquanto reservatório” da cadeia de transmissão do protozoário, conhecendo-se a prevalência nacional da infeção por Leishmania nesta espécie, considerada endémica no País. Recorde-se que, de acordo com o mais recente inquérito seroepidemiológico canino realizado em Portugal Continental, em 2021 (Almeida M. et. al, 2022), a prevalência da infeção no Continente chega aos 12,5%, muito embora distritos como Castelo Branco, Guarda e Portalegre tenham registado prevalências quase a rondar os 30%, seguidos de perto por alguns concelhos de Trás-os-Montes e de Setúbal.
Mas, sobre a leishmaniose em gatos, o que se conhece? No trabalho da tese de doutoramento, que acabou por resultar na publicação de vários papers, o médico veterinário, fez uma revisão sistemática da evidência já publicada e conduziu testes laboratoriais, observando que “o gato não é meramente um hospedeiro acidental, podendo também desempenhar um papel relevante na epidemiologia e contribuir para a transmissão do agente infecioso, neste caso a Leishmania”. Os dados analisados laboratorialmente mostraram que “aproximadamente 50% dos gatos que testámos tinham evidências serológicas de terem sido picados pelo vetor”, comprovando que a espécie está, tal como acontece com os cães, muito exposta ao contacto com o flebótomo, levando André Pereira a assumir: “Claramente, o gato reúne todos os requisitos estabelecidos pelas entidades oficiais para ser considerado um hospedeiro reservatório. Depois, o cerne da questão é averiguar se será um reservatório primário ou secundário, ou seja, se na ausência do cão teria a capacidade de manter o parasita. Neste caso, estando nós a falar de uma área endémica, se teria essa capacidade de manter o parasita e contribuir para a transmissão através do vetor”.
“O gato reúne todos os requisitos estabelecidos pelas entidades oficiais para ser considerado um hospedeiro reservatório. Depois, o cerne da questão é averiguar se será um reservatório primário ou secundário, ou seja, se na ausência do cão teria a capacidade de manter o parasita”
André Pereira, investigador e professor Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona
A resposta poderá ser encontrada quando os investigadores conseguirem “juntar as peças do puzzle e, para isso, é importantíssimo termos dados clínicos do que acontece nas clínicas e nos hospitais nacionais”. Nesse sentido, no início de 2026, André Pereira e Carla Maia lançaram-se na condução de um estudo epidemiológico alargado da leishmaniose felina (FeL, o acrónimo anglo-saxónico) em Portugal, para o qual contam com a colaboração dos centros de atendimento médico-veterinário (CAMV) de todo o País. “Nesta fase estamos a tentar estabelecer pontos de contacto com os CAMV para que estes nos possam dizer se já diagnosticaram um caso, como é que houve a suspeita, que sinais clínicos estiveram associados, se o animal fazia ou não algum tipo de prevenção contra o vetor, como foi estabelecido o plano terapêutico e por aí fora”, explica o investigador. E os médicos veterinários que tiverem alguma experiência com FeL podem também contactar os dois investigadores e reportarem os casos para o estudo.
“Isto não é uma doença rara [em gatos]”
Carla Maia tem dedicado a vida profissional à parasitologia e é uma voz reconhecida nacional e internacionalmente quando o assunto é leishmaniose, com muitos estudos publicados sobre a infeção em cães. Não obstante, a especialista diplomada pelo European Veterinary Parasitology College e investigadora do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), admite que, cada vez mais, se tem cruzado com o tema da FeL, seja na realização de estudos epidemiológicos com gatos de rua – aproveitando o momento em que os gatos vão ser esterilizados para recolher amostras e pesquisar anticorpos que denunciem o contacto com vetor de transmissão – ou na interação com colegas que, conhecendo o trabalho que tem desenvolvido, a procuram por terem um gato com diagnóstico e manifestações clínicas à procura de apoio e orientações. E encontrámos, precisamente um desses casos, mas já lá iremos.
Toda a experiência adquirida faz a médica veterinária e investigadora admitir que “isto não é uma doença rara [em gatos]”, estará apenas a escapar aos radares de médicos veterinários na prática clínica e de investigadores na academia. Afinal, explica, há muitas décadas que no mundo se estuda a leishmaniose em cães – modos de transmissão, sinais e sintomas, métodos de prevenção e tratamentos – e, ainda assim, a comunidade científica está convencida de que ainda se conhece apenas a ponta do iceberg da prevalência nesta população. Atendendo à pouca atenção que a infeção nos felinos tem recebido nos consultórios médico-veterinários e na academia, é de admitir que o conhecimento até agora obtido seja uma ínfima parte da ponta do iceberg da realidade epidemiológica da FeL. Até porque os felinos têm sido tradicionalmente considerados resistentes à infeção por Leishmania, enquanto os canídeos sempre foram apontados com o principal reservatório do protozoário.
Não obstante, como é recordado nas guidelines para a FeL do European Advisory Board on Cat Diseases (ABCD), a infeção em felinos tem sido reportada esporadicamente em todo o mundo, nomeadamente nas mesmas regiões em que a doença ocorre em cães e humanos.
A título de curiosidade, o primeiro caso da infeção num felino doméstico por Leishmania, lê-se no documento, revisto no final de 2024, foi reportado na Argélia no início do Séc. XX (Sergent et al., 1912), na sequência da investigação ao diagnóstico de leishmaniose num bebé que vivia com um cão e um gato. A presença do protozoário foi confirmada após a realização da necropsia nos dois animais de companhia.
O documento fala ainda sobre as taxas de prevalência, que variam consoante a metodologia utilizada nos poucos estudos epidemiológicos conduzidos, apontando que “as taxas positivas de PCR no sangue variam entre 0,43 e 61% na população de gatos testados e a prevalência de anticorpos [oscila] entre 3 e 59%, com muito poucos estudos encontrando com taxas de positividade zero (Pennisi et al., 2015)”.
Na ficha informativa do grupo LeishVet sobre a FeL também se assume que este “é um tema de interesse para a medicina felina” e que “os gatos desempenham um papel importante na abordagem One Health para a abordagem à leishmaniose”. Os motivos prendem-se com o número crescente de investigações que têm confirmado a suscetibilidade da raça à infeção por Leishmania, a ficha fala em cerca de 140 casos clínicos relatados na Europa nas últimas três décadas, demonstrando que “os gatos infetados podem representar um reservatório doméstico adicional de L. infantum para humanos, cães e outros hospedeiros suscetíveis, incluindo os próprios gatos”, acrescenta o documento.
Um dos trabalhos internacionais realizados nesta temática, e que dão suporte a estas posições, foi a revisão publicada no jornal Parasites & Vectors (Garcia-Torres M. et. al, 2022), na qual se procuraram relatos de casos de FeL causada por L. infantum entre 1912 e 1 de junho de 2021. Foram incluídos 63 relatos de casos de gatos com a infeção, dos quais 59 eram da Europa, principalmente de países mediterrâneos (88,9%), a maioria dizia respeito a gatos domésticos de pelo curto (90%) e com acesso ao exterior (77.3%). As conclusões deste trabalho apontam ainda características que têm sido achados comuns noutras investigações, inclusive na revisão publicada por André Pereira e Carla Maia – Leishmania infection in cats and feline leishmaniosis: An updated review with a proposal of a diagnosis algorithm and prevention guidelines – e são sobejamente apontadas nos documentos do ABCD e do grupo LeishVet: a maioria dos gatos infetados apresenta comorbilidades, sendo a infeção pelo vírus da imunodeficiência felina (FIV) a mais frequente, as lesões dermatológicas foram o sinal clínico mais frequente e a hiperproteinemia o achado clinicopatológico mais comum.
Pontos-chave das orientações do ABCD para a FeL
- Apenas casos esporádicos da doença felina foram relatados em todo o mundo em áreas endémicas de leishmaniose canina, principalmente causados por infantum;
- Investigações epidemiológicas confirmaram, no entanto, que as infeções felinas não são raras e a ocorrência da doença pode estar subestimada em áreas endémicas;
- Mais da metade dos casos apresenta lesões dermatológicas e mucocutâneas (principalmente dermatite ulcerativa e nodular) e aumento dos linfonodos. Por vezes, esses são os dois únicos achados no exame físico;
- Lesões oculares (blefaroconjuntivite, ceratite, uveíte, panoftalmite) e orais (nódulos, gengivoestomatite crónica), bem como sinais clínicos gerais (perda de peso, diminuição do apetite e letargia), anemia, hiperglobulinemia e proteinúria são relatadas em 20-30% dos gatos;
- São frequentemente observadas coinfecções e comorbidades nos felinos diagnosticados com leishmaniose;
- A confirmação parasitológica da leishmaniose pode ser obtida por meio da avaliação citológica de amostras lesionais da pele, membranas mucosas, quaisquer outros tecidos afetados, linfonodos, baço e medula óssea;
- A histologia com imuno-histoquímica é necessária quando a citologia não é diagnóstica e comorbidades ou outras doenças precisam ser excluídas;
- Deteção de DNA do parasita por PCR em amostras lesionais, tecidos-alvo (órgãos linfoides, medula óssea), sangue, mucosas esfregaços, etc. confirmam a infeção, mas o diagnóstico de leishmaniose clínica é obtido quando os padrões citológicos/histológicos das lesões, os sinais clínicos e outras alterações laboratoriais são compatíveis com leishmaniose;
- A terapia é baseada empiricamente nos mesmos medicamentos usados para tratar cães afetados por leishmaniose canina, apesar de não estarem licenciados para o tratamento de gatos. O alopurinol (às vezes em combinação com antimoniato de meglumina) é o medicamento mais frequentemente usado;
- A cura clínica pode ser obtida, mas a infeção não é eliminada e a recorrência dos sinais clínicos pode ocorrer após a interrupção da terapia, tal como acontece em cães;
- O prognóstico é influenciado por comorbidades (neoplasia, doença renal crónica) e estas devem ser cuidadosamente investigadas;
- A prevenção baseia-se na aplicação de ectoparasiticidas piretróides, que são eficazes contra o vetor.
O desafio da FeL começa logo no diagnóstico
Não havendo grande historial de estudos epidemiológicos de FeL, o que mais chega às publicações científicas são relatos de casos clínicos de gatos que desenvolveram a doença. E esses casos refletem a complexidade das decisões clínicas de quem segue um gato com leishmaniose clinicamente ativa, como o que chegou até André Pereira e Carla Maia e acabou por resultar numa publicação no Topics in Companion Animal Medicine, pela raridade da sintomatologia apresentada.
Tratou-se de uma gata com oito anos de idade, positiva para o vírus FeLV, recebida por Joana Valente no consultório, em 2014, devido a múltiplas lesões nodulares nas pálpebras de ambos os olhos. A médica veterinária do Anicura Alma Veterinária Hospital Veterinário, que foi responsável pelo Departamento de Medicina Felina e hoje é diretora clínica da unidade hospitalar, lembra na conversa com a VETERINÁRIA ATUAL, que o animal também apresentava hiperproteinemia e hiperglobulinemia, um achado que repetia várias vezes ao longo do seguimento em clínica, mas foi a lesão cutânea que levou à realização de uma citologia na qual “foi facilmente percetível a presença de Leishmania”. A clínica frisa que, perante qualquer nódulo, o “picar para analisar” é o procedimento de rotina, mas admite: “Nunca esperámos que [este diagnóstico] fosse o mais provável, porque não é assim tão frequente. Não foi a nossa primeira suspeita e, na realidade, foi realmente uma surpresa”.
Inês Cunha Machado entende as palavras da colega de profissão. Dedicada à área da Infeciologia felina, a médica veterinária admite que, quando um gato chega à consulta com sintomas clínicos “pensamos em muitas outras coisas antes da leishmaniose”. No topo da lista estão sempre o FIV, o FeLV, a peritonite infeciosa felina (PIF), todas as doenças infeciosas que podem afetar os felinos e, claro, as doenças do foro oncológico, ao contrário do cão que tem sempre a leishmaniose no core de doenças a despistar numa anamnese. E resume a problemática do diagnóstico da FeL numa frase: “Os gatos são mestres em esconder a doença [a leishmaniose], têm sinais clínicos menos óbvios do que os cães e os sinais que apresentam são parecidos com as outras doenças da espécie felina”.
“Os gatos são mestres em esconder a doença [a leishmaniose], têm sinais clínicos menos óbvios do que os cães e os sinais que apresentam são parecidos com as outras doenças da espécie felina”
Inês Cunha Machado, médica veterinária do Grupo Hospital do Gato
A médica veterinária do Grupo Hospital do Gato também segue o caso de um gato de quatro anos, diagnosticado aos três anos com FeL, mas que chegou até ela já com diagnóstico feito, depois de descartadas outras doenças infeciosas e de investigado um quadro severo de anemia.
Os investigadores dão uma achega nesta problemática do diagnóstico da FeL. André Pereira reforça que “se o veterinário acha que o gato vai apresentar manifestações clínicas iguais aos quadros típicos do cão, não é assim que acontece. No caso dos gatos, as manifestações clínicas tendem a ser muito subtis”. Além disso, acrescenta Carla Maia, “não existem testes para gatos, à semelhança dos kits comerciais que já existem para cães” e que qualquer clínica tem à disposição para realizar testes rápidos de deteção de anticorpos.
O que acontece habitualmente, reconhecem os médicos veterinários ouvidos pela VETERINÁRIA ATUAL, são pedidos de avaliação citopatológica ou histológica de lesões apresentadas pelos felinos, nas quais o patologista acaba por identificar o parasita. Daí que, perante a variedade de “barreiras” que existem ao diagnóstico, Inês Cunha Machado admita que a FeL “estará muito subdiagnosticada, porque apenas uma pontinha do iceberg revela os sinais clínicos mais típicos, que nos levam à suspeita” e ao consequente diagnóstico. Não esquecendo que, tal como acontece nos cães, algumas das lesões até podem ser autorresolúveis o que deixa os gatos ainda mais fora do radar dos médicos veterinários. “Por outro lado, como a leishmaniose pode aparecer em concomitância com outras doenças, como a FIV e o FeLV, e quando as detetamos costumamos parar a investigação por aí, pois estas infeções podem justificar grande parte dos sinais. Contudo, podem sugerir-nos estarmos perante uma coinfecção com Leishmania, portanto, acho que temos de apostar mais no diagnóstico [da leishmaniose]”, acrescenta.
Sobre o diagnóstico, as orientações grupo LeishVet recomendam a triagem de gatos clinicamente saudáveis por meio de sorologia quantitativa e técnicas de PCR em áreas endémicas se estes forem doadores de sangue – para reduzir o risco potencial de transmissão não vetorial por meio de transfusão sanguínea – e em gatos que necessitam de terapias imunossupressoras crónicas, assim como antes da viagem de gatos para áreas não endémicas. E equacionam mesmo a testagem generalizada de gatos saudáveis em zonas endémicas.
Tratamento da FeL: outra dor de cabeça para médicos veterinários
Ultrapassado o momento do diagnóstico, chega outro desafio na FeL: o tratamento. As linhas orientadoras oficiais sublinham o motivo por que os médicos veterinários estão, muitas vezes, a navegar à vista enquanto tratam um gato diagnosticado com leishmaniose. “As informações sobre a terapia para FeL atualmente são derivadas exclusivamente de estudos descritivos e não controlados”, frisa a ficha informativa do grupo Leishvet, e as orientações do ABCD explicam que “isso significa que o nível atual de evidências para declarações e recomendações sobre o manejo da FeL é inferior ao da leishmaniose canina (LC). O tratamento de gatos com leishmaniose clínica ainda é baseado empiricamente e fora da bula, utilizando os medicamentos mais comuns administrados a cães. Portanto, os gatos em tratamento devem ser cuidadosamente monitorizados quanto a possíveis efeitos adversos”.
Na investigação para a tese de doutoramento, André Pereira também percebeu que na prática clínica “o que se tem feito é uma imitação do que se faz no cão, adaptando os protocolos dos cães à realidade dos gatos”. O alopurinol e o antimoniato de meglumina são as terapêuticas mais usadas no tratamento da FeL, com os ajustes necessários, muito embora a monitorização tenha de ser particularmente apertada nesta espécie. “Temos as consequências do tratamento, que também ocorrem no cão, mas no gato é um bocadinho mais complexo, pois há possibilidade de lesão renal. Sendo o rim um órgão muito sensível em gato, [a terapêutica] exige uma monitorização atenta e, infelizmente, por vezes temos mesmo a necessidade de interromper o tratamento”, reforça Inês Cunha Machado. O gato seguido pela médica veterinária no Grupo Hospital do Gato tem respondido bem ao tratamento – com alguns efeitos secundários, nomeadamente cristais de xantina no trato urinário – e segue um plano de acompanhamento regular que o tem mantido assintomático. Tal como acontece nos cães, a FeL não tem cura, podendo ter momentos de reativação com sinais clínicos mais ou menos exuberantes.
E foi o que aconteceu no caso clínico acompanhado por Joana Valente. Apesar de a gata ter respondido “muito bem” ao tratamento com alopurinol, os tutores tiverem alguma dificuldade na compliance das indicações médico-veterinárias: quando a gata melhorava deixavam de fazer a medicação e o plano de consultas de avaliação periódica não era seguido. As consequências fizeram-se sentir na saúde do animal de companhia, com a gata a aparecer, em dezembro de 2017, na urgência do hospital com uma uveíte e, novamente, com hiperproteinemia e hiperglobulinemia. Apesar de ser uma gata com FeLV, perante valores analíticos muito semelhantes aos apresentados aquando do diagnóstico da infeção quase quatro anos antes, a equipa partiu logo para o tratamento com alopurinol, com uma resposta parcial nos sintomas oculares. Todavia, passado um par de meses, a gata apresentou uma tumefação na glândula mamária, com acumulação de líquido inflamatório. “Na altura, fiz a recolha desse líquido inflamatório diretamente na glândula mamária e observamos as Leishmânias, mesmo estando a fazer alopurinol”, recorda a médica veterinária, sublinhando ser “uma apresentação [de leishmaniose] que nunca tinha sido descrita em gatos, nem em cães, e foi isso que nos levou a fazermos a publicação do artigo”.
Associou-se, então, glucantime ao alopurinol e, novamente, a gata responde muito bem ao tratamento, “revertendo na totalidade toda a apresentação” sintomatológica. “A gatinha, entretanto, faleceu em 2021, com um quadro generalizado da Leishmania, por falta de compliance por parte dos tutores devido a questões financeiras. Deixou de vir durante muito tempo às consultas de controlo e acabou por falecer com um estado sistémico bastante evidente”, lamenta Joana Valente.
Não obstante o desfecho, a diretora clínica destaca a importância deste caso na demonstração de como, “no caso dos gatos, a Leishmania pode ter diferentes apresentações, até dentro do mesmo animal, em alturas diferentes, e isso faz com que o diagnóstico seja ainda mais desafiante nos felinos”.
A necessidade de mudar o mindset
Se são notórios os desafios no diagnóstico e tratamento da FeL, também na prevenção da picada do flebótomo as ferramentas ao dispor de médicos veterinários e de tutores são poucas, faltando, por exemplo, uma vacina à semelhança da que existe para os cães. E como se lê na ficha informativa do grupo LeishVet, em termos de repelentes, “a maioria dos piretróides é tóxica para gatos e apenas coleiras que liberam uma combinação de flumetrina e imidacloprida são atualmente licenciadas e comprovadamente seguras para uso na prevenção da infeção por L. infantum em gatos”.
Apesar de seguras e eficazes, este tipo de coleiras não são largamente usadas pois, como lembra André Pereira, apesar de os gatos frequentemente terem acesso ao exterior e fazerem passeios a qualquer hora do dia, os tutores evitam usá-las com medo de que os animais fiquem presos, o que deixa o gato “completamente desprotegido e altamente suscetível a ser picado pelo flebótomo” e infetado com o parasita.
Esta fragilidade da espécie felina é ainda exacerbada pela vasta existência de colónias assilvestradas, nas quais permanecem muitos gatos vulneráveis pela elevada prevalência de FIV e FeLV que podem ser reservatórios para alimentação do flebótomo e consequente disseminação da infeção. Nessa medida, no combate a esta zoonose Carla Maia enfatiza a importância de uma “abordagem integrada”, pois, frisa, “a abordagem One Health, tem de ser vista pelos diferentes prismas. Não se pode só focar no cão, ou no gato, ou no ser humano”. Afinal, é de recordar que Portugal tem também registado um aumento significativo na incidência nacional de leishmaniose humana desde 2016, como a VETERINARIA ATUAL publicou na edição de junho de 2025. Nessa abordagem integrada, o controlo do vetor de transmissão é fundamental e está muito dependente da correta utilização de repelentes e da vacinação generalizada contra o flebótomo nos cães e da utilização das coleiras indicadas para os felinos, uma vez que “os piretróides, além de terem um efeito repelente, também têm um efeito inseticida” que elimina o vetor de transmissão.
Pelo cenário relatado pelos investigadores e pelas médicas veterinárias à VETERINÁRIA ATUAL, a realização do estudo epidemiológico nacional pode, na perspetiva de Carla Maia, “sensibilizar os colegas para esta temática. Acho que ainda há muitos colegas que não incluem no diagnóstico diferencial a leishmaniose felina, mesmo que tenham as suas clínicas em zonas que sabemos serem endémicas, devido à prevalência que conhecemos nos cães”. E não conhecer a realidade vivida no terreno compromete a abordagem integrada à infeção na visão One Health necessária para o combate ao agente transmissor do parasita.
“Acho que ainda há muitos colegas que não incluem no diagnóstico diferencial a leishmaniose felina, mesmo que tenham as suas clínicas em zonas que sabemos serem endémicas, devido à prevalência que conhecemos nos cães”
Carla Maia, médica veterinária e investigadora do IHMT
“A magnitude da doença [leishmaniose] em Portugal, diria mesmo na maioria dos países endémicos, não é conhecida”, reforça André Pereira, que espera poder melhorar o conhecimento sobre a FeL a nível nacional com a realização do estudo. E porque só é possível prevenir aquilo que se conhece, o investigador lembra que “existem zonas hiperendémicas nas quais o parasita circula com uma intensidade acima da média” e, nessa medida, “qualquer médico veterinário em Portugal deve assumir que a leishmaniose é endémica. E se temos uma doença endémica, devemos estar particularmente sensibilizados para conseguir diagnosticá-la. A perceção que tenho é de que, no caso dos gatos, muitos diagnósticos são feitos de forma acidental”.
As clínicas admitem ambas a necessidade de mudança de paradigma no olhar dos médicos veterinários para os felinos. “Talvez tenhamos de mudar o chip e após diagnosticar uma doença imunossupressora, ou antes de partirmos para a realização de um tratamento imunossupressor a longo prazo, devemos pensar também em fazer um despiste de leishmaniose. Não podemos esquecer que [a infeção] também pode contribuir para o insucesso no tratamento de outras comorbilidades”, sugere Inês Cunha Machado.
Joana Valente concorda: “O que podemos melhorar é mudar o mindset de que a leishmaniose é uma doença canina e devemos incluí-la também como uma possibilidade de diagnóstico em gatos, ainda para mais estando nós numa zona endémica”. Esta médica veterinária acredita na importância deste estudo, admite que vá revelar como a FeL está subdiagnosticada, mas, sobretudo, tem esperança de que este trabalho também consiga alertar para a necessidade de ter uma indústria farmacêutica atenta a “este nicho de evolução na procura de soluções” para estes animais.
“O que podemos melhorar é mudar o mindset de que a leishmaniose é uma doença canina e devemos incluí-la também como uma possibilidade de diagnóstico em gatos, ainda para mais estando nós numa zona endémica”
Joana Valente, médica veterinária do Anicura Alma Veterinária Hospital Veterinário





