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Uma visão multidisciplinar do diagnóstico da leishmaniose

2.ª Edição do LETILEISH: Uma visão multidisciplinar do diagnóstico da leishmaniose Direitos Reservados

A 2.ª edição do LETILEISH reuniu, no passado dia 21 de maio, em Lisboa, especialistas de referência na área da medicina veterinária para debater os mais recentes avanços no diagnóstico da leishmaniose. Promovido pela LETI Pharma, o encontro decorreu no Jardim Botânico Vandelli e destacou-se pelo debate em torno da abordagem multidisciplinar de uma das doenças parasitárias com maior impacto na prática clínica veterinária.

Sob o mote “Uma visão multidisciplinar do diagnóstico da leishmaniose”, a 2.ª edição do LETILEISH juntou médicos veterinários e profissionais do setor para uma tarde de partilha científica, análise de casos clínicos e discussão de novas ferramentas de diagnóstico desta zoonose, em torno de um programa centrado na atualização científica e na aplicação prática do conhecimento.

 

A médica veterinária espanhola Laia Solano abordou as atuais ferramentas de diagnóstico disponíveis, destacando os desafios associados à deteção precoce da doença e a importância da integração de diferentes métodos laboratoriais. A especialista, diplomada pelo Colégio Europeu de Patologia Clínica Veterinária (ECVCP), começou por sublinhar que a infeção por Leishmania apresenta um amplo espectro clínico, desde animais infetados, mas assintomáticos, até casos graves que apresentam doença sistémica e renal.

Laia Solano descreveu as principais alterações clínicas e laboratoriais associadas à leishmaniose, incluindo lesões cutâneas e oculares, alterações neurológicas, anemia, hiperglobulinemia, proteinúria e sinais de doença renal, enfatizando, de forma particular, a importância da monitorização renal, e referindo marcadores como o rácio proteína-creatinina urinário e novos indicadores de lesão tubular, essenciais para detetar compromisso renal precoce. A oradora destacou ainda que o diagnóstico da leishmaniose não deve basear-se num único teste. Defendeu uma abordagem integrada que combine história clínica, exame físico, hemograma e testes específicos, como serologia, PCR, citologia, histologia e técnicas de deteção da imunidade celular. Salientou que cada método fornece informações complementares e que a interpretação conjunta dos resultados é fundamental para distinguir infeção subclínica de doença ativa.

 

Por fim, a especialista alertou para a necessidade de monitorizar cães aparentemente saudáveis mas seropositivos, uma vez que alguns poderão evoluir para doença clínica. Defendeu também o papel dos programas de rastreio em animais de zonas endémicas e antes da vacinação, permitindo identificar precocemente infeções e melhorar o acompanhamento clínico.

 

Novos biomarcadores e precisão diagnóstica
Por sua vez, Guadalupe Miró, médica veterinária pela Universidade Complutense de Madrid e especialista em parasitologia pelo Colégio Europeu, centrou a sua apresentação na relevância dos novos biomarcadores e na interpretação de casos clínicos, evidenciando o papel crescente da inovação científica na melhoria da precisão diagnóstica e do acompanhamento dos pacientes.

A oradora começou por defender que o diagnóstico é a base de toda a abordagem clínica, salientando que não depende apenas de recursos tecnológicos avançados, mas sobretudo da escolha adequada das técnicas diagnósticas em função de cada paciente. Neste sentido, sugeriu a utilização de protocolos sustentados em medicina baseada na evidência e na aplicação de guidelines clínicas, fundamentais para uniformizar critérios, classificar os doentes, orientar o tratamento e estabelecer prognósticos mais fiáveis.

 

A apresentação incluiu também a discussão de casos clínicos reais, utilizados para demonstrar a complexidade da interpretação diagnóstica em cães expostos ao mesmo contexto epidemiológico, mas com manifestações clínicas distintas. Através destes exemplos, evidenciou-se a importância de integrar informação clínica, serológica, molecular e laboratorial para distinguir infeção subclínica de doença ativa e definir estratégias terapêuticas adequadas.

Por fim, Guadalupe Miró destacou o contributo crescente da genética e da investigação translacional na compreensão da suscetibilidade individual à doença, salientando que determinadas raças apresentam maior predisposição para formas graves de leishmaniose. Concluiu defendendo que o futuro do diagnóstico passa pela combinação de biomarcadores, monitorização longitudinal e interpretação clínica integrada, permitindo uma medicina veterinária mais precisa e personalizada.

Recidivas: Que desafios?
Rodolfo Oliveira Leal trouxe para a discussão a abordagem diagnóstica das recidivas, tema considerado particularmente relevante na gestão clínica da leishmaniose canina. A apresentação suscitou um debate alargado entre os participantes sobre os desafios terapêuticos e o acompanhamento a longo prazo dos animais afetados. Através da apresentação de casos clínicos reais, o médico veterinário e especialista europeu em medicina interna destacou a complexidade da interpretação dos sinais clínicos, a importância do diagnóstico diferencial e as dificuldades associadas ao acompanhamento prolongado destes pacientes.

O preletor começou por salientar que as recaídas são relativamente frequentes na leishmaniose canina e que nem sempre são fáceis de identificar, explicando que muitos cães apresentam sinais clínicos semelhantes aos observados no diagnóstico inicial. Porém, alertou para a necessidade de evitar conclusões precipitadas, reforçando que nem todas as alterações em cães com historial de leishmaniose correspondem necessariamente a uma reativação da doença. Defendeu, por isso, uma abordagem diagnóstica ampla e criteriosa, incluindo a pesquisa de doenças concomitantes e outros hemoparasitas.

Durante a discussão clínica, foram também abordadas as limitações da evidência científica disponível relativamente a alguns protocolos terapêuticos mais recentes e ao uso de imunossupressores em casos complexos. Rodolfo Oliveira Leal salientou que muitas decisões continuam a depender de avaliação individualizada, experiência clínica e monitorização rigorosa, especialmente em situações com doenças concomitantes ou resposta terapêutica inconsistente. Na conclusão, reforçou que o diagnóstico das recidivas deve assentar numa interpretação integrada dos sinais clínicos, exames laboratoriais, serologia, PCR e evolução temporal do paciente. Sublinhou ainda que o acompanhamento contínuo e personalizado é essencial para melhorar o prognóstico e minimizar o impacto das recidivas, defendendo uma medicina veterinária cada vez mais baseada em monitorização longitudinal e decisão clínica individualizada.

O programa do evento terminou com uma mesa-redonda moderada por Glória Pol, Veterinary Medicine Manager, que promoveu a troca de experiências entre os oradores e a audiência, reforçando a importância da colaboração multidisciplinar na evolução do diagnóstico veterinário.

O jantar de encerramento proporcionou ainda um momento de networking entre profissionais, consolidando o LETILEISH como um espaço de atualização científica e de partilha de conhecimento na área da saúde animal.

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