Os Centros de Atendimento Médico-Veterinário (CAMV) são, muitas vezes, a primeira porta de entrada para animais silvestres encontrados por cidadãos. A forma como estes casos são abordados pode determinar não apenas o prognóstico do animal, mas também o cumprimento da legislação e o sucesso da sua reabilitação. No 11.º EFOMV, a médica veterinária e diretora clínica do Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens da Ria Formosa, Maria Casero, partilhou algumas recomendações úteis com os colegas.

Maria Casero, médica veterinária e diretora clínica do Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens da Ria Formosa
Cada vez mais, aves, mamíferos e répteis silvestres chegam aos CAMV depois de terem sido encontrados feridos, debilitados ou aparentemente órfãos. Perante estas situações, o impulso natural é prestar assistência imediata. No entanto, a medicina veterinária de fauna selvagem tem especificidades legais, biológicas e clínicas que exigem uma abordagem distinta daquela utilizada nos animais de companhia.
Foi precisamente esta a principal mensagem da apresentação da médica veterinária Maria Casero, no 11.º EFOMV, dedicada à atuação dos clínicos perante animais silvestres. Mais do que tratar um doente, o médico veterinário assume um papel determinante na conservação da biodiversidade, na educação ambiental e na articulação com a Rede Nacional de Centros de Recuperação para a Fauna (RNCRF).
Muito mais do que um caso clínico
Em Portugal, a maioria das espécies da fauna autóctone encontra-se protegida, pelo que a sua captura e manutenção em cativeiro são, regra geral, proibidas. Como recordou Maria Casero, existe frequentemente confusão entre o conceito de espécie protegida e o respetivo estatuto de conservação.
“Uma espécie pode ser muito comum e, ainda assim, estar legalmente protegida”, explicou. Esta distinção é particularmente importante na prática clínica, já que um animal abundante não deixa de beneficiar da proteção conferida pela legislação nacional. Consequentemente, o objetivo nunca deverá ser a sua permanência em cativeiro, mas sim a recuperação e posterior libertação no meio natural.
O papel dos Centros de Recuperação
Os Centros de Recuperação de Fauna Selvagem existem precisamente para receber, tratar, reabilitar e devolver estes animais à natureza. Além da componente clínica, desenvolvem atividades de investigação, vigilância sanitária, educação ambiental e formação.
“O nosso objetivo é sempre devolver este animal à natureza depois de recuperado”, sublinhou Maria Casero. Esta missão implica equipas multidisciplinares, que incluem médicos veterinários, biólogos, reabilitadores, técnicos de fisioterapia, tratadores e investigadores. A recuperação clínica representa apenas uma etapa de um processo que termina apenas quando o animal readquire capacidade para sobreviver autonomamente no habitat natural.
O que fazer quando um animal selvagem chega ao CAMV?
O primeiro passo consiste em confirmar a identificação da espécie, destaca a médica veterinária e diretora clínica do Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens da Ria Formosa. Nem sempre é simples distinguir um animal silvestre autóctone de uma espécie exótica ou de um exemplar criado em cativeiro. Sempre que existam dúvidas, a recomendação passa por contactar um CRF para apoio na identificação.
Em seguida, importa recolher toda a informação possível junto da pessoa que entrega o animal: onde foi encontrado, quando, em que circunstâncias e se existe alguma documentação que comprove uma eventual aquisição legal. Esta informação poderá ser determinante para o encaminhamento adequado e para o futuro processo de reabilitação.
Menos é, muitas vezes, mais
Uma das mensagens mais relevantes da apresentação foi a importância de evitar intervenções desnecessárias.
Ao contrário do que acontece em muitos pacientes domésticos, um animal silvestre beneficia frequentemente de uma manipulação mínima. O stress representa um fator de risco importante, podendo agravar significativamente o estado clínico. Sempre que possível, o animal deve permanecer numa caixa fechada, num ambiente calmo, escuro e silencioso, afastado de pessoas e de outros animais.
Também não deve ser alimentado nem receber água por via oral antes da avaliação por profissionais experientes. Em aves debilitadas, por exemplo, esta prática pode originar aspiração e agravar o prognóstico.
“O mínimo de manipulação é, muitas vezes, o melhor tratamento inicial”, sustenta Maria Casero.
Do mesmo modo, tratamentos médicos, ortopédicos ou cirúrgicos apenas deverão ser iniciados perante situações de emergência que coloquem em risco imediato a vida do animal ou após articulação com um centro de recuperação.
O veterinário como agente de conservação
Outro dos aspetos destacados por Maria Casero foi o papel do médico veterinário na sensibilização dos cidadãos.
Muitas pessoas recolhem crias ou mantêm animais silvestres em casa por desconhecimento da legislação ou por acreditarem estar a protegê-los. Nestes casos, compete ao clínico explicar que essas espécies necessitam de cuidados altamente especializados e que a manutenção em ambiente doméstico compromete frequentemente a sua sobrevivência futura. Além disso, a habituação ao contacto humano reduz significativamente as hipóteses de libertação bem-sucedida.
A comunicação com o tutor deve, por isso, ser encarada como uma oportunidade de educação ambiental, contribuindo para reduzir situações semelhantes no futuro.
Protocolos que fazem a diferença
A realidade nacional continua a apresentar desafios, nomeadamente na articulação entre clínicas, centros de recuperação e entidades responsáveis pelo transporte e recolha dos animais. Ainda assim, a existência de protocolos internos pode simplificar significativamente a resposta.
Segundo Maria Casero, cada CAMV deveria possuir um procedimento escrito que inclua contactos atualizados dos CRF da respetiva região, do ICNF e das autoridades competentes, permitindo uma atuação rápida e uniforme.
Mais do que resolver um episódio isolado, estes protocolos promovem uma cultura de boas práticas e reforçam o contributo da profissão médico-veterinária para a conservação da fauna selvagem.
Selvagem no CAMV: Passo a passo
Identificar a espécie
Confirmar se se trata de fauna autóctone, espécie exótica ou animal doméstico.
Em caso de dúvida, contactar um CRF.
Recolher informação
Local e data de recolha.
Circunstâncias em que foi encontrado.
Existência de documentação ou comprovativo de compra.
Reduzir o stress
Colocar o animal numa caixa fechada.
Manter em ambiente calmo, escuro e silencioso.
Evitar manipulações desnecessárias.
⛔ Não alimentar nem dar água
A alimentação inadequada pode agravar o estado clínico e comprometer a recuperação.
❌ Evitar tratamentos desnecessários
Intervir apenas em situações de emergência ou após contacto com um CRF.
Informar o cidadão
Explicar o enquadramento legal.
Sensibilizar para a importância da entrega do animal a um centro especializado.
Contactar rapidamente a RNCRF
O encaminhamento precoce aumenta as probabilidades de recuperação e libertação.
Ter um protocolo interno
Cada CAMV deve possuir um procedimento escrito com contactos úteis e orientações claras para estas situações.

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