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Médicos Veterinários

“Vocês, como médicos veterinários, têm um futuro brilhante à vossa frente”

“Vocês, como médicos veterinários, têm um futuro brilhante à vossa frente” Direitos Reservados

São dois dos temas que mais têm ocupado a agenda na medicina veterinária: o progresso da Oncologia na saúde animal e as questões de saúde mental nesta classe profissional. Joaquim Henriques e André Santos foram até às XLIX Jornadas Médico-Veterinárias abrir os horizontes dos estudantes da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa (FMV-UL) sobre estas temáticas.

A Associação dos Estudantes da Faculdade de Medicina Veterinária (AEFMV) da Universidade de Lisboa organizou, em março passado, as XLIX Jornadas Médico-Veterinárias e puxou para o programa do encontro dois dos temas que têm estado em foco no setor da medicina veterinária.

 

Joaquim Henriques, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia Veterinária (SPOV), levou até aos alunos a perspetiva de carreira de quem se dedica em exclusivo à oncologia animal, uma das áreas onde se tem assistido uma evolução mais acelerada dentro da medicina veterinária. Ao ponto de o médico veterinário deixar aos estudantes dos vários anos do curso da FMV-UL presentes na plateia e que têm gosto por esta especialidade uma garantia: “Vocês, como médicos veterinários, têm um futuro brilhante à vossa frente”.

Na perspetiva de Joaquim Henriques, os bons ventos que sopram para quem se interessa pela oncologia veterinária assentam sobretudo em duas premissas. A primeira, a transformação da forma como as famílias hoje olham para os animais de companhia. Segundo o médico veterinário, “cada vez mais a ligação entre humanos e animais é mais forte. Os cães deixaram de ser, felizmente, cães de trabalho para passarem a ser um membro da família, o nosso companheiro e, portanto, o investimento emocional [dos tutores], é muito superior”.

 

“O ‘não existe mais nada que possamos fazer’ é um princípio que nós, como médicos veterinários, temos de tirar do nosso vocabulário” – Joaquim Henriques, presidente da SPOV 

Aliás, segundo dados americanos citados pelo orador, 75% dos tutores afirmam que fazem o que for necessário para manter os animais de companhia confortáveis, sendo que quase 40% reconheceu que o fariam independentemente do custo associado.

 

Esta forma de encarar os animais trouxe uma alteração de paradigma à prática clínica. Na altura em que Joaquim Henriques iniciou a atividade profissional, ainda eram as doenças infeciosas as que mais preocupavam os profissionais de saúde animal, já que encabeçavam as principais causas de morte, a par dos atropelamentos e envenenamentos. Atualmente, as doenças crónicas são as que mais ocupam o quotidiano dos centros de atendimento médico-veterinário e, muito em virtude do aumento da esperança média de vida de cães e gatos, com um crescimento acentuado dos casos de doença oncológica. “Os dados são antigos, mas dizem que 1 em cada 4 cães e 1 em cada 5 gatos vai desenvolver cancro ao longo da vida. E isto são os cancros diagnosticados. Sabemos que a incidência é superior, só que há diagnósticos nunca chegam a ser registados”, sublinhou o orador.

Nessa medida, e atendendo à evolução terapêutica – seja farmacológica, seja cirúrgica – que a medicina veterinária tem registado, hoje “a oncologia representa uma área de negócio extremamente importante” para os empregadores do setor que procuram oferecer cada vez mais respostas à crescente procura por parte dos clientes.

 

Há sempre algo a fazer
Tal como acontece na medicina humana, na medicina veterinária as possibilidades e opções terapêuticas que já podem ser postas à consideração dos tutores que têm um animal de companhia com doença oncológica são variadas e abrangem um leque grande de valores de custo, de respostas terapêuticas e adaptadas a cada quadro clínico. Daí que Joaquim Henriques defenda “o ‘não existe mais nada que possamos fazer’ é um princípio que nós, como médicos veterinários, temos de tirar do nosso vocabulário”, pois há muita ferramenta terapêutica a utilizar para prolongar a vida com qualidade, até mesmo curar o cancro nos animais de companhia e quando a doença está num estado avançado, a paliação é uma possibilidade. “A ideia de que o cancro é sempre uma doença terminal não está correta, há muitos cancros que hoje já é possível curar”, reforçou.

Contudo, para que os resultados terapêuticos possam ser melhorados é fundamental apostar no diagnóstico precoce, algo que na medicina veterinária ainda não acontece com a frequência que o orador deseja ver implementado.

Neste ponto, o presidente da SPOV escalpelizou a segunda premissa pela qual considera a oncologia veterinária uma boa opção de carreira: o crescente avanço científico.

“Uma grande parte dos veterinários, passados cinco, 10 ou 15 anos [de profissão], já não são veterinários e isso acontece em Portugal, mas também na restante Europa e nos Estados Unidos da América” – André Santos, médico veterinário 

Às terapêuticas mais antigas, como a quimioterapia e a radioterapia, juntaram-se novas moléculas, novas formas de aplicação dessas terapêuticas e mais capacidade de estratificar o tumor em cada doente, fazendo com que “a política de one size fits all já não exista na medicina veterinária”, como já não existe na medicina humana há algumas décadas. É a era da medicina veterinária de precisão, com respostas farmacológicas dirigidas à expressão molecular do tumor, nomeadamente com os inibidores da tirosina quinase, com tecnologias que permitem aplicar a radioterapia localmente no tumor, a denominada de braquiterapia, as terapias estereotáxicas, que são procedimentos minimamente invasivos que utilizam coordenadas tridimensionais (3D) para guiar o tratamento com extrema precisão, ou a radiologia de intervenção, onde a electroquimioterapia se destaca. Avanços que são, hoje, considerados os tratamentos mais evoluídos na oncologia veterinária e que, segundo o orador, estão disponíveis em Portugal. Ainda assim, há sempre toxicidades associadas e custos que os tutores têm de comportar, daí ser importante para Joaquim Henriques dar sempre vários cenários terapêuticos para que o cliente possa escolher e decidir o que é melhor para o animal e para a família.

“Alguma coisa se passa com a profissão”
André Santos é médico veterinário no AniCura Restelo Hospital Veterinário, em Lisboa, e tem grande presença nas redes sociais, onde é uma voz ativa sobre o desenvolvimento pessoal e profissional dos médicos veterinários.

Às jornadas de 2026 da AEFMV trouxe a problemática da saúde mental das profissões veterinárias, que tem estado no centro das preocupações do setor. Afinal, começou por sublinhar, é crescente o número de formandos nas faculdades de medicina veterinária, mas “uma grande parte dos veterinários, passados cinco, 10 ou 15 anos [de profissão], já não são veterinários e isso acontece em Portugal, mas também na restante Europa e nos Estados Unidos da América. Portanto, acho que alguma coisa se passa com a profissão”.

Aos alunos presentes, André Santos não deixou de classificar a medicina veterinária como “a melhor profissão do Mundo”, mas identificou-lhe um “dark side que é importante abordar para tirar o elefante da sala”. Esse lado oculto, ou menos glamoroso da profissão, está associado algumas condicionantes há muito identificadas e às quais urge responder.

A começar pela discrepância entre os valores salariais praticados na medicina veterinária e nas restantes profissões de saúde, “Aquilo que ganhamos, monetariamente, não é muito face a outras profissões de saúde. Temos um elevado grau de disponibilidade emocional para dar e gostamos mesmo de estar com animais e da comunicação com os tutores”, frisou o médico veterinário, apontando a falta de correspondência dessa formação e disponibilidade nos salários praticados no setor.

À componente remuneratória junta-se a “normalização do cansaço, a normalização das horas extra” e do “culto do sacrifício” que penaliza quem cumpre os horários de trabalho e realiza as tarefas esperadas dentro desse período. Uma postura que tem vindo a mudar nas novas gerações e que André Santos elogia, afinal se o profissional dá o seu melhor nas oito horas diárias contratadas, não há razão para permanecer no local de trabalho mais tempo do que o estabelecido. Com algum caso mais difícil, alguma urgência que aparece perto da hora de saída, pode fazer sentido estender o horário de trabalho, “mas isso não deve ser a regra, deve ser a exceção à regra”, argumentou.

Outra nota deixada pelo orador é que, ao contrário do que acontece noutras regiões do Mundo, em Portugal as equipas são maioritariamente constituídas por médicos veterinários, com os enfermeiros e os auxiliares a terem uma representação muito inferior.

Todos os pontos nomeados por André Santos contribuem para a realidade que ficou exposta no estudo da psicóloga Maria Manuela Peixoto, no qual 40% a 60% dos médicos veterinários portugueses admitiram que sentiam algum nível de burnout, a depressão e a ansiedade foram duas a três vezes mais comuns do que na população em geral e a ideação suicida foi três a quatro vezes mais frequente do que em outras profissões de saúde.

Admitindo perante a assistência já ter passado por momentos psicologicamente mais desafiantes, André Santos falou do que o ajudou a ultrapassar essa fase, a começar pelo autocuidado da energia física. Dormir o mínimo de sete horas por dia passou a ser inegociável para o clínico, o exercício físico sempre fez parte dos gostos pessoais, mas passou a ser uma rotina também sem negociação.

Cuidar da energia mental e emocional foram outros pontos focados, com o orador a deixar sugestões práticas como as micropausas ao longo do dia de trabalho, nem que seja para um beber um chá ou ler um jornal, ou a meditação, mesmo que seja por breves minutos.

Escolher a assertividade no ambiente de trabalho, estabelecendo limites claros com os colegas e com os clientes, apostar em técnicas para melhorar de comunicação interpessoal e recorrer a terapia com técnicos de saúde mental foram também conselhos deixados durante a conferência.

O que André Santos não deixou escapar é que, para além de ser importante para os funcionários, a saúde mental dos trabalhadores é igualmente fundamental para os objetivos das empresas. Afinal, como tem ficado demonstrado em vários estudos internacionais, “a felicidade laboral aumenta e muito a eficiência e a qualidade do trabalho. Portanto, não precisamos trabalhar mais para trabalhar melhor”. São é precisos trabalhadores mais felizes para melhorar diretamente os resultados financeiros das empresas.

 

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