Ana Filipe
DVM, MSc,PGCert.DI.ifevet
Secretária-Geral da APMVEAC
Presidente do Grupo de Imagiologia e Diagnóstico por Imagem da APMVEAC
Serviço Ecografia do Hospital Escolar da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa
A imagiologia veterinária assumiu um papel central na oncologia, contribuindo de forma decisiva para o diagnóstico precoce, estadiamento e monitorização de doenças oncológicas.
O aperfeiçoamento das técnicas de imagem e a integração de modalidades avançadas permitem caracterizar com maior precisão as lesões neoplásicas, definir margens cirúrgicas e avaliar de forma objetiva a eficácia dos tratamentos.
A radiografia continua a ser o primeiro passo na avaliação oncológica, graças à sua elevada disponibilidade, rapidez e custo relativamente reduzido. Isto torna-a particularmente útil na primeira abordagem ao rastreio de metástases pulmonares, bem como no seguimento periódico destes casos.
Também aquando da suspeita de neoplasias ósseas, a radiografia é particularmente útil em deteção de lesões agressivas (como lise cortical, remodelação ou reação perióstica) que podem sugerir a presença de processos oncológicos como osteossarcoma ou condrossarcoma. Além disso, o estudo radiográfico do tórax permite detetar massas mediastínicas ou, por exemplo, derrames pleurais, funcionando frequentemente como exame inicial que orienta a necessidade de recorrer a técnicas de imagem avançadas.
A ecografia, pela ausência de radiação ionizante e natureza dinâmica, tornou-se uma técnica indispensável na avaliação em tempo real e extremamente detalhada dos órgãos da cavidade abdominal e tecidos moles, em contexto oncológico. Permite identificar e caracterizar neoformações, com respetiva colheita de amostras em áreas com janela acústica (citológica por punção ecoguiada de agulha fina ou histopatológica através de biópsia ecoguiada “Tru-cut”), auxiliando ainda na perceção do grau de envolvimento das estruturas adjacentes. No que respeita aos procedimentos ecoguiados minimamente invasivos, persiste debate científico sobre o risco de efeito de sementeira (“seeding”) associado à realização de punções. O carcinoma do urotélio é uma neoplasia para a qual a literatura descreve este risco, sendo, por isso, fundamental a otimização de protocolos seguros e a minimização de potenciais riscos iatrogénicos na prática clínica diária.
De facto, a ecografia assume hoje um papel central na vigilância oncológica, muitas vezes com maior relevância prática do que a própria tomografia computorizada (TC). Um exemplo disso são as neoplasias intestinais, como o linfoma de baixo grau no gato, em que a ecografia permite o controlo seriado da espessura e estratificação da parede intestinal, bem como da dimensão e morfologia dos linfonodos regionais. Esta monitorização frequente é difícil de reproduzir com a mesma acessibilidade e custo em TC, o que torna a ecografia a modalidade de eleição para o seguimento a médio e longo prazo. Neste contexto é de destacar também a deteção precoce, por exemplo, de linfomas intestinais de alto grau ou até mesmo os leiomiossarcomas, onde a ecografia se revela particularmente valiosa. Permite identificar espessamentos segmentares, com ou sem ulceração das camadas mais profundas, e, no mesmo exame, realizar colheitas de amostras de forma relativamente segura e representativa, evitando por exemplo áreas de necrose.
Paralelamente, começam a ter alguma relevância outras técnicas, como o CEUS (Contrast-Enhanced Ultrasound), que consiste na administração de microbolhas de contraste ecográfico, o que representa um avanço substancial na avaliação funcional das massas tumorais. Esta técnica permite observar em tempo real o padrão perfusão dos tecidos, aumentando a sensibilidade na diferenciação entre processos benignos e malignos. O CEUS é igualmente útil na avaliação da resposta terapêutica, uma vez que alterações no padrão de vascularização podem ser detetadas antes de modificações morfológicas visíveis.
Com o aumento da exigência e expectativa do binómio detentores/oncologistas e a extrapolação de padrões da medicina humana, a TC consolidou-se também ela como uma das modalidades de imagem mais requisitadas na oncologia veterinária.
A TC computorizada é atualmente considerada o gold standard na avaliação de muitas estruturas, assumindo particular relevância na cabeça, onde permite por exemplo uma caracterização detalhada das estruturas ósseas como a cavidade nasal. Revela-se especialmente também útil na identificação de neoformações e identificação ou controlo de metástases, obtendo especial interesse principalmente em cães de maior porte, onde a ecografia frequentemente não tem uma boa janela acústica e/ou detalhe necessário para uma correta avaliação.
Para além do seu papel diagnóstico, a TC é também uma ferramenta essencial na realização de procedimentos guiados, sobretudo a nível torácico e em regiões onde não existe janela acústica adequada para o fazer via ecografia, permitindo biópsias e punções com maior segurança e precisão. Apesar de não relacionado diretamente com a oncologia, a sua aplicação estende-se ainda à linfangiografia, por exemplo nos casos de quilotórax contribuindo de forma decisiva para o planeamento terapêutico.
Os modelos 3D reconstruídos a partir de TC são hoje também eles importantes no planeamento cirúrgico oncológico, permitindo visualizar relações anatómicas complexas, definir margens precisas e simular acessos cirúrgicos antes da intervenção.
De igual modo, a TC é também cada vez mais utilizada para mapeamento dos linfonodos, etapa essencial para um planeamento cirúrgico preciso e uma decisão terapêutica fundamentada.
A Ressonância Magnética (RM) tem também um papel fulcral na deteção de processos oncológicos, nomeadamente no que respeita à suspeita de neoplasias do sistema nervoso central. A escolha entre RM e TC para tumores intracranianos deve guiar-se pelo objetivo clínico, nomeadamente se preferimos privilegiar a caracterização tecidual detalhada ou focarmo-nos, por exemplo, na avaliação óssea. O tempo anestésico também deve ser ponderado, uma vez que poderá ser uma limitação para realização de RM, que geralmente exige procedimentos mais prolongados comparativamente à TC.
A colaboração imagiologista-oncologista é determinante para atingir um objetivo comum: definir a melhor abordagem terapêutica para aumentar a qualidade de vida dos nossos pacientes.
O diagnóstico por imagem, nas suas diferentes modalidades, revela-se essencial para caracterizar adequadamente cada caso clínico e não para proferir sentenças definitivas, orientando decisões terapêuticas informadas e personalizadas. Na verdade, a presença de neoplasias primárias ou metastáticas em determinadas situações deixou de constituir, por si só, um critério absoluto de exclusão terapêutica, independentemente das dimensões das mesmas. Esta mudança de paradigma, observada nos últimos anos em Medicina Veterinária, aplica-se nomeadamente a casos de hepatomas volumosos, carcinomas do urotélio ou prostáticos. Nestes cenários, consegue-se orientar de forma mais eficaz o tratamento oncológico, seja ele cirúrgico ou não, aumentando a esperança média de vida com qualidade prolongada.
Com isto, posso afirmar que o diagnóstico por imagem se tornou o braço direito da grande maioria das especialidades, nomeadamente da oncologia, suportando o planeamento terapêutico com precisão e fundamentação.
No contexto da crescente relevância clínica e científica da imagiologia oncológica, o II Congresso Ibérico de Diagnóstico por Imagem, organizado pela Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC) e pela Asociación de Veterinarios Españoles Especialistas en Animales de Companhia (AVEPA) nos dias 6 e 7 de março de 2026 em Lisboa, reúne especialistas de referência para debater avanços e desafios na sua aplicação veterinária. Serão também apresentados trabalhos científicos originais sob a forma de comunicações orais e posters promovendo a partilha de experiências práticas e protocolos inovadores. O evento constituirá uma oportunidade única para o encontro conjunto dos elementos dos grupos de Diagnóstico por Imagem (GIEDI da APMVEAC e GIDI da AVEPA) de ambos os países, promovendo a colaboração ibérica nesta área em franco crescimento.






