Começou por ser uma clínica, ao lado abriu um centro diferenciado em Oftalmologia e, mais tarde, juntou-se um hospital só para gatos. A história da Clínica Veterinária de Serralves é o espelho da evolução da medicina veterinária nas últimas duas décadas: uma crescente diferenciação na prestação de cuidados aos animais de companhia para dar resposta a tutores cada vez mais exigentes.
O ano de 2026 assinala uma data redonda para Pedro Cunha e Silva: em janeiro passado comemorou-se o 20.º aniversário da Clínica Veterinária de Serralves, situada numa transversal à Avenida da Boavista, na cidade do Porto. O médico veterinário e diretor clínico parece um pouco incrédulo com o tempo que passou desde a abertura de portas. À pergunta da VETERINÁRIA ATUAL sobre o início do projeto responde que “fez na semana passada 20 anos, abrimos nos últimos dias de janeiro de 2006”, com alguma emoção na voz.
Talvez por se estar a recordar do percurso percorrido até este momento, que incluiu inicialmente um desvio de rota para fazer quatro anos do curso de gestão de empresas na Universidade Católica, que considera ter sido um verdadeiro “erro de casting”, até encontrar o caminho para o “sonho de criança” de ser médico veterinário.
Formou-se em medicina veterinária na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e a criação deste centro de atendimento médico-veterinários (CAMV) surgiu “da vontade de interpretar a medicina veterinária à minha maneira”, conta, lembrando que a configuração inicial das instalações era muito diferente do que hoje está em funcionamento no terreno.
O CAMV começou a atividade num espaço com cerca de 90 m2 que albergava dois consultórios, uma sala de cirurgia e uma sala de preparação cirúrgica, uma sala de raio X e um internamento/enfermaria para receber os animais depois da intervenção cirúrgica ou quando necessitassem de monitorização mais apertada. Os cuidados eram prestados por uma equipa pequena. “Éramos três pessoas e ponto”, uma caracterização lacónica de Pedro Cunha e Silva que contrasta com o entusiasmo da contabilidade atual: neste momento a equipa é constituída por nove médicos veterinários – quatro médicos seniores, ou seja, com mais de 15 anos de experiência, e cinco médicos veterinários juniores – aos quais se juntam mais nove assistentes/enfermeiros/auxiliares.
Um crescimento em recursos humanos que também reflete o crescimento físico da Clínica Veterinária de Serralves e a notória diferenciação de cuidados para onde tem evoluído a medicina veterinária. Um modelo de prestação de serviços que, tanto pelas exigências de um mercado com tutores cada vez mais exigentes nos cuidados de saúde aos animais de companhia, como pela cada vez maior compartimentalização do saber médico na veterinária, tornou inevitável a mudança de paradigma assistencial deste e, a bem da verdade, de grande parte dos CAMV.
“A irreverência da juventude é um estímulo enorme ao crescimento. Não há lugar para a estagnação e para o conformismo porque puxam pelo nosso brio profissional”
O interesse pela área da Oftalmologia
O primeiro passo da expansão foi dado em 2010. O diretor clínico conta que, com a aquisição de uma parcela de terreno com uma casa em ruínas contígua às instalações atuais foi possível “praticamente duplicar a área” do CAMV, aumentando a sala de espera para garantir maior conforto aos clientes e possibilitando a criação de uma entrada separada para o novo Centro de Oftalmologia Veterinária do Porto. “Foi um centro concebido com o intuito de oferecer os serviços de Oftalmologia numa área à parte, de forma que ficasse claramente definido qual era o espaço do serviço especializado para trabalharmos com os colegas [referenciadores]” e desta forma, reforça o responsável, não haver lugar a qualquer desconfiança ou conflito de interesses por terem a clínica de cuidados generalistas mesmo ao lado.
E nestes 16 anos, o crescimento da procura por cuidados especializados na área oftalmológica tem sido notório, com casos referenciados a chegarem de todo o Grande Porto, da região Norte e da região Centro de Portugal continental, mas também do arquipélagos e até dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). À estranheza dessa referenciação tão distante, o responsável explica que, por exemplo, para quem reside em Moçambique, é mais fácil trazer o animal de companhia a Portugal para realizar consultas de Oftalmologia, tratar cataratas ou qualquer outra intervenção do que ir à vizinha África do Sul, bem apetrechada em recursos médico-veterinários, mas que requer sempre a realização de quarentena aos animais da antiga colónia portuguesa.
A área de Oftalmologia é assegurada pelo médico veterinário Gonçalo Tavares, com uma pós-graduação nesta área clínica realizada na Universitat Autònoma de Barcelona, e pelo próprio Pedro Cunha e Silva, que concluiu o Certificado de Estudos Superiores em Oftalmologia Veterinária na École Nationale Véterinaire de Toulouse, com ambos a procurarem constantes atualizações de conhecimentos nesta área de interesse. Um interesse individual que o diretor clínico assume não ser recente, tendo nascido um pouco a par do tal “sonho de criança” de ser médico veterinário. “De facto, é uma história que vem da infância. Tive um cão que ficou com cataratas e, na altura, não havia solução para aquelas situações. O cão ficou cego e eu fiquei sempre com a ideia de que, um dia, teria de resolver estas situações”, recorda com a voz emocionada.
Os felinos merecem um espaço só seu
O interesse especial de outros membros da equipa foi também o ponto de partida para um outro passo no crescimento da estrutura. Ana Barbosa, médica veterinária com pós-graduações na Universidade Lusófona e na University of Cambridge, e alguns elementos da equipa de enfermagem iam dando nota ao diretor clínico das condições “ou da falta delas, para atender a espécie felina [no CAMV], nomeadamente o stress dos gatos por estarem na mesma sala de espera que os cães, por partilharem internamentos”.
Com as formações entretanto realizadas na área da medicina felina, aliadas o facto de ter estes elementos da equipa “muito apaixonadas por gatos”, o diretor clínico percebia o potencial que estava a crescer para nova diversificação na carteira de cuidados prestados aos animais de companhia.
Assim, em 2022, depois da aquisição de outro edifício contíguo ao CAMV inicial, nascia o Hospital dos Gatos de Serralves, também com uma entrada independente, onde funcionam dois consultórios, uma sala de cirurgia, internamento para 24 animais – com separação para doenças infeciosas – e uma sala de espera onde, agora, os felinos podem aguardar a sua vez para as consultas e procedimentos em total tranquilidade.
Terem feito nascer um espaço de raiz possibilitou desenhar toda a estrutura tendo em conta as especificidades desta espécie tão particular: as boxes são envidraçadas e espaçosas, a luz natural reina no ambiente e os materiais são leves, já que não têm de resistir às mordidelas caninas. Impera a serenidade que ajuda estes animais a sentirem-se menos ansiosos e ameaçados e, consequentemente, torna a vida dos profissionais menos caótica no momento da anamnese ou dos cuidados de enfermagem aos felinos. “Quando entramos aqui já nem conseguimos imaginar com era possível trabalhar como trabalhávamos antes, com as duas espécies misturadas”, admite o diretor clínico.
Reter talento: Um dos maiores desafios da medicina veterinária
A organização do trabalho da equipa é mais ou menos setorial. Os recursos administrativos e de enfermagem são partilhados pela clínica, pelo centro e pelo hospital, enquanto entre os médicos veterinários as tarefas são divididas consoante a experiência e os interesses individuais. “Os mais jovens, os médicos veterinários juniores, acabam por ser mais generalistas”, explica o diretor clínico, enquanto os profissionais seniores, embora também pratiquem medicina veterinária generalista, têm áreas de interesse específicas, de acordo com as formações pós-graduadas que foram realizando: Francisca Balsa dedica-se à Dermatologia, Ana Barbosa, para além da medicina felina, também se dedica à Medicina Interna e à Oncologia e Mariana Novo também tem particular inclinação para a medicina felina e para a Medicina Interna.
Outras respostas chegam ao CAMV com parcerias em ambulatório que asseguram os cuidados clínicos nos casos que exigem maior diferenciação de conhecimentos na área da Cardiologia, na Imagiologia e na Medicina Física e de Reabilitação permitindo, desta forma, ao CAMV conseguir “dar resposta não só à medicina do dia a dia, mas também a situações mais complexas”. O objetivo, acrescenta Pedro Cunha e Silva, é serem “autossuficientes na medicina felina e sermos a resposta para tudo em termos hospitalares para os gatos” e, no caso dos cães, referenciar para unidades de maior dimensão sobretudo os casos emergentes e urgentes que necessitam de equipas mais numerosas, como por exemplo, as torções gástricas.
E estarem situados numa zona do Porto onde proliferam as vivendas unifamiliares, com bastante espaço no exterior, também criou a necessidade de assegurar serviços domiciliários – as tradicionais consultas de profilaxia, vacinação e desparasitação – aos animais “menos transportáveis”, caracteriza o diretor clínico a rir, que é como quem diz, os cães de grande porte.
Ter uma equipa que conjuga experiência e juventude traz mais-valias aos cuidados prestados aos clientes e, também, à evolução profissional. Ao olhar de quem tem mais anos de profissão, os médicos mais jovens são “inquietadores e desafiadores” que andam sempre em busca de “quererem saber mais, de quererem saber as respostas mais atuais o que nos obriga a sermos mais competentes, mais capazes de responder. Isto obriga-nos a constantes atualizações para nos reciclarmos”, admite o responsável. No fundo, acrescenta, “a irreverência da juventude é um estímulo enorme ao crescimento. Não há lugar para a estagnação e para o conformismo porque puxam pelo nosso brio profissional”.
Não obstante, as dificuldades de recrutamento e de retenção de recursos humanos na medicina veterinária são uma realidade que é difícil de contornar. Por conta das ofertas remuneratórias vindas de outros países, e que são difíceis de igualar em Portugal, Pedro Cunha e Silva compreende que seja complicado recusar a oportunidade de ter melhores vencimentos. O responsável fala mesmo de um “círculo vicioso” em que, para pagar melhor aos profissionais, os CAMV teriam de aumentar os preços dos serviços, mas a população nacional não tem capacidade financeira para acompanhar uma subida de preços e, se isso acontecesse, a medicina veterinária passaria a ser apenas acessível a “uma pequena franja da sociedade”. “Ficamos aqui numa encruzilhada e não sei como vamos sair dela”, reconhece.
Contudo, na perspetiva do diretor clínico, se não é possível aliciar os jovens profissionais com melhores ordenados, a alternativa só pode ser a formação. “Termos alguma coisa para lhes ensinar, ou seja, que eles vejam em nós profissionais com quem podem aprender algo, porque se há jovens que se focam em ganhar mais monetariamente, há profissionais que se focam no que podem aprender para fazer uma carreira”, argumenta. E, nesse sentido, “os serviços diferenciados [de Oftalmologia e de medicina felina] têm-nos ajudado a atrair e a reter os veterinários mais jovens”, acrescenta Pedro Cunha e Silva, mesmo que não sejam, numa primeira instância, as áreas da medicina veterinária com maior poder de atração. “De facto, não são áreas muito populares, nem costumam ser as primeiras escolhas, mas os que vêm até nós, vêm com muita vontade e muito interesse”, assegura [ver caixa].
“Os serviços diferenciados [de Oftalmologia e de medicina felina] têm-nos ajudado a atrair e a reter os veterinários mais jovens”
Focar no trabalho diário da prática clínica
Depois de 20 anos de história, da criação do centro de Oftalmologia e do hospital dedicado à espécie felina, o momento agora presta-se agora à consolidação do que foi construído. Pedro Cunha e Silva quer “tornar a Clínica Veterinária de Serralves, o Centro de Oftalmologia Veterinária do Porto e o Hospital dos Gatos sítios agradáveis para se trabalhar, para se aprender e que assim sejam vistos pelos licenciados”.
O tempo que passou nos corredores da Universidade Católica a cursar gestão de empresas foram muito úteis para o papel de empresário que também tem de desempenhar enquanto responsável por um CAMV e por uma equipa de funcionários, mas, em 2023, Pedro Cunha e Silva tomou a decisão de integrar o Grupo Veterinário VetPartners. A decisão “permitiu que as pessoas se dediquem mais a atividades veterinárias e menos nas questões de gestão e administrativas, pois isso passa a estar centralizado no escritório em Lisboa”, explica. No fundo, ao passar a fazer parte do VetPartners, o diretor clínico passou a dedicar-se mais ao espírito com que abraçou a profissão, ou seja, a cuidar dos animais de companhia, e menos à vertente de gestão.
O grupo internacional, lembra, conta com mais de 10 anos de trabalho em Inglaterra e trouxe para Portugal um leque bastante alargado de oportunidade de aprendizagem, com “formações sempre disponíveis – seja online ou de forma presencial – que nos dá aqui uma margem de crescimento muito grande”, refere o diretor clínico, fundamentalmente a nível de conhecimento científico e de respostas clínicas. Pedro Cunha e Silva admite que este passo “é um incentivo ao desenvolvimento e uma facilidade muito grande para quem quer aprender”.
Ter a equipa sempre disposta a receber os mais jovens é uma marca que Pedro Cunha e Silva deseja vincar no dia a dia do CAMV. São vários os momentos ao longo do ano em que alguns elementos da equipa vão a escolas dos vários ciclos letivos para palestras e ações de sensibilização para os cuidados e o bem-estar animal, e também recebem jovens em estágios curriculares e não-curriculares e em semanas práticas de algumas escolas ligadas ao setor veterinário, como a enfermagem e os auxiliares veterinários.Mais recentemente passaram a colaborar com o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto, e com a UTAD no projeto que ambas as instituições de ensino têm nos cursos de medicina veterinária de terem os alunos, logo a partir do 1.º ano, a fazerem incursões de campo, que é como quem diz num CAMV à escolha, durante uma semana. “Temos recebido vários alunos nesses moldes e estamos muito abertos ao mundo em que estamos inseridos”, sublinha o responsável.Afinal, para Pedro Cunha e Silva “é muito importante devolver o que recebemos”. “A formação que recebi nos vários sítios por onde passei, as várias pessoas com quem trabalhei, as várias pessoas que me ensinaram, tenho de continuar este ciclo no qual acredito que se baseia muito a medicina e a medicina veterinária. É na oportunidade de passar conhecimento e na tentativa de que isso seja feito cada vez melhor que leva ao crescimento da profissão”, explica.

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