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Médicos Veterinários

Jovens veterinários são apaixonados pela profissão, mas querem melhores perspetivas de carreira

Jovens veterinários são apaixonados pela profissão, mas querem melhores perspetivas de carreira Direitos Reservados

A conferência “O que esperar dos futuros e jovens médicos veterinários?”, promovida pelo Conselho de Jovens Médicos Veterinários (CJMV) da Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) durante o 11.º EFOMV, reuniu diferentes gerações e áreas da profissão para discutir os desafios que marcam o início de carreira dos médicos veterinários em Portugal. Num debate marcado por temas como a formação académica, a valorização profissional, as condições salariais, a retenção de talento e os desafios decorrentes do gap geracional, os intervenientes convergiram na ideia de que a profissão atravessa um momento de transformação, exigindo respostas estruturais para garantir o seu futuro.

Uma das grandes novidades da edição de 2026 do Encontro de Formação da Ordem dos Médicos Veterinários foi a realização do Fórum CJMV. Tratou-se de um dia inteiro dedicado ao debate de temas candentes para os jovens médicos veterinários, desde os dilemas éticos na prática da medicina veterinária, até como lidar com a eutanásia, passando pelas competências necessárias para crescer na área de animais de companhia, fauna selvagem, equídeos e animais de produção.

 

A mesa-redonda “O que esperar dos futuros e jovens médicos veterinários” – moderada por Miguel Lourenço, da direção do CJMV – fechou o dia com chave de ouro e com uma forte e ativa participação por parte dos mais jovens.

Num debate marcado por momentos de grande intensidade e algumas fricções intergeracionais, os participantes discutiram os desafios que os jovens médicos veterinários enfrentam no início de carreira, desde os salários e a progressão profissional até ao equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Apesar de diferentes perspetivas sobre as dificuldades atuais e o papel da formação académica, houve consenso quanto à necessidade de valorizar a profissão, criar percursos de carreira mais claros e reconhecer a versatilidade da medicina veterinária, mantendo a vocação como principal fator de atração e retenção de talento.

 

Adaptabilidade e abertura a novos percursos
Miguel Costa Pereira destacou a enorme versatilidade da formação nesta área, sublinhando que os jovens veterinários devem estar preparados para percursos profissionais diversificados e, muitas vezes, imprevisíveis.

Embora reconheça a importância de competências complementares, como gestão e liderança, o professor de medicina veterinária defendeu que as universidades devem concentrar-se sobretudo na formação científica e técnica, cabendo à experiência profissional desenvolver muitas das capacidades exigidas pelo mercado de trabalho.

 

Sobre a questão salarial, o académico considerou que as dificuldades enfrentadas pelas novas gerações não são totalmente inéditas, mas admitiu que o aumento do custo de vida agravou significativamente a realidade atual. Nesse contexto, apontou a medicina veterinária oficial e a função pública como alternativas capazes de oferecer maior estabilidade contratual, horários regulados e progressão previsível.

Para o médico veterinário, os jovens devem manter uma visão ampla sobre as oportunidades da profissão, explorando áreas para além da prática clínica tradicional.

 

A faculdade não prepara para gerir um negócio
Já Sérgio Alves centrou a sua intervenção na transição entre a formação académica e a realidade profissional. Recordando o início da sua carreira, afirmou que uma das maiores lacunas da formação universitária continua a ser a ausência de preparação para a gestão empresarial.

“Como criar uma empresa, que impostos pagar, que estrutura montar ou como gerir equipas são questões para as quais muitos recém-formados continuam sem resposta”, sintetizou.

O diretor clínico do Hospital Veterinário de Gaia defendeu, ainda, que os jovens devem estar preparados para lidar com a frustração inerente à profissão, bem como com a diferença entre as expetativas criadas durante a formação e a realidade do mercado. Na sua perspetiva, a valorização da profissão passa também pela criação de carreiras mais estruturadas e por um esforço coletivo de organização do setor, capaz de definir padrões de progressão profissional e condições de trabalho mais transparentes.

Equilíbrio entre vida pessoal e profissional é cada vez mais decisivo
Por sua vez, Inês Guerra reconheceu a existência de lacunas na formação inicial, sobretudo ao nível das chamadas competências transversais, mas sublinhou que o principal desafio atual está relacionado com a qualidade de vida dos profissionais.

A médica veterinária que dedica a sua prática exclusivamente aos gatos e dentro da medicina felina, em especial às questões do comportamento, defendeu que a retenção de talento não depende apenas do salário, mas também da capacidade das entidades empregadoras oferecerem condições que promovam o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Entre as soluções apontadas, a médica – influencer fundadora da plataforma “Há gatos e gatos” – referiu horários mais flexíveis, semanas de trabalho reduzidas, apoio à saúde mental, seguros de saúde e outros benefícios laborais que respondam às diferentes fases da vida dos profissionais.

Inês Guerra alertou ainda para a ausência de percursos de progressão claros em muitos hospitais veterinários, situação que gera incerteza e dificulta o planeamento do futuro por parte dos jovens médicos veterinários.

Estabilidade da função pública continua a ser uma mais-valia
Susana Carvalho dos Santos trouxe para o debate a perspetiva da segurança alimentar e da inspeção sanitária, áreas onde a falta de profissionais começa a tornar-se evidente.

A veterinária da DGAV reconheceu que a função pública enfrenta dificuldades de recrutamento, em parte devido aos salários praticados e à perceção social associada ao setor. Ainda assim, destacou vantagens como a previsibilidade salarial, a estabilidade laboral e a inexistência de discriminação remuneratória entre homens e mulheres.

A médica veterinária chamou igualmente a atenção para a persistência de desigualdades salariais de género em alguns segmentos da profissão, defendendo que as novas regras de transparência salarial poderão contribuir para corrigir essas diferenças. Para Susana Carvalho dos Santos, a segurança alimentar oferece também um forte sentido de missão pública, permitindo aos profissionais desempenhar um papel central na proteção da saúde dos consumidores.

Não aceitar a desvalorização da profissão
Erica Oliveira Rebelo assumiu uma das posições mais assertivas do painel, defendendo que os jovens médicos veterinários não devem aceitar propostas remuneratórias que contribuam para a desvalorização da profissão. Partilhando experiências pessoais de início de carreira, a médica veterinária alertou para a necessidade de uma maior confiança por parte dos recém-formados na negociação das suas condições de trabalho.

A mestranda em Criminologia, destacou ainda a importância da mobilidade profissional e da capacidade de explorar novos caminhos dentro e fora da medicina veterinária tradicional. O seu próprio percurso, que cruza a medicina veterinária, a criminologia e projetos de intervenção assistida com animais, foi apresentado como exemplo da versatilidade da profissão.

Segundo Erica Oliveira Rebelo, os médicos veterinários possuem competências altamente transferíveis e devem encarar a mudança como uma oportunidade de crescimento profissional.

Uma profissão que continua a reter talento pela vocação
Apesar das preocupações relacionadas com salários, progressão de carreira e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, o debate terminou com uma nota de consenso: a paixão pela medicina veterinária continua a ser o principal fator de retenção dos profissionais.

Os participantes defenderam que o futuro da profissão dependerá da capacidade de valorizar os jovens médicos veterinários, criar percursos de carreira mais claros, melhorar as condições de trabalho e reconhecer o contributo essencial que estes profissionais prestam à saúde animal, à saúde pública e à sociedade.

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