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Alterações comportamentais em cães e gatos podem ter origem médica

Alterações comportamentais em cães e gatos podem ter origem médica iStock

Alterações súbitas no comportamento de cães e gatos podem estar associadas a problemas de saúde e não apenas a falhas de educação ou treino. O alerta é feito por Susana Muñiz de Miguel, etóloga veterinária, num artigo publicado pelo Grupo de Medicina Comportamental da Associação Espanhola de Veterinários de Pequenos Animais (AVEPA).

Segundo a médica veterinária, o comportamento dos animais de companhia deve ser entendido como uma das formas mais diretas de avaliar o seu estado geral de saúde. “O comportamento dos animais é uma das janelas mais diretas que temos para avaliar a sua saúde geral”, afirma.

 

Susana Muñiz de Miguel sublinha que, muitas vezes, quando um cão ou gato começa a apresentar comportamentos problemáticos, a primeira reação das famílias é atribuí-los a problemas de educação, treino ou “rebeldia”. No entanto, defende que o comportamento não ocorre de forma isolada e reflete o equilíbrio entre o estado físico e emocional do animal e o ambiente em que vive.

Por esse motivo, a especialista considera que abordar problemas comportamentais de forma isolada é, frequentemente, ineficaz. “A medicina veterinária e a terapia comportamental devem sempre caminhar juntas numa abordagem multidisciplinar, porque o comportamento é profundamente influenciado pela fisiologia do animal, e qualquer distúrbio físico afetará significativamente o seu bem-estar comportamental”, refere.

 

A médica veterinária acrescenta que, antes de avançar para uma intervenção baseada apenas em educação ou modificação comportamental, é essencial descartar problemas médicos subjacentes. Entre as condições que podem alterar o temperamento dos animais estão doenças endócrinas e metabólicas, alterações gastrointestinais, problemas dermatológicos, doenças ortopédicas, dor e efeitos secundários de medicamentos.

A abordagem inicial deve, por isso, incluir um diagnóstico médico completo. Segundo Susana Muñiz de Miguel, essa avaliação não se deve limitar à observação do animal, devendo integrar exame neurológico e ortopédico, para identificar possíveis pontos de dor, bem como análises laboratoriais, incluindo hemograma, bioquímica, perfil hormonal da tiroide e análise de urina e fezes.

 

Em casos mais complexos, ou quando o quadro clínico o justifique, podem ser necessários exames de imagem, como radiografias, ecografias, ressonância magnética ou tomografia computorizada.

A especialista alerta que identificar um problema físico não exclui a existência de uma alteração comportamental. Pelo contrário, doenças orgânicas podem funcionar como gatilhos ou fatores de agravamento de problemas comportamentais já existentes. Esta sobreposição reforça a necessidade de uma abordagem integrada para melhorar o bem-estar do animal e evitar o agravamento dos sinais comportamentais.

 

Entre os exemplos referidos está a diabetes em cães, que pode causar polifagia, ou seja, fome intensa e persistente. Esta sensação física pode levar o animal a proteger a taça de comida de forma agressiva. Nestes casos, a modificação comportamental só deverá ser considerada depois de a doença estar metabolicamente estabilizada e o apetite controlado.

A etóloga veterinária destaca também o impacto das doenças metabólicas no comportamento, em particular as alterações da tiroide, das glândulas suprarrenais e do pâncreas. Estes problemas podem passar despercebidos, uma vez que se manifestam não apenas através de sinais físicos, mas também por alterações comportamentais pouco específicas.

Nos cães, o hipotiroidismo é apontado como o problema endócrino mais comum, embora a sua prevalência geral na população canina seja de 0,2%. Pode estar associado a letargia, fadiga extrema, desorientação, lentidão de raciocínio e alterações na interação com os tutores. A especialista refere ainda associações com fobias a ruídos ou tempestades, ansiedade de separação, hiperatividade, comportamentos compulsivos, dificuldades de aprendizagem e agressividade.

Nos gatos, a situação é diferente. O hipotiroidismo é descrito como extremamente raro, enquanto o hipertiroidismo é referido como a doença endócrina mais comum na espécie. Os sinais podem incluir ansiedade, inquietação, vocalizações noturnas intensas, apetite voraz, hiperatividade e alterações no uso da caixa de areia. Como afeta sobretudo gatos com mais de dez anos, estes sinais podem ser confundidos com envelhecimento ou declínio cognitivo.

As alterações das glândulas suprarrenais também podem ter impacto comportamental. A administração de glicocorticoides em cães foi associada a aumento da agressividade, medos, ladrar e reações de sobressalto, além de menor capacidade para brincar ou explorar. Já a síndrome de Cushing, associada ao excesso de cortisol, pode causar respiração ofegante, urinação excessiva, fome intensa e falta de energia.

No caso da diabetes, a especialista refere que, além de aumento da sede e da fome, os cães podem apresentar níveis elevados de ansiedade. Nos gatos, a doença pode provocar irritabilidade, agressividade, alterações do sono e confusão. A neuropatia diabética em gatos, com dor e dificuldade em saltar, pode ainda levar à recusa de contacto físico, sendo por vezes interpretada pelas famílias como mau comportamento.

Susana Muñiz de Miguel chama também a atenção para o papel dos medicamentos. Alguns animais em tratamento para problemas comportamentais, como ansiedade ou stress, podem estar a receber fármacos que interferem com exames médicos. Certos antidepressivos e inibidores seletivos da recaptação de serotonina podem alterar níveis de hormonas tiroideias e glicose, dificultando o diagnóstico físico. Por isso, defende que a comunicação com o médico veterinário deve ser transparente sobre qualquer substância administrada ao animal.

O sistema nervoso central é outro ponto crítico na avaliação comportamental. A especialista recorda que, em alguns casos, não existe uma fronteira clara entre doença neurológica e alteração comportamental. Comportamentos compulsivos, como perseguir a cauda, apanhar “moscas” invisíveis, girar repetidamente ou apresentar tremores, podem exigir colaboração entre educadores, etólogos veterinários e neurologistas.

A médica veterinária refere ainda que algumas lesões cerebrais podem manifestar-se apenas através de alterações de personalidade, sem sinais neurológicos evidentes num exame básico. Dependendo da área afetada, podem surgir dificuldades em reconhecer estímulos, perda de hábitos aprendidos ou episódios intensos de medo ou raiva.

A epilepsia também não deve ser desvalorizada. Além das convulsões ou tremores mais evidentes, pode ter impacto neurocomportamental, afetando a capacidade de aprendizagem e contribuindo para ansiedade crónica.

“A mente e o corpo dos nossos animais de companhia estão fortemente conectados”, conclui Susana Muñiz de Miguel. A especialista recomenda que alterações súbitas de temperamento, destruição de objetos, letargia marcada ou rejeição de contacto sejam observadas com atenção e avaliadas por um médico veterinário, uma vez que podem ser sinais físicos de doença.

 

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