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Fim de vida dos cães: Relatório aponta lacunas na comunicação com tutores

Fim de vida dos cães: Relatório aponta lacunas na comunicação com tutores iStock

Um novo relatório publicado no Journal of the American Veterinary Medical Association analisou a forma como os tutores percecionam os eventos de fim de vida dos seus cães e identificou áreas em que as equipas veterinárias podem reforçar a comunicação sobre dor, qualidade de vida e “idade avançada”.

A investigação utilizou o End of Life Survey, do Dog Aging Project, e analisou 646 respostas de tutores de cães que morreram entre dezembro de 2019 e março de 2021. A maioria dos cães encontrava-se numa fase sénior no momento da morte.

 

O questionário foi concebido para recolher informação sobre a causa de morte percecionada pelos tutores, os motivos para a eutanásia, a qualidade de vida no período próximo da morte, características associadas à idade avançada, cuidados veterinários no fim de vida e outros fatores relacionados.

Na amostra analisada, a maioria dos cães foi submetida a eutanásia, em vez de morrer sem assistência. Dos 646 cães incluídos no estudo, 536 foram submetidos a eutanásia, tendo morrido, em média, aos 13 anos. Outros 110 cães morreram sem assistência, com uma idade média de 13,2 anos. A diferença de idade à morte entre os dois grupos não foi estatisticamente significativa.

 

Entre os cães submetidos a eutanásia, a maioria dos procedimentos ocorreu numa clínica ou hospital veterinário, em 411 dos 536 casos, ou no domicílio dos tutores, em 122 casos. Em 322 casos, a eutanásia foi realizada por um profissional veterinário da clínica habitual do cão, enquanto em 183 casos foi realizada por um profissional de outra clínica.

O estudo identificou ainda 95 cães que morreram em casa sem envolvimento veterinário. Para os autores, este dado aponta para a importância do planeamento antecipado do fim de vida, em particular em doentes geriátricos com doença progressiva ou perda de função.

 

A dor e/ou sofrimento foi o motivo primário mais frequentemente referido pelos tutores para a eutanásia, em 260 dos 536 cães eutanasiados. Seguiu-se a má qualidade de vida, referida em 133 casos, e o mau prognóstico, indicado em 105. Nenhum inquirido selecionou o custo dos cuidados como principal razão para a eutanásia, embora 23 tutores o tenham referido como fator secundário.

Segundo os autores, muitos tutores utilizaram campos de resposta livre para descrever sinais que interpretavam como dor ou sofrimento, incluindo vocalização, alteração do estado mental, expressão facial ou ocular, alterações da mobilidade ou observações inespecíficas de dor.

 

Estes dados apontam para uma oportunidade prática na comunicação clínica: as equipas veterinárias devem perguntar aos tutores o que observam em casa e como interpretam esses sinais. A distinção pode ser relevante, uma vez que alterações como vocalização, menor interação ou alteração do estado mental podem estar associadas a dor, mas também a disfunção cognitiva, doença sistémica, ansiedade, perda sensorial ou outras síndromes geriátricas.

Os tutores reportaram pior qualidade de vida no período próximo da morte em cães mais velhos. A idade à morte foi o único fator demográfico do cão significativamente associado à categoria de qualidade de vida, e a proporção de cães com qualidade de vida favorável nas duas semanas antes da morte diminuiu de forma consistente com o aumento da idade.

Entre os tutores que relataram declínio da qualidade de vida antes da morte, 599 dos 646, o início desse declínio variou. Em 174 casos, ocorreu nas horas ou dias anteriores à morte; em 154 casos, pelo menos uma semana antes; em 177 casos, pelo menos um mês antes; e em 94 casos, pelo menos um ano antes.

A razão mais frequentemente apontada para a diminuição da qualidade de vida foi relacionada com saúde, em 316 dos 599 casos, seguida por manifestações físicas da idade avançada, em 187 casos, e manifestações comportamentais da idade avançada, em 43.

As causas de morte mais frequentemente percecionadas pelos tutores foram cancro, em 192 dos 646 casos, “idade avançada”, em 190, e doença de sistema orgânico, em 144.

Nos cães em que o cancro foi apontado como causa primária de morte, os locais anatómicos mais referidos foram baço, fígado e gânglios linfáticos. Os tipos de cancro mais frequentemente reportados foram hemangiossarcoma, linfoma e osteossarcoma. A maioria dos cães com cancro como causa primária percecionada foi submetida a eutanásia, em 171 dos 192 casos.

Entre os cães em que a causa primária de morte foi atribuída a doença de sistema orgânico, os tutores referiram mais frequentemente doença renal ou urinária, doença cardíaca e doença neurológica. Nas respostas livres, os diagnósticos específicos mais indicados incluíram doença ou insuficiência renal crónica na categoria renal/urinária e insuficiência cardíaca congestiva na categoria cardíaca.

A “idade avançada” foi particularmente relevante nos cães com mais de 15 anos no momento da morte, grupo em que foi a causa primária de morte mais frequentemente indicada. Quando os tutores selecionaram “idade avançada” como causa primária, a característica específica mais comum foi a fraca mobilidade associada a fraqueza, em 59 dos 190 casos, seguida por menor interesse em comer ou beber, em 26, e pela idade cronológica, em 21.

Segundo a análise, este dado tem implicações diretas para a comunicação com tutores. A expressão “idade avançada” pode ser usada como forma abreviada para fragilidade, perda de mobilidade, diminuição do apetite, alterações cognitivas, dor crónica ou multimorbilidade progressiva. Questionar os tutores sobre o que entendem por “idade avançada” no caso concreto do seu cão pode ajudar a identificar problemas tratáveis ou passíveis de gestão.

A maioria dos tutores procurou cuidados veterinários perto do fim de vida. Nas duas semanas anteriores à morte, 532 dos 646 cães, correspondentes a 82,4%, foram avaliados por um médico veterinário. Cerca de metade desses tutores, 264 de 532, acreditava que o cão morreria no mês seguinte, enquanto 81, ou 15,2%, acreditavam que o animal viveria mais de um mês. Um grupo de 96 tutores, ou 18%, referiu que o prognóstico não foi discutido, não era aplicável ou não foi compreendido.

Os resultados sugerem que as decisões de fim de vida dos tutores são significativamente influenciadas pela perceção de dor, sofrimento, qualidade de vida e idade avançada. Para as equipas veterinárias, o relatório aponta para a importância de abordar estes temas de forma antecipada, definir os sinais em termos observáveis e retomar a conversa à medida que a doença ou a fragilidade evoluem.

Na prática clínica, os autores defendem que esta abordagem pode passar pela integração do planeamento de fim de vida nas consultas de cães séniores, pela utilização de ferramentas de acompanhamento da qualidade de vida, pela discussão explícita do prognóstico e pelo apoio aos tutores na distinção entre dor e outras causas de alteração comportamental ou funcional.

 

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