Um estudo analisou 3.670 cães com resultado positivo para antigénio de Dirofilaria immitis em Espanha e Portugal, entre 2023 e 2024, para avaliar fatores associados ao risco real de transmissão da dirofilariose canina. A investigação aponta a região geográfica como o principal preditor do risco de infeção, com maior expressão nos territórios insulares.
A Dirofilaria immitis é um parasita zoonótico transmitido por vetores e encontra-se em expansão na Europa. A Península Ibérica e os seus arquipélagos são identificados como zonas endémicas relevantes. Embora já existam modelos de adequação climática, o estudo destaca que poucos trabalhos tinham analisado fatores socioambientais específicos associados ao risco de transmissão real em áreas com infeção confirmada por dirofilariose canina.
Para caracterizar estes fatores, os investigadores recorreram a um Modelo de Nicho Ecológico para Culex pipiens. Este modelo foi integrado com limiares de desenvolvimento do parasita, permitindo estimar o risco de transmissão real na geolocalização exata de cada animal infetado. Posteriormente, foi aplicada uma regressão linear múltipla para avaliar a associação entre o risco de transmissão real e variáveis geográficas, climáticas e relacionadas com o hospedeiro.
Os resultados indicam que a região geográfica foi o fator com maior peso no risco de infeção, com os territórios insulares a apresentarem os coeficientes de risco mais elevados em comparação com a linha de base peninsular.
Entre as classificações climáticas analisadas, o clima semiárido quente esteve significativamente associado a um risco superior. Segundo os autores, este resultado sugere que a transmissão também pode ser relevante em ambientes mais áridos quando existem fontes de água de origem antropogénica.
O estudo identificou ainda um coeficiente de risco significativamente mais elevado em cães mantidos no interior, quando comparados com a categoria de referência exterior/interior. Este resultado indica que o alojamento em ambiente interior pode não prevenir totalmente a exposição ao vetor em determinadas condições, possivelmente devido à endofilia do vetor e à existência de microclimas domésticos estáveis.
O risco de transmissão real foi também significativamente mais elevado em 2024, com heterogeneidade regional marcada. O estudo refere um aumento assinalável em regiões do norte, incluindo Castela e Leão.
No conjunto, os resultados sugerem que a transmissão da dirofilariose é determinada pela interação entre fatores geográficos, climáticos e antropogénicos, e não por uma distribuição aleatória.
E Portugal?
Em Portugal, os casos analisados corresponderam a 16,62% do total da amostra do estudo. A região Centro concentrou o maior número de cães positivos para Dirofilaria immitis, com 239 casos, equivalentes a 6,51% da amostra global. Seguiram-se o Algarve, com 126 casos, Setúbal, com 85, o Oeste e Vale do Tejo, com 45, e o Alentejo, com 38. Lisboa, Madeira e Norte registaram menos de 40 cães infetados cada.
O estudo refere ainda que, na Madeira, os casos positivos se concentraram sobretudo ao longo do perímetro costeiro. Neste território, 77,8% dos cães positivos estavam localizados em áreas classificadas como de risco muito elevado e 22,2% em áreas de risco elevado, não tendo sido identificados casos em zonas de risco médio, baixo ou muito baixo. Nos Açores, não foram reportados casos positivos.
Numa perspetiva One Health — Uma Só Saúde —, os autores defendem a necessidade de estratégias de prevenção e vigilância adaptadas geograficamente, em particular em áreas insulares, semiáridas e em zonas emergentes do interior.

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