Um estudo com 42 cães com enteropatia crónica concluiu que associar o transplante de microbiota fecal à mudança alimentar não trouxe uma melhoria clínica significativa face à alteração da dieta isolada.
O estudo foi publicado no Journal of Small Animal Practice e liderado pela equipa de medicina do Willows Veterinary Centre and Referral Service, no Reino Unido. A investigação comparou, de forma aleatória e duplo-cega, cães tratados apenas com alteração da dieta com cães que receberam também transplante de microbiota fecal.
A investigação avaliou se a adição do transplante de microbiota fecal poderia melhorar os resultados clínicos em cães com enteropatia crónica. Embora abordagens que promovam o equilíbrio do microbioma sejam consideradas preferíveis à terapêutica com antibióticos, o benefício clínico do transplante de microbiota fecal permanece incerto.
O estudo incluiu cães de seis centros de referência do Reino Unido, todos com diarreia do intestino delgado ou mista. Os animais foram distribuídos aleatoriamente por dois grupos: um recebeu transplante de microbiota fecal associado a mudança de dieta, com dieta de proteína hidrolisada ou nova, e outro recebeu apenas o tratamento padrão baseado na alteração alimentar.
O transplante de microbiota fecal foi realizado com material fecal fresco de cães dadores selecionados, administrado por enema retal de retenção sob sedação.
Ambos os grupos apresentaram melhoria progressiva da consistência das fezes ao longo do tempo, confirmando a elevada taxa de resposta alimentar na enteropatia crónica canina. No entanto, após 90 dias, não foram observadas diferenças significativas entre os grupos na melhoria clínica relatada pelos tutores, no Índice de Atividade da Doença Inflamatória Intestinal Canina ou na pontuação fecal.
Durante o estudo, não foram reportados eventos adversos graves atribuíveis ao transplante de microbiota fecal, o que sugere que o procedimento foi seguro no contexto avaliado.
De acordo com os resultados, uma única administração de transplante de microbiota fecal por enema de retenção não proporcionou um benefício clínico claro face à mudança alimentar isolada. Os autores referem, contudo, que são necessários mais estudos para avaliar a administração repetida, protocolos prolongados, por exemplo por via oral, ou volumes maiores de transplante.
A investigação reforça ainda que os ensaios dietéticos continuam a ser a terapêutica de primeira linha para cães com enteropatia crónica.
O estudo apresentou limitações, incluindo o facto de não ter atingido o tamanho de amostra pretendido, a natureza ligeira da maioria dos casos de enteropatia crónica e a falta de consistência nas mudanças de dieta e nos tratamentos concomitantes.
“A ausência de benefício clínico neste estudo não deve ser interpretada como evidência de ausência, mas, ainda assim, destaca a necessidade de estudos rigorosos para fundamentar novas terapias. São necessárias mais investigações com protocolos de transplante de microbiota fecal ajustados. Aguardamos com expectativa a continuidade da investigação sobre formas de promover um microbioma gastrointestinal saudável”, afirma Fergus Allerton, autor principal do estudo.

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