Um estudo publicado no Journal of the American Veterinary Medical Association identificou uma relação entre enteropatias crónicas e alterações no estado emocional de cães, sugerindo a necessidade de avaliação comportamental em animais com problemas gastrointestinais.
A investigação, conduzida no Evidensia Specialist Animal Hospital, em Helsingborg, Suécia, baseou-se em questionários aplicados a tutores de 50 cães com enteropatias crónicas e 50 cães saudáveis. A atividade da doença gastrointestinal foi avaliada através do Canine Inflammatory Bowel Disease Activity Index e do score fecal, tendo os cães com enteropatias crónicas apresentado valores significativamente superiores.
Para analisar o estado emocional, os investigadores recorreram à escala Positive and Negative Activation Scale (PANAS), que avalia níveis de ativação positiva e negativa. Os cães com enteropatias crónicas registaram uma pontuação média de ativação negativa de 0,48, comparativamente a 0,33 nos animais saudáveis, indicando maior predominância de emoções negativas.
Segundo os autores, “a elevada ativação negativa indica uma predominância de emoções negativas e, portanto, conduz a um nível mais significativo de respostas comportamentais de proteção”.
O estudo avaliou também comportamentos de deslocação e sinais de stress, classificados numa escala de cinco pontos. Os cães com enteropatias crónicas apresentaram maior frequência de pontuações iguais ou superiores a três em cinco das sete situações analisadas, incluindo interações com pessoas ou com cães desconhecidos. Nestes casos, foram entre 3,19 e 13,64 vezes mais propensos a registar esses níveis. Também se verificou uma maior probabilidade de sinais de stress quando os tutores se preparavam para sair de casa.
Os autores defendem a necessidade de estudos adicionais para aprofundar a possível relação de causa-efeito entre enteropatias crónicas e saúde emocional, bem como avaliar se a gestão conjunta destas dimensões pode melhorar os resultados clínicos.
As coautoras Sarah Heath e Carrie Tooley, especialistas reconhecidas pelo Royal College of Veterinary Surgeons em medicina comportamental, recomendam a utilização da escala PANAS na prática clínica para avaliar o estado emocional de cães com problemas gastrointestinais, bem como a análise dos níveis de ativação e da qualidade do sono.
Sarah Heath sublinha a importância de uma abordagem integrada, “é necessário adotar uma abordagem em duas frentes, porque haveria de existir alguma melhoria do estado emocional se apenas tratássemos o trato gastrointestinal, tal como também haveria de existir algum benefício no problema emocional se o tratássemos apenas do ponto de vista emocional, sem abordar o intestino. Para alcançar resultados duradouros e evitar exacerbações e recorrências, é necessário tratar ambas as dimensões”.
A autora principal, Ulrika Ludvigsson, refere que os resultados “representam um dos primeiros passos para compreender a interação entre a enteropatias crónicas e o bem-estar emocional nos cães”, acrescentando que “a principal implicação dos nossos resultados é a necessidade de aumentar a consciencialização entre os médicos veterinários para uma possível ligação entre estas doenças e a saúde emocional dos animais”.

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