A Sociedade Portuguesa de Oncologia Veterinária (SPOV) foi criada há um ano e, em entrevista à VETERINÁRIA ATUAL, o presidente Joaquim Henriques faz o balanço dos primeiros 12 meses de atividade. Fala do papel que desejam ter na medicina veterinária, e não só, e identifica ainda muitos desafios no quotidiano de quem dedica a vida a diagnosticar, tratar e acompanhar animais com doenças oncológicas.
A SPOV foi criada há um ano. Que balanço faz destes primeiros 12 meses de atividade?
A Sociedade nasceu a 8 de janeiro do ano passado e, como todas as estruturas associativas novas, teve os seus percalços no início, nomeadamente em termos de abertura de contas, porque ainda encontramos muita burocracia no nosso país. Esses percalços levaram a algum atraso no arranque efetivo das atividades da Sociedade, mas o balanço é muito positivo porque todo o esforço, todo o acompanhamento do planeamento do nosso congresso anual e também o contacto que tivemos com os sponsors foi bastante positivo.
O ponto alto [deste primeiro ano] foi a realização do nosso primeiro congresso anual, que decorreu em Coimbra em novembro passado, no qual tivemos uma afluência muito grande. Foram cerca de 150 participantes, a maioria eram profissionais – incluindo enfermeiros, porque somos uma Sociedade que agrega todas as profissões da área da veterinária – mas tivemos também uma participação importante de estudantes destas áreas de interesse. Foi um congresso com palestrantes de alto nível, reconhecidos entre os pares e, acima de tudo, foi um momento de convívio que funcionou como o arranque oficial da Sociedade.
No que diz respeito às profissões que se têm associado à sociedade, já tem alguma noção do número de médicos e de enfermeiros que se têm juntado à SPOV? Não só da medicina veterinária, mas também da área da medicina humana, da biologia, etc.
Neste momento não temos ainda registo de ninguém externo. Ou seja, [os associados] são todos profissionais ou estudantes de medicina veterinária e de enfermagem veterinária. A grande maioria dos sócios são médicos veterinários, depois em segundo lugar estão os enfermeiros e em terceiro lugar o grupo dos estudantes destas áreas. Ainda não temos inscrições de membros fora da área veterinária, ou mesmo dentro da área da veterinária, da vertente que não seja clínica, isto é, profissionais ligados à investigação na área do cancro.
Por esse motivo, estamos a trabalhar no contacto e na divulgação [da SPOV] nos centros de investigação e junto de outras associações semelhantes. Tenho estado em contacto com a Sociedade Portuguesa de Oncologia, de medicina humana, e com a Liga Portuguesa de Liga Contra o Cancro, com a qual já temos um evento programado em março: a Liga fará uma caminhada de sensibilização para a atividade física como forma de prevenção do cancro e nós, pela primeira vez, vamos estar associados a esse evento.
É normal uma sociedade tão jovem não ter ainda muita projeção, mas contamos, muito em breve, sermos enriquecidos com a participação de outros profissionais da área da Oncologia.
Tem noção de quantos associados já fazem parte da SPOV?
Temos cerca de 180 associados, com quotas ativas, o que é um número extremamente bom e que nos permite arrancar bem o ano.
Também quero fazer menção às empresas e às pessoas que acreditaram em nós, porque é muito difícil obter patrocínios quando ainda não se tem números [grandes de associados]. E, sobretudo, porque a Sociedade começou em janeiro, quando os budgets já estão alocados, mas a Zoetis apostou em nós, assim como a Codivet, a Farmodiética, a Boehringer e a DNAtech. Houve um grupo de laboratórios e de companhias farmacêuticas que nos ajudaram, permitindo que pudéssemos ter feito o primeiro congresso, que vão continuar connosco e com os quais temos várias atividades científicas programadas para este ano.
E tendo nós também uma componente humana, tivemos dois donativos de pessoas singulares – um de três mil euros e outro de mil euros – e com parte do donativo maior vamos criar uma bolsa para premiar as melhores teses de doutoramento e mestrado na área da Oncologia na enfermagem e na medicina veterinária.
Essas bolsas podem ajudar a trazer os investigadores que se dedicam à área da Oncologia para a SPOV?
Claro. Até porque vamos criar um conselho científico, que vai ser autónomo da direção da Sociedade, que terá como objetivo avaliar os conteúdos dos congressos e dos webinars que vamos fazer no âmbito da formação e vai trabalhar para criar guidelines nacionais sobre determinados assuntos que tenham a ver diretamente com a Oncologia. Também será esse conselho científico a avaliar os trabalhos e a atribuir o prémio da bolsa.
Vamos tentar que esse conselho científico seja multidisciplinar, que tenha pessoas da área da imagem, da cirurgia, da patologia clínica e também de áreas afins, por exemplo com médicos ou investigadores na área da medicina humana.
Tem ideia de quando poderá avançar com a constituição desse conselho científico e quando poderão abrir as candidaturas para esses prémios?
Muito em breve. Posso dizer que até ao fim de fevereiro, pelo menos, teremos a composição do conselho científico, porque já temos dois webinars programados, um para abril e outro para novembro, e temos de começar a definir critérios e também queremos fechar o programa do congresso deste ano.
“Os animais continuam a ter diagnósticos muito tarde porque não há prevenção”
Quando anunciou a criação da SPOV, frisou que os objetivos passavam por transformar os desafios que existem em oportunidades e, com isso, elevar a qualidade dos cuidados oncológicos na medicina veterinária em Portugal. Em primeiro lugar, que desafios são esses com que os profissionais se deparam na área da Oncologia veterinária em Portugal e, depois, como é que esses desafios podem ser transformados em oportunidades?
Existem vários desafios e alguns são transversais à medicina veterinária. O primeiro que identifico é a necessidade de confiança e a imagem do médico veterinário na sociedade. Infelizmente, existe muitas vezes bastante desconfiança. As pessoas recorrem muito ao doutor Google, às redes sociais, ainda se veem muitos tutores que vêm com os animais à consulta e trazem informação enviesada.
Mais particularmente na área da Oncologia, uma das grandes dificuldades que ainda vemos são os diagnósticos tardios, os animais continuam a ter diagnósticos muito tarde porque não há prevenção. Os tutores não estão sensibilizados, ainda há gente que não sabe que os animais também podem ter cancro e, portanto, acham que um gato que vai à rua e tem uma ferida no nariz que não cicatriza não passa de uma arranhadela por ter andado em lutas. Só que aquilo é um tumor que vai evoluindo e o diagnóstico precoce, e mesmo o tratamento precoce, não é feito. Ainda nos deparamos com tumores que podiam ser curáveis, mas chegam até nós já inoperáveis e acabam com a vida do animal de uma forma drástica.
“Uma das grandes dificuldades que ainda vemos são os diagnósticos tardios; os animais continuam a ter diagnósticos muito tarde porque não há prevenção”
Continuo a achar que a veterinária, nomeadamente a Oncologia veterinária, ainda são áreas órfãs em termos de subsídios e de sensibilização para a investigação. Queremos também ultrapassar a falta de formação para os profissionais veterinários nas faculdades e nas instituições de ensino, que consideramos ser ainda fraca. A Oncologia, ou seja, os tumores, são provavelmente das doenças mais frequentes na clínica de animais de companhia e ainda hoje, infelizmente, a Oncologia não é lecionada em todos os currículos ou é lecionada como disciplina optativa só para quem quer.
“A Oncologia, ou seja, os tumores, são provavelmente das doenças mais frequentes na clínica de animais de companhia e ainda hoje, infelizmente, a Oncologia não é lecionada em todos os currículos ou é lecionada como disciplina optativa só para quem quer”
E os próprios profissionais, também estão muito sozinhos. Ainda não existe, infelizmente, nenhum programa de diferenciação profissional para a classe veterinária, à semelhança do que já há noutros países, e, por esse motivo, as pessoas têm de procurar formação ou procurar um grupo onde possam crescer e maturar com o objetivo de praticar melhor medicina.
E como é que a SPOV tenta complementar isso tudo? Trabalhando esta parte da imagem da medicina veterinária na sociedade, sensibilizando o público e a comunidade científica, sobretudo, para a prevenção e para o diagnóstico precoce destes tumores. Pretendemos fazê-lo através de campanhas de sensibilização e apostando numa formação sólida, orientada, não só junto dos profissionais, mas também junto da Ordem dos Médicos Veterinários, junto da Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especializados em Animais de Companhia e junto das faculdades, fazendo algum lobby para que a Oncologia seja uma área com mais importância.
E também através da criação de orientações, que pretendem ser linhas de conduta baseadas em documentos, em evidência científica já publicada e que podem melhorar muito os cuidados veterinários. Neste âmbito, o nosso primeiro trabalho vão ser orientações sobre a segurança do armazenamento e da administração de citotóxicos. É um problema de saúde profissional e de saúde pública, portanto é muito importante que os clínicos utilizadores destes fármacos saibam todas as regras de segurança e com isso seja garantido também a proteção do ambiente.
“O nosso primeiro trabalho vão ser orientações sobre a segurança do armazenamento e da administração de citotóxicos. É um problema de saúde profissional e de saúde pública, portanto é muito importante que os clínicos utilizadores destes fármacos saibam todas as regras de segurança e com isso seja garantido também a proteção do ambiente”
Focando nesse objetivo de produzir guidelines para a prática clínica. Para além da questão dos citotóxicos, que outros temas lhe parecem importantes abordar na prática nacional e que mereceriam linhas de orientação que ajudassem os profissionais?
A minha perceção é de que ainda existe bastante carência no que diz respeito ao diagnóstico oncológico, à interpretação das técnicas que estão disponíveis – nomeadamente técnicas de imunocitoquímicas, técnicas de citometria de fluxo e de biologia molecular – para o apuramento diagnóstico.
Depois temos também a área da cirurgia oncológica e daquilo que, hoje, já é possível fazer e de como se traduz depois na qualidade de vida do animal. Ainda não há uma sensibilização de como a cirurgia oncológica evoluiu muito e já se conseguem fazer cirurgias grandes e agressivas sem diminuir a qualidade da vida dos animais e contribuindo para o bem-estar, até no pós-cirúrgico.
“Um prognóstico não é uma sentença de morte”
Publicou um artigo de opinião na VETERINÁRIA ATUAL sobre como a ideia de “prognóstico” na Oncologia veterinária pode comprometer a abordagem terapêutica e até interferir na relação entre médicos veterinários e tutores. Parece-lhe importante trabalhar igualmente a questão da comunicação e das soft skills na medicina veterinária nesta área em particular? Que papel pode ter a SPOV?
Pretendemos que a Sociedade dê formação e, sobretudo, através das suas ações e dos seus documentos permita uma maior sensibilização e formação dos clínicos sobre o prognóstico. Mas o que é que isso quer dizer, “o prognóstico”? Posso falar de prognóstico do animal estar vivo aos três meses, estar vivo aos seis meses, posso falar de prognóstico vital, de prognóstico funcional. Posso dizer a um tutor que faço a amputação da pata ao gato e assim ele já não morre do tumor, mas se o gato tiver um problema na coluna e não andar, por um lado tirei-lhe um problema, por outro lado faço-lhe um prognóstico vital diferente.
E depois existem as limitações prognósticas. Vejo que muitos trabalhos onde isso foi calculado têm inúmeras limitações que levam a que o prognóstico possa ser enviesado. Um prognóstico não é uma sentença de morte, não quer dizer que o cão vai morrer daqui a três meses ou que vai morrer daqui a seis meses. São dados estatísticos para aquela amostra do estudo.
Sobre as soft skills é uma questão muito pertinente. Esta é uma uma área muito abrangente, que é da área da veterinária, mas da forma como as pessoas comunicam hoje em dia. Não tem só a ver com as soft skills do médico veterinário, mas também das soft skills do tutor, porque há tutores mais empáticos, menos empáticos, não podemos ver isto só do lado do profissional de saúde.
Depois, de facto, há a capacidade de treino do próprio profissional, a maneira como se sente seguro naquilo que está a transmitir, na maneira como se sente assertivo ou não ou recetivo para o estado de espírito do tutor. Tudo isto pode condicionar a relação.
Uma das coisas que também tem sido falado é criar um grupo de trabalho [na SPOV] nessa área da communication skills e também do compassionate care e palliative care, depois será tudo traduzido para português. Não nos podemos esquecer que esta é uma área onde os próprios profissionais se cansam bastante, também se sentem fragilizados, porque é uma área muito intensa, com um contacto muito frequente com os tutores, diariamente a acompanhar um animal.
Que palavras deseja transmitir aos profissionais de saúde animal, e não só, para que se juntem à SPOV?
Tenho a certeza de que todos os colegas que têm casos clínicos de Oncologia nas clínicas e hospitais terão na Sociedade a comunidade perfeita para estarem presentes, onde podem participar nas nossas formações, mas também estar com profissionais a quem podem pedir ajuda e com quem podem crescer em conjunto.
Os outros colegas – quer médicos, quer enfermeiros, quer outros profissionais que tenham interesse ou façam investigação na área da Oncologia – deveriam estar na Sociedade para nos ajudar a crescer, nos ajudar a crescer nas áreas paralelas à clínica para que todos juntos consigamos ser mais fortes e ter um efeito mais impactante na sociedade, com resultados mais frutíferos para os nossos animais, para as pessoas e para a sociedade em geral.
A SPOV “não é só para quem faz clínica, é para todos”
Neste objetivo da SPOV abrir-se a outras áreas do saber médico e clínico, que papel desejam ter na Oncologia comparada, dentro do conceito One Health? Por exemplo, que espaço têm para parcerias com a Vet-OncoNet?
A Sociedade, sendo independente, é uma plataforma onde todos os passos são possíveis. Numa primeira vertente, através no networking e também numa faceta de possível funding. Se a Sociedade continuar a recolher fundos, estes podem ser investidos em projetos de investigação nessas áreas.
Obviamente, a SPOV terá muito gosto que os profissionais que constituem a Vet-OncoNet façam parte da Sociedade porque só iriam enriquecê-la. Como frisei, a Sociedade não é só para quem faz clínica, é para todos e podemos todos ser catalisadores de projetos em comunhão.
Também estamos envolvidos no National Cancer Hub-PT (NCH-PT) [uma iniciativa coordenada pela Agência de Investigação Clínica e Inovação Biomédica (AICIB) e pela Direção-Geral da Saúde (DGS), através do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas (PNDO)] que junta cientistas e outros profissionais da área da Oncologia para desenvolver mais projetos [no âmbito da Oncologia comparada].

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