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Animais de Companhia

Desparasitação na era das novas tendências alimentares: Porque a nutrição também faz parte da prevenção parasitária

Desparasitação na era das novas tendências alimentares: Porque a nutrição também faz parte da prevenção parasitária

Mafalda Pires Gonçalves
Presidente do Grupo de Interesse Especial em Nutrição (GIENUT) da APMVEAC
Responsável pelo serviço de Nutrição Clínica e Centro do Peso Saudável do Hospital Escolar da FMV-ULisboa

 

A desparasitação continua a ser uma das bases da medicina preventiva em animais de companhia. Faz parte do nosso dia a dia clínico, quase de forma automática. Mas, a verdade é que o contexto em que trabalhamos hoje já não é o mesmo de há uns anos e isso obriga-nos a olhar para este tema de forma um pouco mais ampla.

 

Os animais vivem de maneira diferente, e sobretudo… comem de forma diferente. Entre alimentos completos e complementares, comerciais, dietas caseiras ou cruas, há hoje uma variedade muito maior de opções e isso traz novas variáveis para cima da mesa quando pensamos em risco parasitário.

Durante muito tempo, focámo-nos quase exclusivamente no estilo de vida: se o animal vai à rua, se caça, se convive com outros animais. E claro, tudo isso continua a ser fundamental. Mas começa a ser difícil ignorar que o tipo de alimentação também pode influenciar esse risco, e que deve fazer parte da nossa avaliação clínica sempre que definimos um plano de prevenção.

 

As dietas cruas, ou BARF, são talvez o exemplo mais evidente desta mudança. Muitos tutores procuram este tipo de alimentação por a considerarem mais “natural”. E, independentemente da posição que possamos ter sobre o tema, há um ponto que não pode ser ignorado: a evidência mostra que alimentos crus podem ser uma fonte de agentes patogénicos, incluindo parasitas.

Dependendo da origem e manipulação das matérias-primas, podemos estar perante risco de exposição a agentes como Toxoplasma gondii em gatos, ou Sarcocystis spp. em carne de animais de produção. Nos cães, o consumo de carne crua ou vísceras pode também aumentar a exposição a agentes como Neospora caninum, além de facilitar a continuidade de determinados ciclos parasitários.

 

Mas, talvez o ponto mais subvalorizado nesta discussão seja outro: não é só o animal que está em risco. A manipulação de carne crua em casa (tábuas, utensílios, superfícies) pode expor diretamente os tutores a agentes com potencial zoonótico. E quando pensamos em famílias com crianças, grávidas, idosos ou pessoas imunocomprometidas, este risco deixa de ser teórico e passa a ser clinicamente relevante. Aqui, a nossa intervenção deixa de ser apenas veterinária, passa também a ser uma questão de saúde pública.

É precisamente neste ponto que o conceito de One Health ganha verdadeiro significado. Aquilo que o animal come pode ter impacto direto não só na sua saúde, mas também na das pessoas com quem vive. A fronteira entre nutrição, parasitologia e saúde pública é, nestes casos, muito ténue.

 

Não é por acaso que organizações como a WSAVA (World Small Animal Veterinary Association) e a AAHA (American Animal Hospital Association) já se posicionaram sobre este tema. Ambas reconhecem que as dietas cruas podem representar riscos microbiológicos e parasitários e recomendam que os médicos veterinários informem claramente os tutores, ajudando-os a tomar decisões conscientes e ajustadas ao contexto de cada animal.

Isto não significa entrar numa lógica de extremos ou numa abordagem simplista de “certo” ou “errado”. Significa, antes, reconhecer que a alimentação passou a ser mais uma peça no puzzle do risco parasitário e que ignorá-la já não é uma opção.

Na prática, isto obriga-nos a ajustar a forma como abordamos a prevenção. Não basta aplicar protocolos de desparasitação de forma uniforme. É necessário olhar para o animal como um todo: o que faz, onde vive… e o que come. E é aqui que a consulta de nutrição pode ganhar um papel ainda mais relevante. Para além de discutir nutrientes, digestibilidade ou doença, torna-se um espaço privilegiado para abordar segurança alimentar, higiene na manipulação e risco parasitário associado à dieta.

A desparasitação continua, e continuará, a ser essencial. Mas, a sua eficácia depende cada vez mais da nossa capacidade de integrar diferentes fatores e adaptar a abordagem a cada caso. No fundo, prevenir parasitas já não passa apenas por escolher o antiparasitário certo. Passa por compreender o contexto completo do animal, incluindo aquilo que está na sua taça todos os dias.

A desparasitação continua, e continuará, a ser essencial. Mas, a sua eficácia depende cada vez mais da nossa capacidade de integrar diferentes fatores e adaptar a abordagem a cada caso. No fundo, prevenir parasitas já não passa apenas por escolher o antiparasitário certo. Passa por compreender o contexto completo do animal, incluindo aquilo que está na sua taça todos os dias.

Enquanto médica veterinária com especial interesse na área da nutrição, acredito que temos hoje uma oportunidade clara de integrar melhor o conhecimento e enriquecer a prática clínica. A nutrição não é apenas um complemento, é parte ativa da prevenção e da saúde a longo prazo. O GIENUT – Grupo de Interesse Especial em Nutrição da APMVEAC surge como um espaço de partilha e crescimento, aberto a todos os colegas que queiram aprofundar o papel da alimentação nos animais de companhia.

 

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