Um novo estudo conclui que a Península Ibérica alberga duas espécies de coelho, e não apenas uma, como se considerava até agora. A investigação, publicada na revista Biological Conservation, reconhece o coelho-ibérico (Oryctolagus algirus) como espécie distinta do coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus).
O artigo, intitulado When taxonomy lags behind evolution: Conservation implications of cryptic diversity in the Iberian rabbit, foi desenvolvido por investigadores do Instituto de Estudios Sociales Avanzados (IESA-CSIC), com participação da investigadora Francisca Castro, da Universidade de Córdoba. O estudo contou ainda com especialistas de instituições de Espanha, Portugal e Reino Unido.
Segundo os autores, o coelho-ibérico tem origem exclusiva na Península Ibérica, com exceção de algumas ilhas atlânticas e do norte de África, onde foi introduzido por humanos. A sua distribuição natural abrange todo o território português e o oeste de Espanha.
Já o coelho-europeu, também originário da Península Ibérica, encontra-se no leste de Espanha e foi introduzido em grande parte da Europa, na Oceânia, Argentina, Chile e várias ilhas oceânicas.
Os investigadores referem que o reconhecimento desta diversidade não altera a realidade biológica, mas permite descrevê-la com maior precisão. “As duas espécies sempre estiveram aí, mas o que mudou foi o nosso conhecimento sobre elas”, afirmou Rafael Villafuerte, investigador do IESA-CSIC.
Segundo o investigador, esta distinção permitirá “reinterpretar melhor numerosos resultados obtidos no passado e desenhar estratégias de gestão e conservação mais eficazes para cada uma das duas espécies”.
O estudo reúne evidências de várias áreas, incluindo genética, morfologia, ecologia, reprodução e comportamento. Os autores identificaram ainda diferenças no estado das populações, na trajetória de crescimento, nas comunidades de parasitas, na composição do microbioma intestinal e nas propriedades da carne.
Entre as diferenças descritas, o coelho-ibérico apresenta menor tamanho e peso do que o coelho-europeu e produz, em média, um menor número de descendentes por ninhada.
Até agora, os dois coelhos eram considerados subespécies do coelho-europeu. De acordo com o estudo, divergiram há aproximadamente dois milhões de anos, depois de ficarem isolados em dois refúgios glaciares situados em extremos opostos da Península Ibérica: um no vale do Ebro e outro no golfo de Cádis.
Apesar de serem muito semelhantes à vista desarmada e de terem sido tratados durante mais de um século como uma única espécie, os investigadores defendem que a evidência científica demonstra histórias evolutivas, biologia e situações de conservação diferentes. Atualmente, as duas espécies mantêm distribuições separadas na Península Ibérica.
O reconhecimento da distinção entre ambas tem implicações para a conservação. Os dois coelhos são considerados peças-chave dos ecossistemas mediterrânicos e constituem presa principal de até 40 espécies de predadores, incluindo o lince-ibérico.
Segundo os autores, enquanto o coelho-europeu mantém populações estáveis ou mesmo crescentes em algumas zonas, o coelho-ibérico regista um declínio acentuado em grande parte da sua população. Avaliar ambas as espécies como se fossem uma só pode, por isso, ocultar a situação da espécie mais ameaçada e dificultar medidas específicas de conservação.
“Não podemos continuar a gerir como uma única espécie dois coelhos que evoluíram separadamente durante quase dois milhões de anos”, afirmou Miguel Delibes-Mateos, investigador do IESA-CSIC.
Para os autores, o reconhecimento como espécies distintas poderá melhorar programas de monitorização, avaliações do estado de conservação, translocações, planeamento cinegético e estratégias de recuperação, evitando a aplicação direta de resultados obtidos para uma espécie à outra.

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