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IV Congresso Nacional de Estudantes de Medicina Veterinária: Jovens médicos veterinários: Como reter talento em Portugal?

IV Congresso Nacional de Estudantes de Medicina Veterinária: Jovens médicos veterinários: Como reter talento em Portugal? Direitos reservados

Salários, condições de trabalho, progressão de carreira, afinal o que faz um jovem recém-licenciado em medicina veterinária decidir ficar a trabalhar em Portugal? A Federação Académica de Medicina Veterinária (FAMV) juntou Susana Pombo, Xavier Canavilhas, Bruno Rolo e Patrícia Luís num debate que procurou entender qual o melhor caminho para fixar o talento nacional. Ficou claro que não há uma resposta simples.

A IV edição do Congresso Nacional de Estudantes de Medicina Veterinária, organizado pela FAMV, decorreu de 20 a 22 de fevereiro e encerrou os trabalhos com uma mesa-redonda para debater o tema “Que fatores contribuem para a fixação de talento em Portugal”.

 

O momento moderado pelo anterior presidente da FAMV, Ricardo Chantre, reuniu a visão dos mais jovens, com a presença da atual presidente da Federação, Patrícia Luís, e do presidente da Associação Portuguesa de Jovens Médicos Veterinários (APJMV), Xavier Canavilhas, e juntou a perspetiva do setor público pela voz de Susana Pombo, diretora-geral da Direção-Geral de Agricultura e Veterinária (DGAV), e a visão global dos profissionais com a presença de Bruno Rolo, vice-presidente do Sindicato Nacional dos Médicos Veterinários (SNMV).

A razão pela qual os jovens formados em medicina veterinária no país são procurados e bem acolhidos no estrangeiro foi consensual entre os participantes, a formação em Portugal é consistente e conceituada, mas reter esses profissionais no mercado de trabalho nacional é cada vez mais desafiante e envolve vários fatores. Susana Pombo evidenciou essa dificuldade sentida pelo setor público, admitindo que captar o talento nacional ou fazer com que regressem das experiências no exterior “vai muito para além do salário. É um fator muitíssimo importante, mas os baixos salários começam a ser um vetor transversal a todas as profissões da administração pública”, daí que não seja apenas a retribuição aquilo que prenderá o profissional a setores importantes como a saúde pública ou a inspeção veterinária. “Terá mais a ver com ter carreiras aliciantes, com a estabilidade, com sentido de progressão e sentir que os dirigentes estão próximos”, sugeriu a dirigente, acrescentando ainda que as novas gerações também dão cada vez mais valor “à gestão do tempo” que equilibra a vida profissional e a vida pessoal.

 

“Terá mais a ver com ter carreiras aliciantes, com a estabilidade, com sentido de progressão e sentir que os dirigentes estão próximos”
Susana Pombo, diretora-geral da DGAV

Na opinião de Susana Pombo, a solução também pode estar na visão alargada de carreira para o médico veterinário que a DGAV pode proporcionar “numa perspetiva de trabalhar problemas transdisciplinares e que não têm uma resposta única”. Afinal, o papel dos médicos veterinários tem sido fundamental, por exemplo, no estabelecimento de acordos comerciais transcontinentais como o recentemente assinado entre a União Europeia e o MERCOSUL, na gestão de populações e ecossistemas a nível global, na soberania alimentar ou até em assegurar que as viagens de animais de companhia entre Estados acontecem de forma segura.

 

E apesar de admitir que “a grande dificuldade tem sido fazer compreender ao poder público o potencial do médico veterinário” nas funções do Estado, a diretora-geral acredita que “será este ano que as carreiras especiais da função pública serão revistas” e haverá oportunidade para tornar o trabalho no setor público mais apelativo para os jovens profissionais.

Bruno Rolo também se mostrou preocupado com o desinteresse dos jovens médicos veterinários pelo trabalho na função pública, deixando por preencher grande parte das vagas quando são abertos concursos de recrutamento. “Neste momento, o médico veterinário na administração pública é um técnico superior como outro qualquer. Aliás existem outros técnicos superiores que estão no mesmo nível salarial, têm a mesma carreira, mas o nível de responsabilidade é completamente diferente e isto é uma preocupação”, admitiu o dirigente sindical. E lembrou outro exemplo: o médico veterinário municipal. “É extremamente pouco valorizado”, lamentou o sindicalista, lembrando a importância e responsabilidade das funções desse profissional, muitas vezes colocado em situações de grande destaque mediático, como nos fogos florestais ocorridos em 2017 na região de Pedrógão Grande.

 

Só que para Bruno Rolo esse desinteresse não está apenas associado às condições de trabalho no setor público. Na perspetiva do vice-presidente do SNMV, a academia tem também uma parte da responsabilidade já que direciona muito do conteúdo lecionado para a clínica de animais de companhia. “Compete à academia dirigir e incentivar a que outras áreas profissionais sejam valorizadas, porque se não houver valorização não haverá atratividade e não se fixam profissionais” nesses setores de atividade, argumentou o dirigente.

Uma opinião partilhada com Susana Pombo que reconheceu: “Não tenho qualquer dúvida de que há muitos estudantes que acabam o curso e não sabem o que é a DGAV”.

Setor privado com alterações profundas
Os participantes com maior experiência também fizeram notar aos alunos que assistiam à mesa-redonda a mudança profunda que a profissão de médico veterinário sofreu nas últimas décadas. Se começou por ser um caminho profissional percorrido sobretudo no setor do Estado, evoluiu para uma profissão liberal em que o médico veterinário tinha o pequeno consultório privado para, mais recentemente, passar a ser um profissional integrado em equipas mais alargadas, multidisciplinares, a trabalhar em unidades veterinárias de média ou grande dimensão.

Essa alteração no mercado de trabalho trouxe novos desafios que ainda estão a ser incorporados pela classe profissional. Não obstante, apesar do crescimento do mercado de trabalho e do aumento do número de alunos das faculdades de medicina veterinária, mesmo o setor privado também tem apresentado dificuldades na atração e fixação dos profissionais. “Há uma falta de capacidade de recrutamento mesmo na área clínica de pequenos animais e isso é preocupante, porque se a maior parte dos mais jovens se interessa por essa área, se há a oferta e não há capacidade de recrutamento, quer dizer que alguma coisa não está bem”, evidenciou Bruno Rolo. Em causa estarão não apenas as condições salariais oferecidas, mas também o trabalho por turnos, a atribuição ou não de subsídios de turno e de trabalho ao fim de semana e feriados, condições que “afastam as pessoas desse tipo de vagas”, acrescentou.

Todavia, negociar contratos de trabalho, tabelas salariais e carreiras profissionais é cada vez mais difícil para o SNMV. Em primeiro lugar, evidenciou o dirigente sindical, porque o principal empregador deixou de ser o Estado, em segundo lugar porque não há uma associação patronal privada que possa ser o interlocutor negocial. “Hoje, muitas das entidades patronais já nem são detidas por médicos veterinários, mas sim por investidores e essa é uma realidade que nos está a atropelar. É muito difícil ao sindicato criar esse contexto [negocial] porque não temos interlocutor e não podemos, enquanto sindicato, instituir [de forma unilateral] tabelas salariais”, admitiu, acabando por sublinhar: “Deixámos de ser profissionais liberais e passámos a ser proletários do serviço veterinário. Neste momento, somos, na grande maioria, trabalhadores por conta de outrem, mas nem sabemos bem quem é o outrem. É uma entidade jurídica que nos paga”.

“Deixámos de ser profissionais liberais e passámos a ser proletários do serviço veterinário. Neste momento, somos, na grande maioria, trabalhadores por conta de outrem, mas nem sabemos bem quem é o outrem”
Bruno Rolo, vice-presidente do SNMV

“Reduzir a questões de salário àquilo que é o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal é redutor”, admitiu também Xavier Canavilhas. Compatibilizar a estabilidade familiar, a compra de casa, a criação de raízes estáveis a nível emocional e familiar “não é fácil de realizar com as exigências que temos em termos laborais”, enfatizou ainda o dirigente da APJMV.

“Reduzir a questões de salário àquilo que é o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal é redutor”
Xavier Canavilhas, presidente da APJMV

Outro fator que tem também afastado os jovens do mercado de trabalho nacional, criando dificuldades de contratação prende-se com o desfasamento entre a realidade académica e a prática clínica encontrada em centros de atendimento médico-veterinário. “Criámos esta ideia de que a medicina veterinária no resto do país é muito à semelhança daquilo que encontramos nos hospitais das faculdades, altamente diferenciados com meios complementares de diagnóstico e terapêutica altamente avançados, que, na realidade, não temos no resto do país”, explicou Xavier Canavilhas, admitindo que lhe chegam relatos de alunos que, mesmo durante a faculdade, já estão a fazer cursos de línguas à procura de oportunidades de trabalho no estrangeiro. Muitas vezes fazem-no por razões clínicas e técnicas, mas sem esquecer o que é oferecido, por exemplo, em alguns países da Europa central: “É um mundo completamente diferente, tanto em termos salariais, como também em termos de respeito pela vida familiar e pelo reconhecimento social que os médicos veterinários têm”.

É preciso ter espírito de iniciativa
Todos os problemas da vida prática do médico veterinário que foram elencados pelos profissionais na mesa-redonda acabam por passar um pouco ao lado dos estudantes. Patrícia Luís admitiu que “os alunos que sejam um pouco mais participativos e um pouco mais curiosos terão, por investigação própria encontrado esses dados, mas acredito que na academia isto não é falado”. A presidente da FAMV deu até um exemplo prático: “Acho que, dentro da própria área da medicina veterinária, existe um pouco o tabu de falar de remuneração”.

“Acho que, dentro da própria área da medicina veterinária, existe um pouco o tabu de falar de remuneração”
Patrícia Luís, presidente da FAMV

Daí que a dirigente estudantil tenha defendido a iniciativa individual dos estudantes de procurarem contactar com os profissionais no terreno, “procurarem saber mais sobre esta área”, fazerem estágios extracurriculares de modo a colmatarem o desconhecimento sobre o mercado de trabalho e alargarem horizontes sobre as possíveis saídas profissionais.

Neste âmbito, Bruno Rolo também incentivou a proatividade dos mais jovens: “As oportunidades vão-se abrir de acordo com a formação que temos e da audácia de ir à procura das oportunidades. Há oportunidades cá em Portugal, não estão é todas centralizadas no Marquês de Pombal”.

E o leque de oportunidades também poderá ser alargado pelo trabalho que está a ser realizado pelas estruturas associativas. Xavier Canavilhas lembrou o trabalho que está a ser feito para que a profissão de médico veterinário seja contemplada na Lei de Bases da Saúde enquanto profissional de saúde e não apenas de saúde animal.

Além disso, acrescentou, os jovens profissionais de saúde estão a envidar esforços “no sentido de instituir unidades municipais de saúde integrada, em que o médico veterinário municipal e o delegado de saúde possam estabelecer esta unidade, partilhar informação entre eles e coordenar o trabalho” e desta forma a medicina veterinária passe a contribuir de forma efetiva para os planos de saúde municipais.

“Vocês são o futuro da profissão”
O momento do debate foi aproveitado para os dirigentes presentes para fazer um apelo aos estudantes da assistência para se juntarem aos movimentos associativos. Xavier Canavilhas lembrou o trabalho realizado pelas associações de estudantes das várias faculdades de medicina veterinária, igualmente pela FAMV que integra estruturas mais globais como o Fórum Nacional de Estudantes de Saúde ou a Plataforma de Jovens Profissionais de Saúde pois “todas estas iniciativas permitem trabalhar em conjunto, aprender, conhecer as diferenças entre nós, mas também a fazer compromissos e são estas capacidades que podem, efetivamente, fazer uma mudança congruente e a longo prazo neste cenário que temos vivido nas questões do mercado de trabalho”.
Patrícia Luís fez o mesmo apelo e lembrou o trabalho que a FAMV tem feito em conjunto com o SNMV e com a APJMV em debates e webinars para esclarecimento dos estudantes sobre questões práticas da vida laboral.
É esse trabalho que é feito ainda no momento da formação que, na opinião de Bruno Rolo, sustentará os profissionais no futuro. “Vocês são o futuro da profissão”, lembrou o dirigente, apontando que quer o sindicato, quer a Ordem dos Médicos Veterinários necessitam que os jovens se interessem pelo associativismo de forma a representarem cada vez melhor a classe.

 

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