Este não um texto sobre conservação. Apenas.
Desde que surgiram as notícias do auspicioso centenário do Sir David Attenborough, que lhe devo esta homenagem. Me devo. Este será um texto um pouco longo, portanto. Passem ao próximo fait diver, se não aguentarem.
A história de David Attenborough é uma excelente metáfora para a ecologia, a conservação das espécies, e, em grande medida, para a própria evolução da nossa sociedade, durante o seu século de vida. Ele foi atirado para a conservação, em substituição de outrem, num programa da BBC, onde relatava aquilo que hoje seria chamado de rapto de animais selvagens. A este propósito, o meu malogrado professor de Zoologia, o Prof. Varela da Silva, teria interjecionado algo como “selvagens são os humanos, os animais são silvestres!” O programa consistia, simplesmente, em seguir uma equipa que capturava animais numa qualquer localização africana, com o intuito de povoar os zoos britânicos. O que se passou posteriormente, para o apresentador e para a conservação, define, de forma eloquente, a evolução recente da nossa sociedade.
Já eu era menino, já Sir David era um lugar-comum nas salas de televisão do mundo. Na minha, eu não deixava ninguém falar. Ficava maravilhado com as espécies, o seu habitat, mas sobretudo pela narração, levando-nos a entender a espécie e, cada vez mais, a influência que os humanos tinham nela. Quase sempre negativa. Quando concorri à faculdade, tinha duas opções que queria inscrever: ser Sir David Attenborough (diga-se, fazer o curso de Biologia e partir de câmara às costas para uma qualquer selva) ou ser médico veterinário. Calhou a medicina veterinária a ganhar, e abandonei o sonho de ser Sir David. Mas não precisava.
Nos anos mais recentes, suponho que, tanto pelas evidências acumuladas do desastre ecológico global eminente, como da perceção da sua própria mortalidade pendente, o discurso de Sir David tem sido muito menos introdutório de espécies e muito mais de advertência. Nesse sentido, num dos vários programas que homenageiam a sua carreira, ele referia, a terminar, uma ave da América do Sul com uma capacidade fantástica de imitar qualquer som. Qualquer. A ironia trágica era que essa mesma ave foi filmada imitando o som das máquinas que estavam, naquele mesmo momento, a destruir o seu habitat…
Introduzo nesta altura o Dr. Rodrigo Serra, médico veterinário, meu contemporâneo da faculdade em Lisboa, com quem joguei muitos matraquilhos. Quem o visse, não lhe atribuía muita preocupação com o futuro. O Rodrigo, devo dizer, é tanto uma inspiração e um orgulho (como amigo tenho direito a orgulhar-me dele) como um motivo de tristeza, por me ter feito entender que eu não tinha precisado de prescindir do meu sonho. Bem, depois do curso terminado, lá acabou ele em projetos internacionais de conservação, a própria imagem de um dos meus futuros imaginados, disparando dardos tranquilizantes e fazendo colheitas de sangue a leões, na própria savana.
Finalmente, surgiu o seu momento de definição. O seu mérito foi reconhecido, e foi nomeado Coordenador do Centro Nacional para a Reprodução do Lince Ibérico. Passados quase 20 anos, o seu sucesso está interligado, de forma irrefutável, ao sucesso da espécie em Portugal e em Espanha. Não o foi sem sacrifícios pessoais, sei-o por conversas com ele, no meio de discussões sobre rock and roll do século XX e a nostalgia dos matraquilhos.
É tempo de introduzir, finalmente, o século XXI, mais especificamente o ano de 2026. No ano 2026, já o professor Carvalho Varela faleceu, o Sir David tem 100 anos de idade. Noutros locais, atira-se a conservação para a fogueira, incapaz de gerar os dólares imediatos necessários para bilionários e para a guerra. Por cá, em equipa que ganha, mexe-se. Subitamente, o projeto e a equipa que constituem o maior sucesso de conservação nacional e um dos maiores a nível mundial, passaram de bestiais a besta. Quem fica em perigo são as bestas felinas silvestres, colocadas nessa situação por decisões puramente políticas bestiais. Num mundo cada vez mais permissivo à desfaçatez, vemos os interesses de animais, pessoas, ecossistemas serem vendidos, em troca de um plano de princípios e eixos que, ou já estavam implementados, ou que era, certamente, possível implementar integrando a equipa atual. Más-línguas apontar-me-ão o viés da amizade, mas fariam bem em reconhecer as inúmeras vozes, nacionais e internacionais, leigas e especializadas, que me acompanham na análise e na crítica.
Finalmente, é tempo dos faits divers. Mas tenham paciência, é relevante. Numa comunicação recente, a Ordem dos Médicos Veterinários relembra o que se poderia considerar inútil relembrar. Que seres humanos são seres humanos. E animais são animais. Esse email foi levado às televisões, aos influencers e aos programas de comédia. Porque é notícia? Porque já não confiamos no bom senso. Aliás, crie-se o Centro Nacional de Recuperação do Bom Senso, essa espécie à beira da extinção! Mas, por favor, não sob a alçada do ICNF, provavelmente seria de evitar toda e qualquer dependência de políticos.
Os políticos, entenda-se, são uma das subespécies humanas com maior sucesso evolutivo. Não estão em extinção. Darwin explicaria a sua passagem de simbiontes, a comensais e, finalmente, a parasitas. Os parasitados devem continuar a produzir e, idealmente, continuar a subsistir contentados e a manter-se subjugados. E, se acharem esta analogia demasiado política, observem o mundo em que estão inseridos.
Sir David deve sofrer de uma imensa tristeza. Deve ter uma reserva infindável de esperança, por outro lado. Os políticos estão a fazer regredir o pouco que a humanidade recuperou dos estragos por si provocados na Natureza. Os jovens que outrora, como eu, eram facilmente mobilizados para a conservação, são cada vez mais mobilizados para a satisfação pessoal, arrisco-me a dizer, mesmo contra os exemplos opostos que conheço. Ter conhecimento técnico especializado, já não é garantia que vamos ser escolhidos. Vamos aparecer mais facilmente como tema de discussão se nos identificarmos como um lince do que, de facto, por sermos um lince.
Mas nós, a quem ainda importa que os linces e outros animais se mantenham entre nós, gostaríamos de confortar o Sir David Attenborough, que ainda cá estamos, que ainda cá está quem seja e esteja dedicado, que os políticos não podem tudo. Que ainda apoiamos os Rodrigos desta vida, na procura de criar o legado mais importante de uma geração, por cumprir desde há algum tempo: deixarmos o planeta melhor que o encontrámos, para os nossos filhos. É o apelo de tantos que na ciência, se deparam com a tendência destrutiva desta sociedade de consumo, onde a riqueza é tanta que nos podemos dar ao luxo de dispensar atenção a quem almeja ser um animal.
Carl Sagan deixou uma foto a demonstrar a nossa pequenez no universo. Attenborough mostrou até o mais pequeno dos animais pode fazer a diferença. O Rodrigo só quer garantir que o seu próprio legado perdura. Em prol dos linces ibéricos, dos ecossistemas ibéricos, das comunidades, do planeta. E dos seus filhos. E talvez, então, o Sir David Attenborough possa cumprir o seu desejo de deixar o mundo mais consciente para a conservação, a todos nós, seus filhos.

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