A identificação de ectoparasitas continua a ser uma componente relevante da prática clínica de pequenos animais, exigindo que os médicos veterinários reconheçam os principais agentes, os seus ciclos de vida e os processos de doença associados.
Num artigo técnico publicado pela Improve International, são destacados alguns dos ectoparasitas mais frequentemente observados em cães e gatos, nomeadamente piolhos e ácaros, bem como critérios práticos para a sua diferenciação em contexto clínico.
Entre os piolhos mais comuns em pequenos animais encontram-se Trichodectes canis e Linognathus setosus, em cães, e Felicola subrostratus, em gatos. O Trichodectes canis é um piolho mastigador, com cabeça larga em forma de T, característica que pode facilitar a sua identificação. A fêmea adulta deposita ovos, conhecidos como lêndeas e o ciclo de vida completo decorre ao longo de cerca de três a cinco semanas.
Os sinais clínicos associados a Trichodectes canis incluem prurido intenso, coçar e morder a pele. Em infestações visíveis, os piolhos podem ser observados em movimento no pelo, bem como as lêndeas fixadas aos pelos. Este piolho pode ainda atuar como hospedeiro intermediário da ténia Dipylidium caninum, o que pode representar risco acrescido em cães idosos, debilitados ou cães mais jovens.
O Linognathus setosus é um piolho sugador, caracterizado por uma cabeça mais pequena. O seu ciclo inclui ovos fixados aos pelos, eclosão ao fim de duas semanas e três fases de ninfa até à fase adulta. Os sinais clínicos incluem prurido, descamação da pele, crostas cutâneas, alopecia e presença de lêndeas presas aos fios de pelo, frequentemente confundidas com caspa. Por se tratar de um piolho sugador, uma infestação em animais jovens ou debilitados pode causar anemia.
Nos gatos, Felicola subrostratus é um piolho mastigador. Os ovos eclodem ao fim de duas semanas, seguindo-se duas fases de ninfa, antes da evolução para adulto juvenil e, posteriormente, adulto maduro. O ciclo completo demora cerca de 30 dias. Os animais afetados podem apresentar prurido variável, alopecia progressiva, descamação da pele, emaranhamento da pelagem e pápulas eritematosas.
Além dos piolhos, são também referidos vários ácaros frequentemente encontrados na prática clínica de pequenos animais, incluindo Sarcoptes scabiei, Demodex spp., Neotrombicula autumnalis, Cheyletiella e Otodectes cynotis.
O Sarcoptes scabiei apresenta um ciclo de vida com quatro fases: ovo, larva, ninfa e adulto. O sinal clínico mais comum é prurido intenso, frequentemente nos cotovelos, jarretes, orelhas, axilas, peito e barriga, podendo progredir para outras zonas do corpo. Podem ainda ocorrer infeções secundárias, aumento dos gânglios linfáticos, perda de pelo e descamação da pele. O Sarcoptes scabiei é altamente contagioso entre animais e seres humanos.
Os ácaros Demodex spp. desenvolvem-se ao longo de cerca de três a quatro semanas. Clinicamente, surgem áreas de pele sem pelo, geralmente pequenas numa fase inicial, sobretudo em torno dos olhos, da face e dos pés. A pele não tende a causar prurido, exceto quando surge um problema secundário. Estes ácaros não sobrevivem fora do hospedeiro e tornam-se problemáticos em situações de sistema imunitário enfraquecido, quadro conhecido como demodicose.
A Neotrombicula autumnalis tem um ciclo completo de 50 a 70 dias. Os principais sinais clínicos incluem lamber, mastigar ou coçar repetidamente as zonas afetadas, sobretudo patas e orelhas. Estes ácaros são frequentemente encontrados entre os dedos ou na bolsa de Henry da orelha, sendo mais observados no final do verão.
A Cheyletiella é associada à chamada “caspa ambulante”, devido à presença de pele escamosa e à deslocação visível dos ácaros com fragmentos de pele. O ciclo completo demora cerca de três semanas e ocorre no hospedeiro, embora o adulto possa sobreviver no ambiente até 10 dias. Os sinais clínicos incluem coçar, pele avermelhada, inchaços e crostas.
Já Otodectes cynotis tem um ciclo de vida de três semanas. A infeção está associada a agitação, produção excessiva de cera, mau odor e dor auricular.
Segundo a Improve International, a identificação correta destes ectoparasitas é relevante para a prática clínica, uma vez que diferentes espécies apresentam ciclos de vida, sinais clínicos e riscos distintos, com implicações na avaliação dos animais e na abordagem médico-veterinária.

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