Alinhada com as comemorações do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores – uma iniciativa da FAO – a edição deste ano das Jornadas Internacionais do Hospital Veterinário Muralha de Évora apresenta uma novidade: a entrega do Prémio Nacional da Pastorícia 2026. E ainda que o foco formativo do evento recaia essencialmente sobre os produtores pecuários, os médicos veterinários encontrarão motivos de sobra para participarem. É o caso do debate sobre transferência de embriões, tema que o presidente do comité organizador das jornadas, Nuno Prates, destaca como atual, inovador e “imperdível”.
Esta 17.ª edição das Jornadas Internacionais do Hospital Veterinário Muralha de Évora celebra o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Porque considera relevante alinhar o congresso com esta iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)?
Na produção animal em extensivo, as pastagens e os pastores são fatores fundamentais para o êxito das nossas explorações. A alimentação animal é a base para tudo! Sem uma alimentação adequada e sem animais em boa condição corporal tudo o resto não funciona. Não há profilaxia, reprodução, produção de leite, imunidade que funcionem. As forragens e, neste caso, as pastagens são a base alimentar dos ruminantes e neste tipo de produção são essenciais. Os pastores/vaqueiros são também fundamentais neste sistema de produção. Sem eles, sem o seu conhecimento, sem a sua resiliência no exercício de, mais que uma profissão, uma forma de vida, não seria possível levar a bom porto este sistema produtivo.
Pensamos, pois, que faz todo o sentido associarmo-nos a esta iniciativa do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, sendo ela reconhecida por uma organização de nível mundial como é a ONU.
Que mensagem principal pretende que os médicos veterinários levem desta edição?
Estas jornadas mantêm o seu foco na formação de produtores pecuários, mais do que de médicos veterinários, bem como de outros técnicos que trabalham nesta área. No entanto, ao longo dos anos e devido a grande adesão não só de produtores, como também de médicos veterinários, foram abertas salas com conferências mais técnicas e com temas mais específicos, com o intuito de podermos contribuir também para a formação deste público.
Neste ano temos uma sala de conferências exclusivamente dedicada à transferência de embriões em bovinos e gostaríamos de despertar a curiosidade e o interesse em todos os que assistam a este tema, que consideramos de grande importância para aumentar a rentabilidade das explorações num futuro, que se quer próximo, e que nalguns países é já uma realidade com grande volume de utilização, sendo em Portugal ainda um nicho de mercado muito pequeno.
O congresso tem vindo a crescer em dimensão e notoriedade. O que diferencia esta edição das anteriores em termos científicos e estratégicos?
Sendo o foco principal facilitar o contacto entre produtores pecuários e os técnicos que trabalham nesta área, nesta edição ressaltamos a transferência de embriões como tema científico mais relevante. A estratégia passa por tornar estas jornadas cada vez mais internacionais apostando no aumento de participantes de Espanha que tem várias regiões com sistemas de produção muito parecidos ao nosso e com condições muito semelhantes. De igual modo, também tentamos trazer cada vez mais palestrantes internacionais com vista à partilha de inovação e de conhecimento técnico entre profissionais de diferentes contextos.
  “Sendo o foco principal facilitar o contacto entre produtores pecuários e os técnicos que trabalham nesta área, nesta edição ressaltamos a transferência de embriões como tema científico mais relevante.”
Qual é hoje o papel das Jornadas Internacionais do Hospital Veterinário Muralha de Évora no panorama da formação contínua veterinária em Portugal?
Temos tentado ao longo dos anos ter um papel ativo nessa formação, que no nosso caso tem sido mais específica para a produção animal em regime extensivo/semiextensivo, bem como para equinos. Procuramos desenvolver e trazer a discussão temas atuais e de aplicação pratica no dia a dia dos sistemas de produção em causa. Temos também uma sala de comunicações livres com o intuito de trazer a ciência e as universidades a participar nessa formação.
Não me cabe a mim afirmar, mas pela adesão de congressistas que verificámos durante as 16 edições destas jornadas – sendo neste momento o maior congresso deste tipo em Portugal – atrevo-me a dizer que o nosso papel na formação é de extrema importância pois tem uma dupla função: por um lado, em termos formativos as Jornadas são um espaço de atualização profissional e partilha de conhecimentos científicos; por outro lado, são uma oportunidade de networking entre colegas e de aproximação às mais recentes inovações tecnológicas no setor.
O painel sobre doenças emergentes surge num contexto europeu particularmente exigente. Que riscos sanitários considera prioritários atualmente para os ruminantes em Portugal?
Para os ruminantes nestes últimos tempos surgiram várias doenças importantes e novas, nomeadamente a febre catarral ovina (língua azul) – com vários serotipos já no nosso país –, bem como a DHE (doença hemorrágica contagiosa). Para algumas delas, devido à nossa pouca experiência, ainda não sabemos todas as consequências que nos podem trazer, daí a importância de falar sobre as mesmas e trocar conhecimento e experiências entre todos os intervenientes na fileira.
Também devemos ter em consideração outras doenças, que embora ainda não tenham entrado no nosso país, estão muito perto, com o risco iminente que comportam. Falo da DNC (doença nodular contagiosa) e de outras, que embora não sejam de ruminantes, afetam a todos, como é o caso da PPA (peste porcina africana), sem nunca esquecer a febre aftosa.
Com o grande trânsito animal que existe no mundo neste momento, é de extrema importância a biossegurança e as medidas preventivas a aplicar nas explorações para evitar a entrada destas doenças. É fundamental a resposta rápida às doenças emergentes, no entanto, a articulação entre os serviços oficiais e as OPP (organizações de produtores pecuários) não tem dado resposta em tempo útil.
Estamos preparados para novos planos de erradicação sanitária? O que precisa de mudar ao nível da articulação entre campo, laboratório e política agrícola?
Na minha opinião, os produtores não só estão preparados, como desejam que existam novos planos de erradicação a um nível nacional, como é o caso do BVD (diarreia viral bovina) e do IBR (rinotraqueite infecciosa bovina). À semelhança do que está a ser feito em diversos países europeus, se num futuro próximo não implementarmos estes planos de erradicação sanitária, corremos o risco de não podermos exportar os nossos animais e de sermos menos produtivos devido às consequências que provocam essas doenças. Continuamos com os planos de erradicação de brucelose e tuberculose a funcionar, mas não nos podemos esquecer das outras doenças que merecem a nossa atenção.
Estas decisões são maioritariamente de carácter político, daí a importância de os nossos decisores estarem perto da produção e de conhecerem as suas “dores”.
Que impacto poderá ter o Acordo Mercosul-UE na sustentabilidade da produção pecuária nacional?
A assinatura deste acordo acarreta no mínimo muitas dúvidas a toda a fileira da carne. Entramos em concorrência com alguns países que são atualmente dos maiores produtores/exportadores de carne do mundo. Como se isso não fosse suficiente, concorremos com armas diferentes, senão vejamos:
- Esses países podem utilizar promotores de crescimento nos seus animais, nós não;
- A utilização de medicamentos, nomeadamente antibióticos, nesses países é ampla e a nossa muito restringida, com as potenciais consequências que isso pode acarretar para a saúde pública;
- A mão-de-obra é muito mais barata nesses países do que na Europa;
- As obrigações sanitárias e de produção que são exigidas aos produtores europeus neste momento são infinitamente maiores que nesses países, com o consequente aumento dos preços dos fatores de produção.
Ao ser um tema da ordem do dia, que desperta tantas dúvidas e incertezas, temos no primeiro dias das Jornadas uma palestra para aprofundar o tema e esclarecer dúvidas.
Como pode a gestão de pastagens ser integrada numa estratégia real de mitigação das alterações climáticas?
Conforme já mencionado, as pastagens são fundamentais para a produção extensiva. O seu melhoramento e conservação estão na ordem do dia para todos. Ajudam a manter e conservar um ecossistema como é o montado, bem como na fixação de carbono nas nossas terras. Ajuda, pois, na conservação do território e da biodiversidade.
Existem na atualidade formas de gestão adaptativa do pastoreio que podem resultar em créditos por fixação de carbono os quais podem vir a ser compensados monetariamente.
A pastorícia está em declínio em muitas regiões. O veterinário pode (e deve) assumir um papel mais ativo na valorização desta atividade?
Esse é um tema muito importante, como já foi referido. Estou convicto de que a maioria dos colegas que exercem a sua atividade em animais de produção o reconhecem e valorizam. Todos devemos ter conhecimento das mais-valias desta atividade e contribuir no nosso dia a dia para a valorização da mesma.
A pastorícia ajuda na conservação do território e da biodiversidade, fatores que devemos sempre ter em mente na hora de exercer a nossa profissão.
O Prémio Nacional da Pastorícia 2026 é uma novidade. O que representa esta distinção para o setor?
Um reconhecimento da importância da pastorícia e dos pastores/vaqueiros, que pretende deste modo valorizar o trabalho desenvolvido por estas pessoas ao longo do tempo. Dar ênfase a uma profissão cada vez menos valorizada por alguns e de extrema importância na produção animal. Chamar a atenção para as escolas de pastores que existem e para o seu papel na formação desta profissão.
Concorreram a este prémio muitos pastores/vaqueiros que se inscreveram de norte a sul do país, onde exercem a profissão nos mais diversos ambientes e condições. São avaliados por um júri independente e o vencedor vai ser anunciado durante as Jornadas com uma reportagem em vídeo do seu dia a dia e, desta forma, ser homenageado.
O prémio de Melhor Jovem Investigador é também uma homenagem à Ordem dos Médicos Veterinários. Como podemos incentivar mais jovens a seguir a via científica?
Na minha opinião, aproximando mais a investigação científica das necessidades reais das empresas do setor.
Que se promovam investigações que possam traduzir-se em resultados concretos, com impacto real na melhoria do bem-estar animal, na qualidade de vida das pessoas que trabalham com eles e no desenvolvimento sustentável das empresas. Desta forma, será mais gratificante para quem trabalha numa área científica que é muito importante para o desenvolvimento tecnológico e para a inovação desta atividade.
Desta forma, seria possível valorizar mais as carreiras científicas, possivelmente incentivando mais jovens a seguir estas vias.
Quais são atualmente os principais desafios da veterinária de animais de produção a nível nacional?
Recursos humanos, especialização, inovação e resiliência. Em geral, a veterinária de animais de produção tem o seu máximo expoente no interior do país com as dificuldades que isso acarreta a nível de recursos humanos. À semelhança de outras muitas profissões as pessoas preferem ficar pelas cidades maiores, concentradas no litoral e exercer aí. Ser medico veterinário de animais de produção também implica ser resiliente pois por vezes o dia a dia é duro e obriga-nos a sair da nossa zona de conforto.
O desafio passa por haver mais colegas especializados nas diferentes áreas de atuação da medicina veterinária de animais de produção e utilizar todas as inovações ao nosso alcance. Desta forma, valorizamos mais os serviços prestados, aumentando o rigor científico e a nossa realização profissional.
Para tudo isto acontecer, penso que no futuro (já o presente em alguns sítios) será fundamental trabalhar em conjunto com outros colegas. Só desta forma se podem melhorar as condições de trabalho e tornar mais apelativa a medicina veterinária de animais de produção no que a ruminantes diz respeito.
Como inverter essa tendência de escassez de veterinários na área da produção animal?
As nossas universidades em geral dispõem de melhores meios para as práticas de animais de companhia do que de animais de produção. Este fator pode ter alguma importância também na hora de decidir o futuro dos jovens médicos veterinários. Tornar a profissão mais apelativa como mencionado anteriormente.
Que competências serão indispensáveis ao veterinário rural nos próximos 10 anos?
Especialização nas diversas áreas de atuação, recurso a métodos inovadores disponíveis e saber trabalhar em equipa.
Que conferências/temas destaca como imperdíveis nesta edição das Jornadas?
Destacaria o tema de transferência de embriões. Com apresentações do Dr. Daniel Bello e do Dr. Giovanni Gnemmi, duas grandes referências internacionais em tecnologias reprodutivas bovinas.
Temos o dever, como técnicos conselheiros das explorações, tornar a produção de embriões, sobretudo in vitro, em bovinos de carne mais “democrática” (mais barata e acessível para todos, como já acontece noutros países), ensinando que a técnica – apesar de complexa – deve ser usada de forma mais rotineira, com todas as vantagens que pode oferecer.
Destaco ainda o Ano internacional dos pastores e da pastorícia, a discussão do futuro da profissão e a sala dedicada a pequenos ruminantes com vários temas muito interessantes.

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