Entrevista

2020 é o horizonte para produzir insetos em larga escala

2020 é o horizonte para produzir insetos em larga escala

O foco é produzir insetos – Mosca Soldado Negro – para a produção de proteína e óleo de inseto, bem como fertilizante orgânico. Até agora está tudo em fase de testes, para que possa ser instalada uma unidade de produção em larga escala. Estivemos à conversa com Daniel Murta, da EntoGreen, que explicou como os derivados proteicos de inseto já podem ser incorporados nas rações para animais aquáticos.

Como surgiu a ideia de criar a EntoGreen?

A ideia da EntoGreen começou quando ainda estava a fazer o doutoramento, depois da licenciatura em Medicina Veterinária, numa área que nada tem a ver com insetos – reprodução de mamíferos, nomeadamente ratinhos transgénicos – mas uma coisa que o doutoramento faz é dar-nos uma melhor visão sobre os desafios. Em 2011 encontrei uma TED Talk que questionava: “Why not eat insects?” E comecei a questionar-me porque não usar insetos como uma fonte nutricional para humanos e animais?

Inicialmente decidi focar-me nos humanos, comecei a trabalhar com o meu irmão, com Tenebrio molitor, uma espécie de inseto, com o objetivo de produzir uma fonte nutricional alternativa, ainda de forma limitada porque estava a terminar o doutoramento. Quando terminei, em 2014, avancei com a criação da EntoGreen com o objetivo da alimentação humana, mas já com a ideia de passar também para a alimentação animal. Em meados de 2015 conheci o Rui Nunes [cofundador], através do INIAV [Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária], porque já vinha a trabalhar com eles há algum tempo, e a partir desses contactos surgiram novas ideias, nomeadamente a utilização da Mosca Soldado Negro (Black Soldier Fly) e dedicarmo-nos exclusivamente à alimentação animal, valorizando subprodutos vegetais e reintroduzindo-os na cadeia de valor, como fonte proteica para animais.

 Mas já estão a produzir?

Ainda não. Nos últimos anos, o nosso objetivo foi criar bases sólidas para a produção intensiva de insetos em larga escala, sendo a Investigação & Desenvolvimento a base da génese da nossa empresa. Sedimentámos muito o nosso desenvolvimento em parcerias estratégicas com centros de investigação, sendo a principal parceria com o INIAV, mas também com o IPIMAR [Instituto de Investigação das Pescas e do Mar] e o CIIMAR [Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental], entre outros, com duas premissas principais: economia circular no centro da ação e a realização de testes de qualidade e segurança em todos os produtos que fomos gerando.

Também têm parcerias com outros agentes do setor, não é?

Sim, temos parcerias não só com a área médico-veterinária – porque também faço parte da direção da Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias e isso abriu-nos muitas portas – mas também estabelecemos parcerias com outras associações setoriais como a IACA [Associação Portuguesa das Indústrias de Alimentos Compostos para Animais] e a FPAS [Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores] que nos permitiram ter acesso aos principais stakeholders do setor e fazer testes.

Estão já a fazer testes com suínos?

Com suínos ainda não, embora haja disponibilidade para isso, mas estamos a fazer com aves e com peixes. Também por uma questão legal porque já é permitido para peixes [incluir fontes nutricionais originárias de insetos] mas há uma perspetiva muito grande de que a partir do próximo ano seja também permitido para aves. Portanto a nossa aposta passou pelos peixes e pelas aves, mas nesta altura não temos ainda capacidade de produzir nada. Temos uma unidade-piloto na Estação Zootécnica, em Santarém, de escala semi-industrial e que não tem capacidade de produção de mercado. Temos uma escala de produção para testes e estamos a fazer os ensaios técnicos – prova de conceito – que nos permitem validar os nossos conhecimentos e passar para a fase seguinte, que é a industrialização do processo, com automação… ou seja, criar uma fábrica de escala completa.

Portanto serão vocês também a fazer essa produção em larga escala?

Sim, estamos à procura de investimento e estamos já a trabalhar com fundos de investimento, mas principalmente empresas…

Capital de risco?

Não, empresas que já têm os seus canais montados, ou seja, que têm não só dinheiro, mas também conhecimento nas áreas-chave onde queremos entrar, quer a montante, como a jusante do processo. A montante refiro-me ao fornecimento de subprodutos e a jusante ao fornecimento de matérias-primas para a elaboração de rações para animais. É o que se chama na gíria das startups o smart money: não vem só dinheiro, mas conhecimento e canais.

Qual é o vosso horizonte para começar a comercializar produto?

Em 2020, em larga escala, porque dependemos da construção de uma fábrica que tem capacidade de converter 3.000 toneladas de subprodutos vegetais por mês e será capaz de produzir cerca de 220 toneladas de proteína de inseto por mês, em torno de 50 toneladas de óleo de inseto e 750 toneladas de fertilizante orgânico. Isto são os volumes que consideramos mínimos para sermos capazes de entrar no mercado de forma competitiva, criar ‘tração’ e de manter os clientes a receberem produto de forma continuada. Porque uma fábrica não pode alterar a sua fórmula de ração sempre que tem ou não tem insetos, tem de haver uma garantia de fornecimento.

Há interesse do lado dos produtores de ração?

Sim porque o que está na base desta procura de fontes alternativas deriva do facto de não existirem fontes nutricionais em quantidade disponíveis na Europa. Somos deficitários em fontes proteicas: importamos mais de 90% de toda a soja e também não conseguimos produzir, de longe, a farinha de peixe de que necessitamos, dependendo assim do sudoeste asiático e do continente americano. Por isso, a ideia é arranjar fontes alternativas nutricionais alternativas, principalmente de proteína, que sejam produzidas de uma forma circular, ou seja, respeitando os recursos ambientais que estão a ser utilizados e dando uma ‘nova vida’ aos subprodutos, que de outra forma se perderiam.

Além disso estamos a criar fontes nutricionais locais, evitando a importação e as emissões de CO2 decorrentes do transporte a ela associado. E está a ser visto com muito interesse porque é uma proteína de elevada qualidade, altamente digerível e também com um conjunto de aminoácidos muito importante, mas tem sempre de ser comparada com fontes nutricionais existentes, como o bagaço de soja e a farinha de peixe…

Está a falar em termos de qualidade, mas também de preço…

Exato, atualmente o preço do concentrado proteico de inseto ainda é muito elevado e não é competitivo com as outras fontes proteicas. No entanto, a perspetiva de futuro é que este preço desça e se torne competitivo com a farinha de peixe, que é o seu principal competidor, a nível de qualidade e de equilíbrio nutricional. O que tem balizado a nossa perspetiva de preço no futuro é o preço da farinha de peixe de elevada qualidade.

Com a produção em larga escala o preço irá descer. É isso?

O preço desce se a tecnologia acompanhar esse desenvolvimento. O desafio é que não existe outra fábrica desta escala em Portugal, haverá uma na África do Sul e há planos para a construção de mais algumas, mas ainda não passam disso. Todas as outras que existem são de produção em pequena escala. Por isso, não há planos, nem equipamentos específicos para este fim, não os podemos ‘copiar’, pelo que temos de adaptar tecnologias de outros setores e aprender as lições de décadas de investigação noutras áreas e tentar aplicá-las a esta área emergente.

Mas na Ásia, por exemplo, produz-se para alimentação humana. Não é?

Claro, mas estamos a falar de produções pequenas. Para alimentação humana produzir uma a duas toneladas por mês é fantástico, porque estamos a falar de produtos que são consumidos em pequena escala, porque são considerados iguarias e não são produzidos à escala de um frango. Nós já temos capacidade de produzir cerca de uma tonelada por mês, mas para alimentação animal não conseguiremos vender nada a ninguém se não conseguirmos no mínimo produzir 22 a 30 toneladas de insetos processados por mês, o que implica 500 toneladas de insetos vivos cada mês, para podermos processar e obtermos os resultados de que falámos há pouco. Estamos a falar em grande escala e na criação de cerca de 60 postos de trabalho.

A EntoGreen começou com a ideia e produzir insetos para alimentação humana, que podiam produzir em pequena escala. Porque desistiram?

Por dois motivos: primeiro a aceitabilidade – não é facilmente aceite na cultura ocidental e o segundo é a escala e o mercado. Será sempre um mercado de nicho, por muito sucesso que tenha. Por exemplo, há 30 anos ninguém pensaria comer peixe cru e hoje grande parte da população gosta, de vez em quando, de comer sushi. Mas qual é de facto a expressão do sushi na alimentação? Mas, se calhar, comer frango assado continua a ser mainstream.

Não acredito, por muito papel que os insetos venham a ter, que no curto ou médio prazo tenham um revelo significativo que atraia o volume de negócios que nós procuramos. Na alimentação humana os insetos serão mais uma fonte, enquanto na alimentação animal podemos contribuir para uma solução efetiva para o défice europeu de fontes proteicas locais.

Mas se os peixes, as aves e os porcos – que também estão neste horizonte – comerem rações com proteína de inseto as pessoas vão acabar por comê-la…

Claro, por isso dizemos que é claramente uma questão cultural, porque muitas vezes os insetos estão associados a pragas e doenças, mas estes insetos que são autorizados pela Comissão Europeia para serem produzidos não são pragas, nem doenças, nem vetores de doenças. Estamos a produzir insetos que cumprem regras de higiene e segurança alimentar para que possam ser introduzidos em rações para animais. Além disso respeitam princípios de economia circular e de sustentabilidade ambiental e são produzidos localmente. Por isso têm vantagens ambientais e de sustentabilidade e a forma de comunicação em vez de ‘estas galinhas comeram insetos’ terá de passar por algo como ‘estas galinhas foram produzidas de forma mais sustentável’.

2020 é o horizonte para produzir insetos em larga escala

E em petfood, onde nunca foi proibido usar fontes proteicas derivadas de insetos, existem marcas a introduzir essas proteínas? Porque é que a EntoGreen não apostou nessa área?

Existem várias marcas a introduzir proteínas derivadas de insetos em petfood, nomeadamente na Holanda e na Suíça, principalmente para animais que precisem de fontes proteicas hipoalergénicas e estão a ter boa aceitação por pessoas que tenham princípios de consciência ambiental. Não apostámos nesta área por uma questão de mercado. Apostámos no mercado das rações de pecuária e nas de aves, que são as que temos em vista, mas as rações para pet estão perfeitamente dentro do âmbito da nossa empresa. Esta área sempre teve outras fontes proteicas disponíveis e a preços muito acessíveis.

Do ponto de vista veterinário quais são os principais problemas e desafios, por um lado, na produção dos insetos e, por outro, depois na produção dos produtos finais?

A produção de insetos em larga escala tem de ser entendida como uma atividade pecuária como outra qualquer e há muitos pontos de contacto com outras intensivas, como a produção avícola ou de suínos: regras de biossegurança, de produção eficiente e de controlo de pragas são centrais.

Que tipo de pragas? Outros insetos?

Outros insetos, ratos e outros porque numa fábrica de insetos temos muitas larvas que os ratinhos e pássaros e outros animais gostam de comer, por isso temos de os controlar. Além de que temos igualmente de controlar quem entra para não transmitir doenças. Por outro lado, do ponto de vista da higiene e segurança alimentar, temos de cumprir as regras que são aplicadas a qualquer ingrediente de ração para animais, mas também temos de ter em atenção todo o processo de rastreabilidade, pelo que temos de saber de onde vêm os nossos subprodutos e que tipo de insetos eles vão gerar. Estamos a falar de subprodutos principalmente hortícolas e frutícolas, mas também outros como dresh [subproduto da cerveja] e farelos, entre outros.

Vão ter em consideração o tipo de fitofármacos que são utilizados nesses produtos?

Vamos ter consideração quem são os produtores e o lote de produção a que está associado cada lote de subproduto. O que vamos fazer, respeitando as regras e as certificações que existem para o efeito, são amostras bromatológicas para identificação de metais pesados e outros agentes que possam estar presentes. E isto é muito importante porque os metais pesados podem ser bioacumulados e, por outro lado, preocupamo-nos com os inseticidas utilizados.

Voltando à vossa produção, o processo de bio-conversão que a EntoGreen utiliza dá origem a vários produtos…

Sim, haverá três produtos: derivados de inseto – concentrado proteico e óleo, para incorporar em rações para animais e fertilizante orgânico para a agricultura.

 Porque é que o óleo é separado se também é para nutrição animal?

Do ponto de vista da produção de peixe [aquacultura] é relativamente simples: porque a produção de ração para peixes precisa de um processo de extrusão e a presença de níveis elevados de óleo impede essa extrusão e depois é que se faz uma capa com o óleo para dar mais palatibilidade, como acontece também nas rações para animais de companhia, mas aqui tem a ver também com a flutuabilidade.

No caso das outras rações, do ponto de vista da formulação, para haver equilíbrios entre energia e ácidos gordos adequados, em relação também com os aminoácidos: é mais fácil ter as duas componentes separadas, para formular. De momento também há no mercado farinha de peixe e óleo de peixe, por isso seguimos o que já existe.

Já fizeram testes mesmo de introdução dos vossos produtos nas rações para animais?

Sim, e provámos que é possível substituir totalmente a soja, quer na produção de ovos, quer na de frangos. Ou seja, se o preço não for considerado, a produção de aves não está refém das fontes de soja internacionais. Embora este não seja o objetivo, porque não é com a soja que nos comparamos, nem em preço, nem em qualidade. Nem conseguiríamos nunca produzir insetos em quantidade para substitui a quota de importação da soja. Vamos sim contribuir para encontrar alternativas e reduzir essa importação.

O projeto EntoValor

O ‘EntoValor – Insetos como uma oportunidade na valorização de resíduos’ é um projeto em coprodução, “liderado pela EntoGreen, mas que envolve o INIAV, a Agromais, a Consulai e as Rações Zêzere, e no âmbito do qual fizemos ensaios com galinhas poedeiras e com frangos, mas também ensaios agrícolas, no solo”, explica Daniel Murta. No INIAV, polo da Quinta da Fonte Boa em Santarém, a EntoGreen realizou ensaios in vitro para ver a estabilidade das larvas e o seu equilíbrio nutricional e também como esse equilíbrio variava consoante os subprodutos utilizados, fornecidos pela Agromais.

Em relação ao fertilizante orgânico produzido pelos insetos, por bio-conversão, “fizemos ensaios em campos de milho e batata e estamos a testar em alface e tomate em estufa e vasos, neste caso no INIAV de Oeiras e vamos agora começar com gramíneas de corte”, conta o responsável, adiantando que “o EntoValor foi a base da investigação da nossa empresa. Nos últimos dois anos foi este projeto que nos ajudou a chegar onde estamos”. O projeto está agora na fase final de divulgação de resultados e da prova de conceito. “Consideramos que o projeto se diferencia de outros que há sobre insetos porque não nos limitámos a testar a utilização dos insetos, fizemos uma prova de conceito sobre como é produzir insetos, que tipo de técnicas é que precisamos para o fazer e testámos várias técnicas, mas também testámos, de uma forma conceptual, como é que seria possível criar uma empresa deste género em Portugal”. Daniel Murta refere ainda que “no âmbito deste projeto é que surgir o contacto com a DGAV [direção-Geral de Alimentação e Veterinária] e o convite para fazer o Manual”.

 

Manual de Boas Práticas – Produção, Processamento e Utilização de Insetos em Alimentação Animal

“Este manual foi um desafio lançado pelo Dr. José Manuel Costa, da DGAV, para tentarmos explicar o enquadramento legal da produção de insetos”, conta Daniel Murta. Mas o manual acabou por ir mais além porque não só explica todas as leias aplicadas à produção de qualquer exploração pecuária, “mas sobre o processamento, ou seja, que cuidados tem de haver e que métodos têm de ser respeitados e por fim a sua utilização: para que fim podemos usar os insetos e como podem ser utilizados, nomeadamente em petfood e animais aquáticos”, que é o que já é permitido.