Animais de companhia

Luto na medicina veterinária: aprender a não fazer mal

Ainda que com boas intenções, é frequente cairmos em “microagressões” quando alguém perde um animal de companhia. Comentários como “arranjas outro” ou “era só um cão” não validam uma perda que é muitas vezes sentida de forma severa. A questão do luto é especialmente crucial na medicina veterinária e é por isso que o biólogo Ricardo Reis dos Santos e o psicólogo Miguel Barbosa a investigam no NAEIL – Núcleo Académico de Estudos e Intervenção sobre o Luto.

“A palavra ‘luto’ é complicada em português”, afirma Ricardo Reis dos Santos, biólogo que se habituou a destrinçar este conceito em três palavras distintas quando o aborda em inglês – grief, bereavement e mourning -, mas em apenas uma (o tão temido e abrangente ‘luto’) quando estuda o tema em português. O investigador do Instituto de Saúde Ambiental e do Centro de Bioética é consultor do Núcleo Académico de Estudos e Intervenção sobre o Luto (NAEIL), todas elas entidades debaixo da alçada da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), desde 2016.
O seu contributo acabou por introduzir o luto animal (e por um animal) na agenda do NAEIL, que já criava ações formativas e investigava o luto no âmbito da medicina humana sob coordenação do médico António Barbosa, pioneiro português em estudos do luto e responsável pela constituição formal do Núcleo em 2012.
No NAEIL, Santos colabora frequentemente com Miguel Barbosa, psicólogo clínico e psicoterapeuta, professor da FMUL e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. O trabalho da equipa do Núcleo, composta maioritariamente por clínicos-investigadores, foi aplicado em algumas disciplinas de cursos da FMUL, no mestrado de Cuidados Paliativos, em cursos pós-graduados e de sensibilização, mas também em vários encontros científicos sobre o luto.
Na vertente animal, organizaram o ciclo de seminários “O Luto em Perspetiva”, muito focado no luto pelos animais de companhia, e até um curso para a APMVEAC (Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia), que já teve duas edições e que se concentra em estratégias de comunicação na clínica. “É um núcleo muito dinâmico”, sublinha Miguel Barbosa, que, reservado, não se quis deixar fotografar para esta entrevista. Ninguém melhor do que esta dupla – também ela dinâmica – para nos falar do luto pelos animais de estimação, da pressão que isso provoca nos médicos veterinários e na ligação entre saber lidar com o luto dos clientes e prevenção do burnout.

Quando é que perceberam que o luto era uma questão para os que lidam com a saúde animal?

Miguel Barbosa: Para lhe dizer a verdade, esta questão do luto na perda do animal de companhia foi o Ricardo que trouxe um grande contributo. Penso que nenhum elemento do grupo estava sensibilizado. Mesmo no meu trabalho como psicoterapeuta, as pessoas vão falando e partilhando o sofrimento associado a essas perdas, mas eu não estava tão sensibilizado.

Ricardo Reis dos Santos: Acompanho a medicina veterinária (MV) há muitos anos, sempre tive amigos médicos veterinários e sou casado com uma médica veterinária. Estou sensibilizado para essa área e sempre trabalhei a interação humanos-animais. Aquilo que percebi foi que além do que a bibliografia dizia, sobre ser um luto particular, desautorizado, ou seja, um luto que não é socialmente aceite, a literatura referia exemplos como a perda de um amante…Ajuda-me, Miguel [olhando para o colega]…

MB: São tipicamente situações em que não se reconhecem as relações ou quando a relação não é socialmente aceite. O caso da homossexualidade é por vezes desautorizado porque a importância da relação não é reconhecida, mas há mesmo casos em que relação não é reconhecida, como com um animal. Isso faz com que pessoas não tenham espaços sociais para poder partilhar sua dor e se sintam inibidas nessa mesma expressão.

Ricardo Reis dos Santos

RRS: Exatamente, nos livros clássicos sobre luto desautorizado aparecia como exemplo – pets –, mas não havia muitos estudos sobre isso e os poucos que havia era em revistas de psiquiatria inglesas e entendiam o luto da perda de um animal como algo patológico. Da minha perceção, havia nas pessoas muito sofrimento pela perda do seu animal, mas não podiam expressar esse luto de forma aberta. Era uma perceção minha e percebi que, de facto, tendo em conta a grande distinção que se deu entre animal doméstico e animal familiar – foi quase uma explosão – tal se tornou muito mais evidente. Basta lembrar o post do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho quando o seu cão morreu – a caixa de comentários daquele post estava cheia de “Eu também, eu também”. E depois, por outro lado, tenho esta perspetiva dos veterinários, que sentiam de facto este peso dos seus clientes que perdiam os seus animais e que ficavam em lágrimas e eles não sabiam como reagir.

MB: Mas isto é muito curioso, mesmo nesta questão do luto desautorizado há um estudo do Adams, no ano 2000, em que ele referia que 30% das pessoas que perdiam um animal de companhia viviam luto severo e que os principais fatores de risco para estes 30% era a relação que se tinha com o animal, a eutanásia, a sociedade não reconhecer esse luto e o tipo de apoio que os profissionais da veterinária davam nesse momento, sendo que 50% da amostra referenciou que a sociedade em geral não reconhecia o luto da perda de um animal de companhia. É curioso perceber que a falta de reconhecimento da sociedade e o acompanhamento dos veterinários está pari passu com a eutanásia e a forte relação que se tem com o animal, entre milhares de outros fatores. Quando o Ricardo trouxe isto para o grupo, foi muito desafiante porque abriu aqui toda uma nova linha de investigação com repercussões, penso eu, muito significativas, porque mesmo na formação dos profissionais de veterinária, tanto a área da comunicação como a do luto são pouco abordadas.

RRS: Não há nada. Aqui há a particularidade da MV, que também foi obrigada a dar um salto. Passámos da fase em que o veterinário era um simples polícia sanitário, vigiava a fronteira entre o humano e outros animais, para um médico veterinário que é um clínico, à semelhança de um clínico deste hospital [Santa Maria]. Houve aqui uma construção de um significado na interação das pessoas e os seus animais. Sabemos que as instituições são muito lentas a dar resposta, as reformas curriculares são lentas, mas lá fora, em algumas faculdades do Reino Unido e Estados Unidos, já estão um pouco mais à frente. Aqui não há nada em termos de comunicação ou relação, porque a MV não tem um serviço nacional de saúde como o SNS para humanos. A exigência da parte das pessoas é cada vez maior, a classe veterinária é muito jovem, o que significa que é ainda pouco experiente (não digo isto num sentido negativo), mas fizemos um inquérito aos estudantes de MV, sobretudo de quinto e sexto ano de todas as faculdades de veterinária do País, sobre alguns temas, mas muito sobre a perceção da importância da comunicação, comunicação de erro médico, comunicação clínica, etc. Os próprios estudantes relataram – e são valores significativos – a necessidade de formação para se relacionarem melhor com os clientes, cuidarem melhor dos seus animais e se protegerem de situações que são para eles muito complicadas, como o burnout ou mudança de vida. O que nós fizemos através do estudo foi ver quais eram as perceções deles: se, ao se aproximarem do fim do curso, se sentiam capacitados para lidar com casos complicados. A maioria estava pouco preparada nas cinco dimensões: comunicação de más notícias, comunicação de erro médico, lidar com reações emocionais dos clientes, negociar decisões de eutanásia com os seus clientes, responder às necessidades de um cliente em luto antecipatório ou pela perda de um animal de companhia. A maior parte dos alunos sentiam-se pouco preparados nas cinco dimensões: numa escala de 1 a 4, a média era de 1,66. Ao mesmo tempo, quando questionados sobre o treino de competências no ensino pré-graduado, 47% dos respondentes concordam que o tema deve ser abordado nas unidades curriculares da área clínica, 38,9% concordam que se deve constituir uma unidade curricular autónoma e obrigatória, ou seja, o que é que isto significa? Falta de resposta institucional.

 

Role play de comunicação do luto na APMVEAC

Foi por isso que sentiram a necessidade de organizar seminários sobre o luto?

RRS: Esses seminários foram três seminários dentro do ciclo O Luto em Perspetiva, são mais exploratórios. Mas temos tido uma parceria com a APMVEAC em cursos sobre estratégias de comunicação clínica. Já fizemos duas edições, num formato muito inovador, que é feito com os internos aqui também do hospital – em role play.

Quando é que realizaram essas formações?

MB: Um em 2018 e outro em 2019, tem sido um curso todos os anos. É um curso totalmente prático.

RRS: É o Miguel que é responsável pelo curso, o primeiro teve também a participação do professor António Barbosa.

MB: Tentámos responder a estas necessidades, não sei se podemos chamar, a este novo paradigma dos profissionais de MV, que têm de lidar com tutores de animais de companhia que estão fortemente vinculados aos seus animais. Não nos podemos esquecer de que nos últimos anos os animais têm um outro lugar na vida dos humanos, não só em percentagem – se compararmos 2014 a 2016, 56% dos lares portugueses têm um animal de companhia, há seis milhões de animais de companhia em Portugal. O que interessa são casos em que pessoas estão fortemente vinculadas com o animal. Nos números de 2016, 47% consideram o cão como um membro da família e 49%, o gato. Também há um estudo curioso da Wendy Packman, de 2011. Ela tinha uma lista muito grande de fontes de apoio social para as pessoas – familiares, amigos, médicos, enfermeiros, farmacêuticos – e, nesse estudo, os animais surgem no topo da lista.
Estes cursos são direcionados para as competências de comunicação, não é marketing ou comunicação das clínicas, é interpessoal, sobretudo pessoas que vão receber uma má notícia sobre saúde animal. Como se querem desenvolver competências, todo o curso é simulado, com situações reais que são encenadas e ali reproduzidas em situações de role play que nos ajudam a refletir sobre as necessidades relacionais das pessoas que perderam o seu animal.

Qual é a duração?

MB: Meio dia, é uma coisa muito prática. A vantagem de ser assim compilado é que realmente pode ser aplicado em vários contextos sem roubar muito tempo às pessoas.

Falou de uma vinculação forte ao animal. É possível identificar, por exemplo, fatores de risco?

MB: É muito curioso porque estamos a terminar a revisão sistemática da literatura sobre fatores mediadores do processo de luto. Quando a pessoa perde um animal de companhia e está fortemente vinculada ao animal, tem um conjunto de reações, tipicamente, de perda. O que vai muitas vezes pesar na intensidade ou prolongamento das reações são um conjunto de fatores – temos tentado situá-los. Do que temos verificado dos estudos feitos, é que, de facto, o grau de relação (parece óbvio, mas tem de ser estudado para se chegar à ligação) e o estilo de vinculação são os fatores com mais predomínio. [Em relação] aos outros fatores, como o tipo de animal, os estudos não são conclusivos, em relação ao sexo e idade dos tutores, tipo de perda (há a decisão da eutanásia, que não é permitida com humanos) … Há estudos que reportam que 50% tutores que recorreram à eutanásia sentem culpa. Uma boa recomendação é que haja uma consulta pré-eutanásia para se esclarecerem questões, para que seja uma decisão partilhada e não focada no cliente.

RRS: Como já existe nos EUA.

Ricardo Reis dos Santos (ao fundo) e Miguel Barbosa

MB: Uma das vantagens é fazer um balanço da qualidade de vida do animal numa consulta pré-eutanásia, não de forma paternalista, mas em consenso mútuo, uma avaliação em conjunto, o que ajuda as pessoas em negação. Isto pode ser importante por duas razões: uma, ajudar a pessoa em negação ou com dificuldade de separação que já está a causar dor e sofrimento ao animal, mas também pode ser preventivo para a culpa. Um dos grandes fatores de sobrecarga que vai contribuir para burnout ou fadiga de compaixão, penso eu, é quando há uma grande discrepância entre a opinião do veterinário que vê aquela condição física já muito deteriorada e que teria todas as indicações de eutanásia para proteção do animal e um tutor que tem esse peso na decisão. E vice-versa, quando o tutor se quer desvincular do animal. Este tipo de cursos ajuda-nos a perceber como é que isto pode ser discutido numa situação relacional em benefício de todos. O que pode acontecer muitas vezes é pessoas entrarem em conflito, quererem impor o seu ponto de vista, virem com argumentos de autoridade – “Se continuar assim vou ter de reportar isto a…” – tudo o que não seria desejável tanto para saúde mental dos tutores como dos veterinários.

O que é que os veterinários devem e não devem fazer?

MB: Uma das coisas é reconhecer o quão especial era aquela relação. Acho que as pessoas se esquecem disso. As pessoas dizem “Arranjas outro parecido”. Há boa intenção, mas falham em reconhecer o estatuto especial daquela relação.

RRS: A grande mensagem para os médicos veterinários é, de facto, como diz o professor António Barbosa, aprender a não fazer mal, tal como se faz com os humanos. Há que ter muita atenção ao tipo de interação ou ao significado que aquele animal tem para aquela pessoa, o que é difícil para os médicos veterinários. Para uma determinada pessoa, [o animal] pode ter valor instrumental, para outras afetivo – durante 15 anos aquele foi o cão da avó e ela pediu-lhe que ficasse com ele. Há toda uma variedade de sentidos para aquela ligação que existe entre animal e pessoa. Não fazer mal, no sentido de reconhecer e, sobretudo, ouvir, porque a tendência – é uma perceção minha, mas sobretudo os veterinários com experiência clínica têm opiniões clínicas e acham que o melhor é dizer para arranjar outro cão. Por isso é que a abordagem é não fazer mal.

MB: A nível prático, passa por estes novos lugares que os animais têm em algumas famílias. Passa por reconhecer a ligação particular e o sofrimento das pessoas. De forma geral, penso que as pessoas têm dificuldade em ouvir e fazer comentários empáticos. Implica um tempo, no plano da gestão da clínica, que se calhar não há. Além disto, ajudar as pessoas a elaborarem e a criar outros significados. Penso que seria bom que os profissionais estivessem atentos: um telefone, uma carta de condolências, podia fazer a diferença em alguns casos, para as pessoas sentirem que estão acompanhadas no processo. Para os mais perspicazes, estarem atentos a pequenos sinais que possam sinalizar situações de luto complicado. Não vão substituir os psicólogos, mas até podem sugerir acompanhamento especializado.

RRS:  É importante dizer que estas formações também incluem enfermeiros e auxiliares veterinários.

Mencionaram como o veterinário pode ajudar a preparar o detentor para o luto, mas, como é que o veterinário se pode proteger a si mesmo do burnout provocado por estas situações?

RRS: Há de facto uma necessidade, nos cursos acho isso óbvio, de começarem no ensino pré-graduado a abordarem estes temas. É que um médico veterinário não vai lidar só com animais, vai lidar sobretudo com pessoas. A esse nível não há nenhuma formação e nós fizemos um estudo exaustivo de todos os currículos dos cursos de MV e de Enfermagem Veterinária do País. Não existe nenhuma unidade curricular obrigatória ou opcional. Podem dizer que dentro das clínicas, o professor aborda sempre o tema. Mas é sempre a perspetiva daquele professor.
Isto é uma questão de treino, não é de ter jeito ou não ter jeito, estes profissionais têm de aprender a lidar com as pessoas para se protegerem. Porque o que acontece nestes casos de burnout – não sabemos o que se passa em Portugal porque não há estudos, há uma tese de mestrado da Faculdade de Psicologia, com uma amostra muito pequenina, mas aquilo que aponta é que o maior fator de risco para burnout são questões financeiras, a baixa remuneração.

MB: É um bom indicador, porque há dois aspetos: a instabilidade financeira, que, do meu curto contacto com veterinários, tem sido muito reportada, mas depois também a questão económica na relação com os clientes. É uma questão que surge de forma muito ativa nas formações: faz-se quase um coro geral de que a questão económica – negociar, não ter dinheiro, o pedinchar, ter a expectativa que o veterinário tem de resolver a qualquer custo -põe um peso muito grande naquilo que é a vontade de ajudar,  mas também, como o Ricardo dizia, o avançar da tecnologia tem custos.

RRS: E são todos suportados pelas clínicas. O burnout é um caso muito sério e deveria ser levado muito a sério pela classe, sobretudo pela despersonalização. Porquê? Porque uma coisa é estar cansado, insatisfeito, não ter vontade de trabalhar. Despersonalização é ignorar, é ver o cão a ganir e eu não quero saber – isto é muito grave porque afeta o desempenho. As pessoas chegam a um ponto – não sabemos se é este o caso cá, é preciso estudar! –, mas o que temos verificado num pequeno estudo que fiz é que começa a haver este fenómeno que é o dropout, veterinários que mudam de vida e deixam a MV para estudar Medicina, vão ser médicos. A Ordem dos Médicos não me deu dados, mas gostava de saber para que especialidades vão. Dos poucos casos que conheço, vão para Medicina Geral ou Pediatria. Curiosa, a relação entre veterinária e pediatria. Há até pessoas a exercer as duas profissões, de manhã são médicos, de tarde são médicos veterinários.

A questão do dinheiro de que o Miguel estava a falar é muito importante, mas é uma opinião. A perceção é que a questão económica está sobrevalorizada – como médico e clínico e empresário, o veterinário valoriza mais esta questão, tem esta tendência para valorizar um calote de três mil euros, porque tem salários para pagar. O que é essencial perceber é que naquele estudo que fizemos dos currículos, só os cursos de Enfermagem tinham unidades de comunicação, mas era comunicação de marketing, ensinar os enfermeiros a vender.
Há um estudo muito curioso norte-americano que mostra muito bem que as pessoas que mais reclamam pelos altos valores que têm de pagar pelos cuidados de saúde prestados ao seu animal são exatamente as pessoas que, do ponto vista socioeconómico, estão cá em cima. As pessoas que não tem possibilidades, essas, negoceiam e pedem para pagar em quatro, cinco vezes, e vão lá pagar, porque querem que o seu animal esteja bem tratado. Por outro lado, o que o estudo mostra é que quanto mais clínica for a comunicação do consultório, mais verdadeira, maior será a adesão terapêutica por parte do cliente.

MB: Acho que é muito importante estudarmos isto. Temos um estudo desenhado, só falta pensar na estratégia de divulgação. Este fator económico da instabilidade e também esta questão da gestão de expectativas que as pessoas têm – “Encontrei um animal na rua e agora?”. O próprio veterinário é quase a última linha e não devia ser, e ter de estar nesta negociata constante, nestes calotes, o próprio sistema não dar resposta a algo que não deviam ser eles a fazer, o ter de lidar com estas discrepâncias – é um grande fator de ansiedade. Lidar com clientes cada vez mais exigentes porque têm relações especiais com os seus animais – todos esses fatores contribuem bastante para burnout.
Temos uma formação especificamente desenhada para a questão do burnout nas clínicas, com não só estratégias de autocuidados, mas também para as organizações terem mecanismos de resposta, grupos de trabalho e partilha de experiências de situações complexas do ponto de vista emocional. Acho que seria um excelente contributo. Há várias estratégias, o que é importante é que cada pessoa conheça o seu limite e o que funciona para si. Na nossa formação, mais do que dar conselhos, tentamos que as pessoas descubram as suas próprias ferramentas. É difícil dar receitas.

RRS: Não é preciso reinventar a roda, é importar o que de melhor se faz. Já falámos da definição de luto? Na definição do professor António Barbosa, luto é a resposta característica a uma perda significativa. Na linha de investigação que temos seguido, há uma tentativa de fazer uma história natural do luto, de perceber como é que os próprios animais sentem o luto.

E projetos para o futuro?

MB: Em relação com o Núcleo, estamos interessados em fazer a genealogia do que tem sido a relação com os animais nas sociedades contemporâneas, o que nos leva a compreender melhor o processo de luto por perda de um animal de companhia. Temos em curso algo na área dos lugares do luto – cemitérios –, a ver se acabamos de escrever o artigo na área da comunicação deste estudo de tudo o que foi feito com os currículos e da perceção que estudantes veterinários têm destes temas e pôr em ação algo que temos planeado há muito, um estudo do burnout, acho que é algo prioritário neste momento.

Do estudo do luto ao nascimento da ResPET

Além da investigação, organização de eventos e criação de ações formativas na área do luto (animal e não só), o NAEIL acabou ainda de lançar uma plataforma online de nome ResPET (www.respet.pt). “É uma plataforma que pretendemos usar como divulgação de informação que possa ser útil para a comunidade e para cidadãos, mas também para a comunidade veterinária”, disse Miguel Barbosa, que é ainda vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Comunicação Clínica em Cuidados de Saúde.
O site vai contar com secções específicas para ambos os públicos e com uma oferta formativa de cursos de curta duração nas áreas da comunicação, luto, gestão do conflito e burnout. Segundo o psicólogo, irão disponibilizar serviços de psicoterapia especificamente dirigidos para o luto animal, dinâmicas de grupo e grupos de ajuda mediados por profissionais da área, bem como uma área de eventos. “No fundo, criar eventos que sejam celebrações da vida dos animais e do que eles representaram para aproximar a comunidade e partilhar reflexões.”

* Texto publicado originalmente na edição de fevereiro de 2020 da revista VETERINÁRIA ATUAL.