O reforço da prevenção, da vigilância, dos serviços veterinários e dos sistemas de saúde animal é apontado como uma prioridade no combate à resistência antimicrobiana na pecuária. A análise é feita por Laure Weber-Vintzel, especialista sénior em pecuária do Banco Mundial, no contexto do relatório “Estado da Saúde Animal no Mundo”.
A médica veterinária defende que a redução do uso de antimicrobianos deve passar por uma melhoria estrutural da saúde animal, e não apenas por uma limitação do acesso a estes medicamentos.
“É a saúde precária dos animais que prejudica a produtividade”, afirma. Segundo a especialista, quando os antimicrobianos são utilizados de forma responsável e contribuem para a saúde animal, também apoiam a produtividade. Já o uso irresponsável não contribui para a saúde e acaba por prejudicar a produção.
Laure Weber-Vintzel identifica o acesso a medicamentos veterinários de qualidade, incluindo antimicrobianos, e a serviços veterinários básicos como um dos principais desafios enfrentados por agricultores e médicos veterinários. A falta de acesso adequado pode resultar no uso inadequado de produtos de venda livre, frisa a responsável.
A especialista aponta também o baixo investimento em prevenção como um fator determinante para a ocorrência de surtos de doença e para a consequente dependência de antimicrobianos. A falta de sensibilização, a insegurança alimentar e a pobreza são igualmente referidas como fatores que contribuem para a resistência antimicrobiana.
A responsável defende que investimentos em higiene, biossegurança, vacinação, nutrição e alimentação permitem obter animais mais saudáveis, maior produtividade e menor necessidade de antimicrobianos. Esta abordagem implica uma passagem de respostas reativas para estratégias preventivas.
Entre as principais lacunas nos esforços atuais de combate à resistência antimicrobiana, Laure Weber-Vintzel identifica a gestão responsável da resistência antimicrobiana, o investimento em prevenção, a sensibilização das partes interessadas, a disponibilidade de dados sobre o uso de antimicrobianos, o fortalecimento dos serviços veterinários e o aumento da capacidade de vigilância.
No caso da vigilância, a especialista sublinha a necessidade de capacidade desde o terreno, com redes de apoio para aconselhamento aos agricultores, deteção e resposta precoce, até ao nível laboratorial, para adaptar os tratamentos aos agentes patogénicos.
Segundo Laure Weber-Vintzel, a resistência antimicrobiana continua a ser frequentemente encarada como uma questão médica ou veterinária, quando deve ser entendida como uma ameaça ao desenvolvimento com consequências macroeconómicas.
“Prevenir e reduzir a resistência antimicrobiana protege a saúde, a produtividade e, consequentemente, os meios de subsistência associados à pecuária”, afirma.
A especialista defende que os investimentos devem concentrar-se em medidas que melhorem a saúde animal e reduzam a necessidade de antimicrobianos, incluindo biossegurança, higiene, vacinação e alimentação.
“O que precisamos é de uma mudança de foco, da resolução de problemas para a prevenção: redirecionando dinheiro, energia e recursos para a sua origem”, afirma.
Laure Weber-Vintzel considera ainda que os governos devem adotar uma abordagem holística, que inclua investimento em prevenção, reforço da capacidade laboratorial, acesso a medicamentos de qualidade, supervisão veterinária e cooperação intersetorial. Sem essa abordagem, alerta, os sistemas continuarão a tratar os efeitos em vez de atuar sobre as causas.
Para a especialista, a mensagem central é o investimento na prevenção. “Animais saudáveis, protegidos da exposição a agentes patogénicos, necessitam de menos antimicrobianos, apresentam maior produtividade e geram menores custos com doenças”, afirma.
A responsável acrescenta que ações preventivas, comunicação e capacitação beneficiam agricultores, governos e médicos veterinários, ao mesmo tempo, contribuem para reduzir o uso de antimicrobianos e a resistência.

iStock
