Investigação

Biodiversidade na Europa: estudo analisa alterações nos ecossistemas

Biodiversidade na Europa: estudo analisa alterações nos ecossistemas

Uma equipa internacional de cientistas, na qual estão incluídos os portugueses Miguel Pardal e Filipe Martinho, da Universidade de Coimbra (UC), desenvolveu um estudo para analisar de forma se comportam os diferentes ecossistemas do planeta. A pesquisa concluiu que mudanças locais na diversidade, por vezes, não acompanham as tendências globais.

Os resultados do estudo Meta-analysis of multidecadal biodiversity trends in Europe, publicado na revista Nature Communications, sugerem que as tendências locais de abundância, riqueza específica e diversidade diferem entre biogeorregiões, tipo de ecossistema, grupos taxonómicos, indicando que “mudanças na biodiversidade à escala local são frequentemente fenómenos complexos e que não podem ser facilmente generalizados”, explicam os investigadores portugueses em comunicado. “No entanto, tal como previsto, ocorre um aumento na riqueza específica e abundância com o aumento da temperatura e com a diminuição de impacto humano em cada ecossistema, bem como um padrão espacial claro de mudanças na composição da comunidade (ou seja, rotatividade taxonómica temporal) na maioria das biogeorregiões”, referem Miguel Pardal e Filipe Martinho.

A tendência global no planeta e na Europa aponta para uma diminuição da diversidade de espécies entre quase todos os grupos de animais e plantas a um ritmo preocupante.

“No entanto, ao nível regional, o quadro é mais complexo – aqui, fatores locais, como a perda de espécies raras e o estabelecimento de novas espécies, desempenham um papel significativo nos resultados gerais. As funções do ecossistema, nomeadamente no que diz respeito a bens e serviços fornecidos, logo os benefícios associados aos seres humanos, estão sempre relacionadas com a respetiva abundância, número e diversidade de espécies em cada local, sendo muito difícil fazer uma generalização mais global”, explicam os investigadores do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

Para os investigadores, é “essencial conhecer as diferentes tendências da biodiversidade em cada ecossistema e em cada local, para poder implementar medidas de proteção sustentáveis”.

A análise revela ainda que “em grandes áreas da Europa central e do Sul, nem a diversidade de espécies nem o número de espécies e indivíduos sofreram alterações, enquanto no norte da Europa foi registado um aumento na diversidade e no número de espécies. Este último pode ser parcialmente atribuído ao aumento das temperaturas no curso das mudanças climáticas globais”.

Os investigadores referem também que “em muitas partes da Europa, a fauna e a flora tradicionais estão a ser substituídas por novas espécies que geralmente são adaptadas às condições mais quentes”, porém, consideram que “a maioria das séries temporais começou antes da década de 1980, quando uma perda significativa de espécies já se tornara aparente”.

“Por outro lado, as tendências podem diferir significativamente, dependendo do bioma e do grupo de organismos analisado (grupo taxonómico). Embora pudéssemos observar um aumento da biodiversidade nas áreas marinhas durante o período do estudo, esse não foi o caso nos rios. Em média, a diversidade de algas nas zonas costeiras diminui, enquanto as aves e os invertebrados aquáticos mostraram uma surpreendente tendência de aumento. Isso ilustra que as tendências nem sempre são as mesmas em espécies ou ecossistemas inteiros”, justificam.

A equipa recomenda “uma expansão das séries temporais da biodiversidade e a padronização dos métodos de medição europeus nos diferentes habitats”, por considerar que esta é a única maneira de desenvolver “medidas de conservação significativas para cada região no que respeita à fauna e flora”.

O estudo juntou 60 investigadores europeus de cerca de 50 instituições. Em conjunto, analisaram mais de 150 séries temporais de biodiversidade (de 15 a 91 anos), abrangendo 6 200 espécies marinhas, terrestres e de água doce de 21 países da Europa, em diferentes biorregiões (de norte a sul), englobando diferentes grupos de organismos (insetos, peixes, aves, mamíferos, invertebrados marinhos, plâncton, etc.).