A 6 e 7 de março, Lisboa recebeu o II Congresso Ibérico de Diagnóstico por Imagem e A VETERINÁRIA ATUAL fez o balanço do encontro com a organização nacional. Emir Chaher e Ana Filipe mostraram-se satisfeitos com a participação nacional e estrangeira, pois, apesar de ser um evento recente de organização ibérica, já começa a despertar interesse nos profissionais do resto da Europa.
Promovido pela Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC) em conjunto com a Associação de Veterinários Espanhóis Especialistas em Pequenos Animais (AVEPA), a 2.ª edição do Congresso Ibérico de Diagnóstico por Imagem aconteceu em Lisboa, depois de, no ano passado, a 1.ª edição ter acontecido em território espanhol.
Desta feita, a organização local esteve a cargo do Grupo de Interesse Especial em Diagnóstico por Imagem (GIEDI) da APMVEAC, e Emir Chaher mostrou-se satisfeito com os números alcançados pelo encontro. “Tivemos perto de 170 participantes, dos quis 82 eram portugueses, 77 espanhóis, quatro do Reino Unido, um de Andorra e outro da Alemanha”, contabilizou o presidente da APMVEAC em declarações à VETERINÁRIA ATUAL. O dirigente reconheceu que o programa científico do encontro e o facto de as apresentações poderem ser feitas em inglês, ou terem tradução simultânea, despertaram o interesse de médicos veterinários de outros países europeus, demonstrando a qualidade do conteúdo apresentado pelos palestrantes convidados. Além disso, a componente científica foi ainda complementada com a apresentação de 22 posters – 10 de autoria portuguesa e 12 de profissionais espanhóis – e de quatro apresentações orais.
Aliás, referiu ainda o responsável, a qualidade científica do programa foi reconhecida pela plataforma internacional de certificação de formações científicas contínuas em medicina veterinária – o Veterinary Continuing Education in Europe (VetCEE), da qual a APMVEAC passou, recentemente, a ser membro – “com o nível mais alto (o nível 8) e todos os participantes receberam, por participar no evento, 0,5 créditos do Sistema Europeu de Transferência e Acumulação de Créditos (ECTS), que é uma forma unificada europeia de reconhecimento de formações”.
O presidente da APMVEAC adiantou ainda que estiveram presentes no encontro de Lisboa vários membros da direção da AVEPA – incluindo o presidente eleito e o tesoureiro – tendo havido oportunidade para as duas associações se reunirem e prepararem “outros projetos similares em áreas nas quais faz sentido para as associações e para o Grupo de Interesse Especial”.
Encontro superou as expetativas da organização
Ana Filipe também se mostrou satisfeita com a forma como o encontro decorreu. “Realmente, superou as minhas expetativas e o balanço é mesmo extremamente positivo”, declarou a presidente do GIEDI em declarações à VETERINÁRIA ATUAL, admitindo que, quer o comité organizativo nacional, quer os representantes espanhóis ficaram surpreendidos com a elevada adesão registada.
Na opinião de Ana Filipe, no centro desse interesse está o enquadramento temático do encontro, que juntou duas áreas nas quais se tem observado um crescente interesse por parte da classe veterinária: o diagnóstico por imagem e a Oncologia. Desta forma foi possível juntar dois grupos de áreas de especialidade diferentes, mas complementares. “É uma das vertentes da Imagiologia, pelo menos em Portugal, em que acabamos por ter mais prática: os controlos e os diagnósticos de processos oncológicos. Muitas das vezes, nesse contexto, aparece-nos o desafio [de distinguir] se é oncológico, se é inflamatório, que tipo de análise se deve fazer, que tipo de exame [complementar] se deve fazer. E foi nesse intuito que este programa foi construído”, explicou a responsável. Nesse sentido, Ana Filipe procurou que o programa incluísse todas as áreas da Imagiologia, desde a radiografia, à ecografia, à tomografia computorizada (TAC) e à ressonância magnética, de forma a também abordar os diferentes sistemas e órgãos afetados pelas doenças oncológicas.
“Tivemos perto de 170 participantes, dos quis 82 eram portugueses, 77 espanhóis, quatro do Reino Unido, um de Andorra e outro da Alemanha” – Emir Chaher
Para falar sobre os vários temas, foram escolhidos palestrantes com reconhecimento nacional e internacional, com Federica Rossi, especialista italiana em Radiologia, diplomada pelo European College of Veterinary Diagnostic Imaging (ECVDI), a assumir os temas da doença oncológica pulmonar, acabando mesmo por divulgar no encontro alguns dados em primeira mão, como os resultantes do estudo que tinha acabado de publicar – Computed Tomography Features of Pulmonary Metastatic Nodules Help Narrow the Differential Diagnosis of the Primary Tumor – no jornal Veterinary Radiology & Ultrasound. Tratou-se de um estudo observacional retrospetivo que comparou as características tomográficas de metástases pulmonares de diferentes tipos de cancro primário em cães, aleatorizando dois grupos com neoplasia primária e metástases pulmonares: um de cães com diagnóstico definitivo de neoplasia primária, metástase ou ambos e outro foi um subgrupo com ambos os diagnósticos confirmados. Foram analisados seis tipos histológicos de tumor primário – cancro epitelial, sarcoma ósseo, sarcoma de partes moles, melanoma, hemangiossarcoma (HSA) e sarcoma histiocítico – sendo que em ambos os grupos analisados se observou que “as características da TC apresentaram correlação estatística com o histótipo tumoral” tendo sido possível concluir que “as características da TC em metástases pulmonares auxiliam na priorização do histótipo da neoplasia em cães, facilitando o diagnóstico quando o tumor primário não é evidente, quando dois cancros são possíveis origens das metástases ou quando não é possível coletar amostras dos nódulos pulmonares”, lê-se no estudo.
Raquel Salgüero, diplomada pelo ECVDI e especialista pelo Royal College of Veterinary Surgeons (RCVS) em Diagnóstico por Imagem, foi outra das oradoras do encontro, tendo abordado a doença oncológica metastática no enquadramento imagiológico e o papel da Imagiologia no diagnóstico das neoplasias ósseas e da coluna vertebral.
Os nomes nacionais escolhidos para oradores foram Rita Furtado e Rui Lemos Ferreira. A médica veterinária, que trabalha no Reino Unido e é reconhecida pelo RCVS em Diagnóstico por Imagem Veterinário, abordou temas relacionados com o papel da Imagiologia avançada da neoplasia da cabeça e o papel da TAC e da radiografia no mapeamento dos linfonodos e no estadiamento oncológico.
“Este Congresso acaba por mostrar, claramente, que o diagnóstico por imagem já está cada vez mais integrado na abordagem da Oncologia veterinária” – Ana Filipe
Já a Rui Lemos Ferreira, que tem particular gosto pela área da ecografia, foi pedido para falar sobre o papel desse meio diagnóstico na doença oncológica gastrointestinal.
A presidente do GIEDI relatou que, durante as várias palestras “houve uma grande adesão dos colegas, com perguntas muito pertinentes, discussões que acabaram por ser muito enriquecedoras”, o que permitiu esclarecer dúvidas com nomes conceituados nestas matérias. “Acho que estamos todos sempre com o mesmo objetivo, de aprender, e os próprios oradores também vieram com esse objetivo, pois todos eles quiseram assistir às palestras uns dos outros, o que indica que os próprios temas eram extremamente interessantes”, frisou.
Ana Filipe considera mesmo que “este Congresso acaba por mostrar, claramente, que o diagnóstico por imagem já está cada vez mais integrado na abordagem da Oncologia Veterinária” e os temas abordados irão ajudar os profissionais que se dedicam à Oncologia veterinária, à Imagiologia, mas também os médicos veterinários com uma atividade clínica mais generalista no sentido de saberem como melhor abordarem estas doenças e que exames complementares vão favorecer o diagnóstico. Desta forma, acredita a responsável, a classe veterinária irá conseguir “ajudar no bem-estar dos animais e que estes consigam ter mais conforto durante o maior tempo possível e, para isso, precisamos chegar a diagnósticos mais atempadamente”. Isto numa altura em que se regista um maior interesse do mercado pela oncologia veterinária, com tutores cada vez mais exigentes nos cuidados aos animais de companhia e dispostos a investir em cuidados médicos diferenciados, e com a esperança média de vida dos animais a aumentar resultando, tal como acontece na medicina humana, num aumento de processos de doença oncológica.
Sobre a próxima edição do Congresso Ibérico, Emir Chaher e Ana Filipe admitiram que na reunião entre as duas estruturas organizativas durante o encontro já se prepararam as agendas e os temas a serem tratados, mas a única coisa que os dirigentes quiseram adiantar é que a rotatividade organizativa vai ser respeitada, ou seja, caberá à AVEPA a organização do encontro em Espanha. Preferiram reservar para um futuro próximo a divulgação concreta da data e dos temas.

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