Uma oportunidade privilegiada para atualização científica, partilha de conhecimento e networking, promovendo o intercâmbio de experiências e o debate sobre os desafios atuais da medicina veterinária, com especial enfoque na geriatria. É desta forma que o diretor do Departamento de Ciências Animais e Veterinárias da CESPU, Nuno Vieira e Brito, descreve os dois dias de trabalhos do I Congresso Internacional de Ciências Veterinárias, uma iniciativa conjunta do Mestrado Integrado em Medicina Veterinária do IUCS-CESPU e da Licenciatura em Enfermagem Veterinária da ESTeSTS, que decorre a 10 e 11 de abril em Paredes.
O que motivou a escolha da geriatria animal como tema central do I Congresso Internacional de Ciências Veterinárias?
A Geriatria tem-se tornado uma área de crescente importância na medicina veterinária, pois o aumento da longevidade dos animais de companhia, devido à maior sensibilização da sociedade e ao incremento de cuidados veterinários, tem criado uma população significativa de animais seniores.
Observamos uma maior consciência e exigência por parte dos tutores relativamente ao acompanhamento dos seus animais, particularmente os de mais idade, impulsionando a procura por conhecimento especializado e novas necessidades clínicas específicas.
Que principais objetivos científicos e clínicos definiram para esta primeira edição do congresso?
Pretendemos promover a divulgação de evidência recente sobre envelhecimento, fisiopatologia e doenças associadas à idade avançada em animais de companhia, criando espaço para apresentação de estudos, partilha de conhecimentos e desenvolvimento de novas linhas de investigação em geriatria na medicina veterinária.
O congresso foi estruturado para combinar atualização científica, aplicação clínica, abordagem multidisciplinar, ética e bem-estar, com forte integração entre médicos veterinários, enfermeiros e estudantes.
A Geriatria tem-se tornado uma área de crescente importância na medicina veterinária, pois o aumento da longevidade dos animais de companhia, devido à maior sensibilização da sociedade e ao incremento de cuidados veterinários, tem criado uma população significativa de animais seniores.
O programa reúne especialistas nacionais e internacionais. Que áreas ou temas considera que irão gerar maior discussão ou trazer novidades relevantes para a prática clínica?
Um dos domínios com maior potencial de debate é o da neurologia geriátrica, em particular a disfunção cognitiva. A inclusão deste tema reflete o reconhecimento crescente desta patologia, frequentemente confundida com alterações comportamentais inespecíficas. A ausência de critérios diagnósticos consensuais e a limitação das opções terapêuticas conferem a esta área um carácter emergente, propício à discussão científica e à incorporação de novas abordagens clínicas.
De igual modo, a oncologia geriátrica assume relevância central, sobretudo no que respeita à tomada de decisão terapêutica em pacientes mais frágeis. A tensão entre intervenções potencialmente curativas e a preservação da qualidade de vida constitui um dos principais desafios clínicos, sendo expetável que a partilha de experiências entre especialistas contribua para uma abordagem mais individualizada e eticamente sustentada.
A gestão da dor crónica configura outro eixo crítico. Apesar dos avanços farmacológicos e multimodais, a dor em animais geriátricos continua frequentemente subavaliada. A relevância colocada na sua identificação e quantificação sugere uma tentativa de colmatar lacunas na prática clínica, promovendo uma abordagem mais sistematizada e centrada no bem-estar.
No âmbito da Medicina Interna, a abordagem de patologias como a doença renal crónica, as endocrinopatias e as doenças hepatobiliares evidencia a necessidade de atualização contínua face à evolução dos critérios de diagnóstico e estadiamento. Regista-se uma elevada prevalência em animais seniores, pelo que estas áreas constituem pilares da prática clínica.
A discussão em torno da qualidade de vida versus longevidade, que ocorrerá numa mesa-redonda, introduz uma reflexão crítica sobre os objetivos terapêuticos, desafiando a primazia tradicional da extensão da vida em favor de uma avaliação mais integrada do bem-estar animal.
Por fim, a valorização da literacia em saúde e do papel do tutor indica uma mudança paradigmática na prática veterinária, com maior ênfase na comunicação clínica e na tomada de decisão partilhada. Este aspeto é particularmente relevante em geriatria, onde as decisões terapêuticas são frequentemente complexas e dependentes de múltiplos fatores não exclusivamente clínicos.
Esta estrutura deliberadamente integrada procura refletir a realidade multidisciplinar da prática clínica em geriatria.
O congresso apresenta programas paralelos de medicina veterinária e enfermagem veterinária. Como foi pensada esta articulação e que valor acrescenta à abordagem dos animais geriátricos?
Esta estrutura deliberadamente integrada procura refletir a realidade multidisciplinar da prática clínica em geriatria. A distribuição de sessões por salas distintas, mas com temáticas convergentes ao longo do mesmo período temporal, sugere uma articulação baseada na complementaridade funcional entre as duas áreas.
Esta organização permite alinhar conteúdos clínicos com a sua aplicação prática no contexto dos cuidados continuados. Por exemplo, temas como nutrição geriátrica, controlo da dor, maneio do paciente sénior e cuidados de fim de vida surgem abordados sob perspetivas distintas, mas interdependentes, evidenciando uma tentativa de promover coerência entre decisão clínica e execução técnica.
Esta articulação acrescenta valor na medida em que reconhece o papel da enfermagem veterinária como elemento central na monitorização do doente geriátrico, na aplicabilidade de protocolos terapêuticos e na comunicação com os tutores. A presença de sessões específicas dedicadas aos cuidados de enfermagem, incluindo a gestão do luto e a literacia em saúde, demonstra uma ampliação do foco tradicionalmente centrado no médico veterinário, incorporando dimensões relacionais e educativas da prática clínica.
Adicionalmente, a existência de momentos comuns, como mesas-redondas, sugere a criação de espaços de convergência interdisciplinar. Estes momentos são particularmente relevantes para a discussão de temas transversais, como a qualidade de vida, a tomada de decisão terapêutica e os cuidados paliativos, que exigem uma abordagem colaborativa entre médicos e enfermeiros.
De que forma este congresso pretende contribuir para a atualização dos profissionais face aos desafios crescentes associados ao envelhecimento dos animais de companhia?
A estrutura do congresso tem o propósito de responder aos desafios emergentes associados ao envelhecimento dos animais de companhia, através de uma estratégia integrada de atualização científica e capacitação clínica.
Em primeiro lugar, o congresso promove a atualização baseada em evidência ao integrar sessões dedicadas a patologias prevalentes em animais geriátricos, como doença renal crónica, endocrinopatias, neoplasias e patologias hepatobiliares. A abordagem destas áreas, com foco no diagnóstico, estadiamento e maneio, contribui para a incorporação de práticas clínicas recentes e fundamentadas.
Paralelamente, observa-se uma clara aposta no desenvolvimento de competências práticas, através de temas como anestesia em pacientes geriátricos, medicina transfusional, reabilitação física e nutrição clínica. Esta orientação evidencia a preocupação em traduzir o conhecimento científico em intervenções clínicas aplicáveis, ajustadas às particularidades fisiológicas do envelhecimento.
O congresso contribui igualmente para a atualização dos profissionais ao fomentar uma abordagem multidisciplinar, integrando diferentes áreas da medicina veterinária e da enfermagem. Esta articulação permite uma visão mais abrangente do paciente geriátrico, promovendo a continuidade de cuidados e a otimização dos resultados clínicos.
O programa revela ainda importante foco no bem-estar animal, com especial atenção ao reconhecimento e controlo da dor, bem como à avaliação da qualidade de vida. Este aspeto é complementado por discussões, refletindo uma abordagem ética e centrada no paciente.
Adicionalmente, o programa aborda de forma explícita os desafios éticos e comunicacionais, incluindo temas como eutanásia, gestão do luto e literacia em saúde. Estes conteúdos contribuem para a preparação dos profissionais na gestão de situações complexas, frequentes em contexto geriátrico, reforçando competências não técnicas essenciais à prática clínica.
Importa ainda salientar a diversidade de espécies contempladas, bem como uma abrangência interespecífica, nomeadamente animais exóticos e de zoo, não esquecendo as quintas pedagógicas e santuários. Estes elementos reforçam o objetivo de ampliar o alcance e a aplicabilidade do conhecimento em geriatria veterinária.
Em síntese, esta primeira edição do congresso foi orientada por objetivos que articulam atualização científica, aplicação clínica, multidisciplinaridade, ética profissional e promoção do bem-estar animal ao longo do envelhecimento.
A estrutura do congresso tem o propósito de responder aos desafios emergentes associados ao envelhecimento dos animais de companhia, através de uma estratégia integrada de atualização científica e capacitação clínica.
Os cuidados paliativos e a gestão da qualidade de vida têm destaque no programa. Considera que ainda existe margem para evolução nestas áreas em Portugal?
Os cuidados paliativos e a gestão da qualidade de vida em medicina veterinária, em Portugal apresentam ainda margem relevante de desenvolvimento, apesar dos progressos verificados nos últimos anos. A crescente integração destes temas em eventos científicos e na prática clínica sugere uma evolução positiva, mas também evidencia a necessidade de maior consolidação estrutural.
Persistem desafios ao nível da padronização de protocolos, da utilização sistemática de instrumentos de avaliação da qualidade de vida, na comunicação clínica e tomada de decisão em fim de vida. Adicionalmente, a implementação de uma abordagem verdadeiramente multidisciplinar permanece heterogénea, podendo limitar a eficácia dos cuidados prestados ao paciente geriátrico.
Neste contexto, a valorização destes temas no programa do congresso assume particular relevância, ao contribuir para a sensibilização da comunidade profissional e para a disseminação de boas práticas. Tal iniciativa poderá funcionar como um catalisador para a evolução da medicina veterinária geriátrica em Portugal, promovendo uma abordagem mais estruturada, ética e centrada no bem-estar e na qualidade de vida dos animais.
Que papel espera que a enfermagem veterinária assuma no contexto destes novos desafios, e como isso será refletido nas discussões do congresso?
A enfermagem veterinária é um elemento central na resposta aos desafios associados ao envelhecimento dos animais, assumindo um papel progressivamente mais autónomo, técnico e relacional no contexto clínico.
Destaca-se o contributo da enfermagem na monitorização contínua do paciente geriátrico, particularmente relevante em patologias crónicas e progressivas. A proximidade ao doente permite a identificação precoce de alterações subtis no estado clínico, fundamentais para ajustes terapêuticos atempados.
Adicionalmente, a enfermagem assume um papel determinante na implementação de planos terapêuticos, incluindo administração de medicação, suporte nutricional e aplicação de estratégias de reabilitação. A presença de sessões específicas sobre nutrição geriátrica e cuidados de enfermagem evidencia a valorização destas competências no programa científico.
No domínio do bem-estar, a enfermagem veterinária é igualmente relevante na avaliação e gestão da dor, bem como na promoção do conforto do paciente. Este papel é particularmente crítico em contexto geriátrico, onde a dor pode ser subvalorizada ou de difícil reconhecimento.
Outro eixo fundamental é a comunicação com os tutores, incluindo educação para a saúde, acompanhamento em processos de doença crónica e apoio em situações de fim de vida. A inclusão de temas como literacia em saúde e gestão do luto demonstra o reconhecimento desta dimensão relacional e emocional.
No contexto dos cuidados paliativos, a enfermagem assume ainda um papel essencial na continuidade de cuidados e suporte ao fim de vida, contribuindo para decisões centradas na qualidade de vida e no bem-estar animal.
A estrutura do congresso, ao incluir um programa paralelo dedicado à enfermagem veterinária, assim como momentos de convergência interdisciplinar, evidencia que estas funções não são tratadas de forma isolada, mas integradas numa lógica de colaboração com o médico veterinário. Esta articulação permite alinhar decisão clínica e execução prática, reforçando a eficácia dos cuidados prestados. Em termos críticos, esta valorização aponta para uma transformação do papel tradicional da enfermagem veterinária, que tende a evoluir de uma função predominantemente assistencial para uma participação mais ativa na gestão clínica do paciente geriátrico.
Esta primeira edição do congresso foi orientada por objetivos que articulam atualização científica, aplicação clínica, multidisciplinaridade, ética profissional e promoção do bem-estar animal ao longo do envelhecimento.
Que principais mensagens ou inovações espera que os participantes levem deste I Congresso Internacional de Ciências Veterinárias?
Em primeiro lugar, destaca-se a consolidação de uma abordagem centrada no paciente geriátrico como entidade clínica diferenciada. A diversidade de temas reforça que o envelhecimento não deve ser entendido apenas como um fator cronológico, mas como uma condição que exige adaptação específica dos processos diagnósticos e terapêuticos.
Outra mensagem central prende-se com a valorização da qualidade de vida como critério orientador da decisão clínica. A integração de palestras dedicadas à dor, aos cuidados paliativos e à reflexão sobre o equilíbrio entre longevidade e bem-estar aponta para uma mudança de paradigma. Neste novo enquadramento, o sucesso terapêutico deixa de ser medido apenas por indicadores biomédicos, incorporando dimensões físicas, psicológicas e sociais do doente.
Do ponto de vista técnico, espera-se que os participantes adquiram atualizações em áreas clínicas de elevada prevalência, nomeadamente em medicina interna (doença renal crónica, endocrinopatias, patologias hepatobiliares), oncologia e ortopedia geriátrica. Estas atualizações poderão traduzir-se na adoção de práticas mais consistentes com a evidência científica recentes.
Adicionalmente, o congresso promove a integração de abordagens multimodais e multidisciplinares, incluindo nutrição, reabilitação física e cuidados de enfermagem. Esta perspetiva reforça a necessidade de articulação entre diferentes áreas para otimização dos resultados clínicos.
Outro contributo relevante é o reforço das competências não técnicas, incluindo comunicação com tutores, literacia em saúde e gestão do luto. Estas dimensões, frequentemente subvalorizadas, são essenciais para a prática clínica em contexto geriátrico.
Por fim, a própria estrutura do congresso transmite uma mensagem organizacional relevante: a necessidade de colaboração interdisciplinar, nomeadamente entre médicos veterinários e enfermeiros veterinários, como base para uma abordagem mais eficaz e integrada do paciente sénior.

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