José Núncio Fragoso: «O sector equino está estagnado»

José Núncio Fragoso: «O sector equino está estagnado»

O estabelecimento da raça lusitana teve um papel fundamental no desenvolvimento do sector equino em Portugal, levando também, por outro lado, à alteração da forma como estes animais passaram a ser encarados pelos proprietários e à consequente valorização do papel do médico veterinário.

Há quatro anos, surgiu a Associação de Médicos Veterinários de Equinos (AMVE), cujo presidente, José Núncio Fragoso, alerta para o facto de haver hoje jovens que querem incrementar a sua actividade clínica ao nível do cavalo e que poderão não ter essa possibilidade. Se existiu uma altura em que a especialização clínica nestes animais era uma realidade ao alcance de todos, actualmente, o cenário é outro, pois o desenvolvimento do sector está estagnado.

VETERINÁRIA ACTUAL – Qual o panorama actual do sector do cavalo em Portugal?
José Núncio Fragoso – Antigamente, os cavalos que existiam em Portugal não tinham qualquer especificidade. Eram nascidos no nosso país, tendo como base um cavalo chamado peninsular – no fundo, um andaluz -, diferente do espanhol: mais aligeirado, habilidoso, nervoso, e com outras habilidades a explorar em cavalo de sela. Isto muito devido ao toureio, onde o animal necessita de uma certa excitabilidade e destreza, para vencer as acometidas do touro.

Foi então que, por volta dos anos 70, surgiu a ideia de criar um cavalo a que se chamou de puro-sangue lusitano. Neste sentido, o cavalo peninsular ou andaluz deixaria de ser conhecido em Portugal por essas designações e passaria a ser assim apelidado, uma vez que era, de facto, diferente do espanhol.
Criaram-se comissões que estabeleceram os padrões da raça e depois foi-se, de casa em casa, conforme a solicitação dos criadores, verificar se os seus animais se inseriam nos padrões definidos.
Hoje, há quem crie cavalos árabes, cavalos lusitanos e quem goste de misturar raças. Existe ainda quem tenha puros-sangue ingleses, se bem que no nosso país não tenham expressão.

Que características distinguem a raça lusitana das outras?
– Estamos a falar de um cavalo dócil e agradável de montar. O cavalo lusitano passou a ser utilizado em áreas que anteriormente se julgavam impossíveis, e onde provou ser capaz, dado que tudo reside numa questão de formação. Temos, inclusive, cavalos que se distinguiram nos saltos, apesar de não terem altura nem talha. Não obstante, saltam até um certo nível e, como são voluntariosos, diferenciam-se dos outros. Além disso, também já tivemos animais destes campeões do mundo em atrelagem e, na modalidade de ensino, passou também a ser muito requisitado.

E, por exemplo, em áreas como a equitação para fins terapêuticos?
– Já há algum tempo que se utilizam os cavalos em terapias com indivíduos portadores de deficiência e até com bastante sucesso. O lusitano também é um bom animal para esta tarefa. Houve, de facto, uma grande divulgação e muitas pessoas especializaram-se nesse tipo de terapêutica.

Como avalia o impacto da criação desta raça no sector dos equinos em Portugal?
– Havendo uma raça específica, passou a haver a sua divulgação e, consequentemente, os estrangeiros passaram a interessar-se por ela e a vir adquiri-la a Portugal.
Presentemente, os lusitanos estão espalhados por toda a Europa, havendo criadores em Espanha, França, Inglaterra ou Alemanha. Mas não só: o Brasil e o México também absorveram muitos destes cavalos. Já nos Estados Unidos da América, os americanos criam grandes entraves em relação à piroplasmose, algo que os nossos cavalos têm quase todos.

E para a classe veterinária, que consequência teve este desenvolvimento?
– A consequência mais directa foi que, para se assegurar um bom trabalho de técnica, o médico veterinário passou a ser solicitado a colaborar neste tipo de iniciativas.

De um modo geral, como observa a evolução do relacionamento com os cavalos nos últimos 50 anos?
– O cavalo foi sempre um instrumento de trabalho e todas as casas de lavoura o tinham. O valor do animal não tinha, então, expressão, ao ponto do médico veterinário se dedicar a ele como actividade única, para além de que era mais recorrente procurar auxílio junto dos “entendidos”, que forneciam umas mezinhas baratas. O facto do animal poder não sobreviver não era muito importante e não se pediam responsabilidades.
Não há dúvidas que, depois dos anos setenta, as pessoas começaram a olhar para o cavalo de uma perspectiva diferente, e terá sido também nesta altura que se iniciou um maior número de competições equestres.

Diria que esta nova perspectiva veio facilitar a vida dos criadores?
– Depende. Eu, que conheço bem as coudelarias, vejo que há umas que vendem mais facilmente do que outras, porque são mais perspicazes ou porque seleccionaram melhor. Diria que há um grupo de cerca de 12 criadores de quem se pode dizer que obtêm proveitos com a coudelaria. Porém, em relação aos outros, tenho as minhas dúvidas. Mas como gostam, continuam a ter os cavalos.

Quais são as principais patologias nos equinos?
– As cólicas são uma das mais importantes problemáticas no caso dos equinos. Elas querem dizer simplesmente dor, mas são situações que importam resolver. Normalmente são do tipo intestinal, mas podem derivar do fígado, ser renais ou de outro tipo. No entanto, o tratamento não é fácil, porque a medicação diverge de acordo com o tipo de cólica, ou seja, é necessário fazer um diagnóstico acertado.

Neste ponto, aquilo de que me apercebo, até mesmo na medicina humana, é que se está a perder o sentido clínico. O médico veterinário tem de ouvir a queixa, catalogá-la, discernir e raciocinar sobre se este animal tem isto ou aquilo. Após, deve confirmar as suas suspeitas com meios auxiliares de diagnóstico, por exemplo a radiografia, e não ao contrário: efectuar-se um grande conjunto de exames, para depois chegar à conclusão do que é que o animal tem. Por outras palavras, actualmente, há uma utilização abusiva de meios de diagnóstico, sem que seja feito, em primeiro lugar, um diagnóstico clínico.

Em que momento nasceu a Associação de Médicos Veterinários de Equinos (AMVE)?
– Como todas as associações, esta nasceu com a finalidade de juntar os médicos veterinários que se dedicam à Medicina Veterinária equina, para que possam discutir os problemas, anseios e perspectivas da classe.
Actualmente, não podemos pensar individualmente, cada um per si, além de que o médico veterinário funciona inserido numa equipa multidisciplinar.

Em Portugal, a conjuntura mudou muito e, por exemplo, no espaço de pouco tempo, passámos de uma faculdade de Medicina Veterinária para seis. É preciso, portanto, unirmo-nos para discutir as situações comuns. Acho que é importante os profissionais enfrentarem-se olhos nos olhos e discutirem os seus problemas.
Esta é uma associação jovem, existe apenas há quatro anos e ainda não está devidamente consolidada, havendo um longo caminho por percorrer. Mas tudo começou com um pequeno grupo, que começou a divulgar aquilo que se propunha fazer, e hoje já temos cerca de 60 médicos veterinários associados.
A sede da associação começou por ser no Hipódromo do Campo Grande, na minha clínica e entretanto conseguimos uma sede “real”, que nos foi cedida por uma entidade de produtos veterinários, a Agrovet, em Queluz de Baixo.

A que iniciativas se dedica a AMVE?
– Realizamos congressos e outros eventos do género e, futuramente, iremos desenvolver também acções de formação. Já fizemos três jornadas, se bem que a adesão não foi a que gostaríamos, até porque não somos assim tantos ligados aos cavalos, dado que não houve um desenvolvimento tão grande nesta área que possa abarcar um grande número de profissionais.

Têm alguma parceria estabelecida com outras entidades ou até mesmo associações homólogas?
– Não. A Ordem tem estado a fazer um trabalho sobre as especialidades em Veterinária e a nossa associação tem colaborado, mas está tudo muito atrasado. Contudo, nunca houve uma reunião inter-associações, porque, no fundo, isso é da competência da Ordem.

E quanto a projectos, que tipo de iniciativas têm em carteira?
– Inaugurámos há pouco a nossa sede e agora estamos mais à vontade para agir. Temos ainda a nossa página na Internet, que foi modificada, e em Maio vamos realizar um congresso, que ainda não está totalmente organizado.
Mas muito proximamente iremos apostar na realização mais frequente de assembleias-gerais, para que os sócios possam discutir o que se passa na profissão. É pena que nunca apareçam muitos. Aceito que haja membros que pensem que não se está a fazer o que inicialmente pretendíamos, mas também é verdade que não somos devidamente estimulados, de modo a corresponder aos anseios de cada um, principalmente porque, como as pessoas não participam, não temos modo de tomar consciência deles.
É importante que toda e qualquer associação de classe se manifeste, tome posições relativamente à sua envolvente. Mas para isso, precisamos que os nossos associados nos ajudem a sermos melhor.

No que lhe diz respeito a si, em particular, porque decidiu dedicar-se a esta área?
– Eu cresci num ambiente onde os cavalos foram sempre presença assídua e sempre tive uma grande paixão por estes animais. Neste momento, sou o médico veterinário mais velho, em Portugal, a dedicar-se a equinos. Não posso dizer que sou um especialista, porque não há especialistas em Veterinária, mas há 40 anos que me dedico a estes animais.

Os conhecimentos adquiridos na faculdade não terão sido, certamente suficientes para esta “especialização”. Como desenhou o seu percurso formativo?
– Quando regressei do Ultramar, achei que tinha de me abrir a novos horizontes. Senti necessidade de ir à procura de novos conhecimentos e fui para o estrangeiro. Por acaso, fui o primeiro a procurar formação a nível internacional, mas muitos se seguiram. Hoje a situação já é um pouco diferente, dado que os jovens diligenciam estágios com profissionais que possuem bastante casuística, os quais não existiam no meu tempo.

Há muitos jovens médicos veterinários a querer trabalhar exclusivamente com cavalos?
– Houve uma fase que sim, em que a área equina registou um grande desenvolvimento. Hoje a situação está estagnada, embora todos os dias apareçam jovens que pretendem desenvolver a sua actividade clínica ao nível do cavalo. Alguns até têm uma grande preparação e são bons médicos, mas temo que possam vir a não ter a possibilidade de mostrar as suas capacidades e a sua categoria profissional. Toda a gente tem direito ao trabalho e de se realizar… Receio que neste último capítulo nem todos venham a ter oportunidade para tal.

Esse receio manifesta-se unicamente na área equina ou é extensível às outras “especialidades” da Medicina Veterinária?
– Há um excesso preocupante de médicos veterinários no geral. Como já referi, em pouco tempo passámos de uma para seis faculdades. Mas não só. No ano em que comecei a frequentar o Ensino Superior, entrámos 42 e, quando terminei, saímos 22, sendo que todos nos conhecíamos e considerávamo-nos uma pequena família. Presentemente, a mesma faculdade já tem quatro turmas, com cerca de 30 alunos em cada ano; ou seja, só na Faculdade de Lisboa a população quadruplicou; e ainda há mais cinco! Por outro lado, naturalmente que umas serão melhores do que outras, uma vez que não são apenas constituídas pelos edifícios e aparelhos, há o corpo docente que as constitui. O aumento do número destes estabelecimentos de ensino faz-me duvidar que todos eles sejam dotados de pessoas com curriculum e vivência académica para poder realmente ensinar devidamente, uma vez que só a experiência clínica de um profissional não chega, ser académico é algo diferente.

A AMVE

Nascida a 31 de Março de 2003, a AMVE desenvolve as suas actividades tendo por base o objecto da sua constituição:
– Realização de reuniões e congressos sobre temas científicos nas mais variadas áreas da clínica de equinos.
– Divulgação de assuntos de interesse para a profissão.
– Promoção de fóruns de discussão sobre temas profissionais.
– Representação institucional dos interesses dos associados.
– Concepção e realização de estudos e trabalhos no domínio da Medicina
 de equinos.
– Criação de fundos de apoio e bolsas com fins científicos e de formação contínua.
– Apoiar projectos de investigação.

Perfil
Desde sempre, os cavalos!

Nasceu em Alcácer do Sal e é sobrinho de João Branco Núncio, «um homem que toda a vida dedicou a sua actividade ao toureio». José Núncio Fragoso foi, assim, educado num ambiente onde o cavalo era rei, o que acabou por condicionar as suas escolhas profissionais.

Entrou para o curso de Medicina Veterinária em 1962, tendo depois, assim que terminou os estudos, ido para a tropa. Acabou por ser destacado para o Ultramar, onde exerceu, durante dois anos, a profissão de médico veterinário num grupo de esquadrões a cavalo, em Angola, onde esteve dois anos. Durante muito tempo, foi o único responsável clínico de 400 cavalos.

Quando regressou à metrópole, achou que devia abrir novos horizontes e foi para o estrangeiro em busca de novos conhecimentos. Algo que se tornou um hábito, uma vez que, periodicamente, deslocava-se à Suiça, normalmente durante um mês, para colaborar com um colega muito conhecido na área e com o qual sempre fez a sua preparação. Aliás, José Núncio Fragoso afirma que a sua formação foi sempre feita junto de colegas privados e de grande reputação. Há cerca de dois ou três anos que deixou de ir à Suiça, embora periodicamente assista a congressos e a outras iniciativas semelhantes.
O profissional foi ainda médico veterinário da Guarda Nacional Republicana (GNR), durante 25 anos.