Arnaldo Dias da Silva: Investigadores estão a salvar as universidades

O Centro de Ciência Animal e Veterinária é uma referência a nível nacional. Apesar de ser relativamente recente, e é já um dos centros de investigação que mais vezes é citado em conferências e artigos científicos de investigadores estrangeiros.

O CECAV aumentou a produção científica em «100%», mas segundo assume o académico e investigador, por outro lado, a falta de verbas para a investigação estará a obrigar os próprios cientistas a procurarem financiamento para os seus trabalhos e para as próprias universidades.  

O Centro de Ciência Animal e Veterinária (CECAV), em Vila Real, um dos mais aplaudidos centros de investigação nacionais, é uma unidade do sistema científico e tecnológico nacional que tem como instituição de acolhimento a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Nascido em 2002, em resultado da reestruturação da investigação científica na UTAD, que então estava centrada numa entidade única e heterogenia de ciências agrárias e tecnologias agro-alimentares, tem sido essencialmente financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, entidade governamental, uma vez que somente a «união de forças» dava direito ao financiamento daquela Fundação. 

O director do CECAV, Arnaldo Dias da Silva, conta à VETERINÁRIA ACTUAL que este centro de investigação tem por objectivo central realizar investigação científica básica e aplicada em ciência animal e veterinária, «procurando gerar novos conhecimentos em matéria de saúde e produção animal que permitam padrões de produção com elevada eficiência biológica e económica, no respeito pela saúde e pelo bem-estar dos animais e pela qualidade e segurança dos produtos para consumo humano deles obtidos».

O poeta e escritor Miguel Torga, um assumidíssimo transmontano dos quatro costados, descrevia, em poema célebre, o concelho de Vila Real como sendo o «reino maravilhoso», aquele em que «para lá da Serra do Marão, só mandam os que lá estão». De facto, a beleza agreste e ímpar deste pedaço de Portugal, tantas vezes ostracizado, deixa a sua marca em qualquer um. Como não podia deixar de ser, o trabalho desenvolvido no CECAV – que, reiteramos, está sediado numa das mais belas zonas do país (junto ao Alto Douro vinhateiro e rodeado pelas majestosas serras do Alvão e Marão) – tem a preocupação de conservar (não estragar) toda a riqueza da fauna e flora que por lá existem.

Tentativas de produção “literária” à parte, Dias da Silva sublinha que o factor de preservação da natureza é mesmo realidade, sendo, aliás, um imperativo categórico. «Pretendemos fazer um quadro que valorize o ambiente ou, no mínimo, que evite potenciais impactos ambientais negativos da produção. Neste sentido, enquadra-se perfeita e igualmente o trabalho da protecção da saúde da fauna selvagem que tem vindo a fazer-se e ganhar identidade própria».

Para o director do centro de investigação transmontano, os objectivos gerais atrás enunciados serão o resultado da realização de projectos de investigação financiados por entidades públicas e por empresas. «Privilegia-se a integração do saber disciplinar dos seus membros e de investigadores de outros centros de investigação científica nacionais e internacionais que trabalham em cooperação com o CECAV, no sentido de produzirmos conhecimento científico da mais elevada qualidade».

A difusão do conhecimento gerado pelo trabalho científico, diz o investigador, é feita em revistas de circulação internacional com arbitragem científica relevantes, e ainda em conferências, seminários e outras actividades científicas e técnicas. Por outro lado, «o saber obtido será também utilizado em serviços de consultoria às entidades oficiais, às empresas e aos produtores. O enriquecimento do saber dos investigadores do CECAV, fruto desta actividade científica, será utilizado essencialmente na formação graduada e pós-graduada em ciência animal, ciências veterinárias e qualidade e segurança dos alimentos de origem animal», explica. Segundo o director do CECAV, esta instituição realiza a maior parte da investigação científica nos laboratórios e nas instalações experimentais existentes na UTAD, sendo que uma significativa parte do trabalho de investigação é realizada noutros centros nacionais e estrangeiros com os quais o CECAV tem laços de cooperação, política esta que, aliás, «tem sido encorajada».

Investigadores a tempo parcial

O CECAV, segundo o seu director, ainda não é considerado um centro de excelência, uma vez que ainda não conseguiu que a sua equipa de investigadores desenvolvesse o seu trabalho a tempo inteiro. Todavia, «os nossos indicadores de produção científica estão entre o grupo dos primeiros, dos melhores nacionais», esclarece, exemplificando que a produção de artigos em revistas científicas internacionais, em revistas dos melhores congressos, ronda os «47, em 2006», que «estão ao melhor nível nacional».

A equipa de investigadores é na sua maioria constituída por docentes e estudantes da instituição de ensino. O responsável adianta que é prática comum os investigadores acumularem as funções docentes com as de investigação, isto é, estarem divididos entre duas tarefas, que podem ser compatíveis. Em 2006, 35 doutorados prestaram serviço no CECAV, sendo a maioria dos departamentos de Zootecnia e Ciências Veterinárias da UTAD. Um número variável de estudantes de mestrado e de doutoramento trabalha no centro, enquadrado por estes investigadores seniores. Neste momento, 39 estudantes de mestrado e 33 de doutoramento fazem parte integrante do CECAV, alguns deles estrangeiros.

Selecção «criteriosa» da equipa

Dias da Silva sublinha que o CECAV «é muito criterioso» na hora de escolher os doutorados que integram este centro. «Não é pelo facto de se ser doutor que já se pode integrar o CECAV, pois nós só queremos doutorados que tenham determinada produção científica anual, isto é, devem publicar vários artigos em revistas científicas de referência». De resto, na óptica do responsável, o elevar da fasquia tem «dado excelentes resultados, pois 52% dos nossos trabalhos foram publicados nas melhores revistas científicas, nomeadamente das áreas de produção animal, vigilância epidemiológica de doenças relevantes para a saúde animal, segurança alimentar e toxicologia». Por outro lado, o número de citações de trabalhos dos investigadores do CECAV por outros investigadores da área «está acima da média mundial».

Enquanto a média de produção científica portuguesa cresceu 15%, o trabalho de investigação desta instituição «cresceu 100%», afiança. «Estamos muito acima da média nacional!». O crescimento e a consolidação da actividade do Centro durante o período 2003-2006 «sugeriu-nos uma revisão da sua estrutura organizativa, bem como dos objectivos de trabalho. Por isso, em 2007, decidimos criar seis grupos de investigação dentro da unidade: produção animal; patologia e biomarcadores; vigilância epidemiológica e saúde animal; modelos e experimentais; qualidade e segurança alimentar dos produtos de origem animal, vaca leiteira – melhoramento, saúde e bem-estar, que é uma área sobre a qual não há muita gente que se ocupe de uma forma integrada».

Segundo Dias da Silva, estes grupos de trabalho foram enquadrados na procura de, em comum, terem dois grandes objectivos gerais: «realizar investigação para uma produção animal que seja simultaneamente mais responsável face às preocupações da sociedade e praticar uma abordagem multidisciplinar dos problemas, por considerarmos ser esta a única maneira de atingirmos resultados consistentes».

Projectos em curso

De facto, o CECAV tem obtido algumas vitórias no campo da investigação animal, diz o responsável. Uma equipa de investigadores multidisciplinar venceu o prémio Pfizer 2007, de Investigação Clínica. O trabalho “Avaliação dos marcadores bioquímicos de formação óssea e suas correlações com os minerais séricos durante o processo de cicatrização óssea em osteotomias e defeitos ósseos de dimensão crítica ao nível da tíbia na ovelha como modelo experimental de investigação em ortopedia” teve a participação de Isabel Dias e Carlos Viegas (UTAD), e Jorge Azevedo (UTAD-CECAV), sendo os outros investigadores Paulo Lourenço, Emília Costa, Adriano Rodrigues e António Cabrita (Universidade de Coimbra), António Ferreira (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa) e Rui Reis (Universidade do Minho).

Apesar da «alegria» advinda com o sucesso desta investigação, o director do CECAV lembra que há muitos outros projectos que também merecem destaque. “A vaca leiteira – melhoramento, saúde e bem-estar”, coordenado por António Domingues Silvestre, é um dos projectos que já está em curso e que, segundo o entrevistado, terá grande repercussão na sociedade. Este grupo tem como objectivo criar e divulgar conceitos de investigação básicos e aplicados na produção da vaca leiteira que suportem a manutenção de uma «elevada eficiência da produção, sem comprometer a saúde e o bem-estar animal, a qualidade dos produtos e a protecção do meio envolvente. Por isso, os estudos já em curso centram-se na necessidade de desenvolver novos métodos de avaliação do mérito genético das vacas leiteiras, não apenas para os objectivos de produção clássico, mas também para novos objectivos, como sejam a resistência às doenças como a mastite e a duração da vida produtiva da vaca», explica.

Por sua vez, a equipa de investigação liderada por Miguel Machado Rodrigues está a desenvolver uma outra investigação de monta. O projecto “Produção Animal” tem como objectivos “arranjar” sistemas de produção sustentáveis de herbívoros ruminantes e não ruminantes e de aves com baixos inputs energéticos.
Os estudos em curso, assegura, cobrem essencialmente as áreas de recursos genéticos, nutrição, reprodução, comportamento e bem-estar animal. Sublinhe-se que serão utilizados métodos não invasivos como ferramenta de trabalho.

Dias da Silva frisa ainda que o trabalho que está a ser feito no campo dos “Modelos Experimentais”. O investigador Luís Marques Antunes está à frente de uma equipa que tem como objectivo o estudo de modelos animais “do rato à vaca” e a sua aplicabilidade em investigação científica para humanos e animais, «tirando partido da conjugação de um conjunto de factores disponíveis no CECAV, particularmente favorável para este fim, nomeadamente nas áreas da anestesia, desenvolvimento perinatal e modelos oncológicos», que, em caso de obterem resultados positivos, poderão ser aplicados na medicina humana.     

«Motivação para correr riscos»

Quase metade dos investigadores portugueses (45%) que trabalham no estrangeiro afirmam que não tencionam voltar a Portugal a médio prazo devido «à falta de oportunidades de emprego» e de «progressão na carreira», revela um estudo do Instituto de Ciências Sociais (ICS) realizado pela socióloga Ana Delicado, citada pelo jornal “Público”. A chamada “fuga de cérebros” não é novidade e tem vindo a apoquentar quer os governos quer as instituições de investigação portuguesas.

O director do CECAV, que acolhe três bolseiros estrangeiros, não crê que a profissão de investigador «seja mal paga», até porque «as bolsas de doutoramento ou pós-doutoramento são semelhantes às que são atribuídas no estrangeiro». No entanto, o académico reconhece que «no pós-doutoramento é que as coisas se tornam mais delicadas». Para o investigador, os jovens (e menos jovens) cientistas devem «ter capacidade de iniciativa e de perseverança» para afrontar a provável desmotivação que irão encontrar no mercado de trabalho português, ou melhor, devem ter «motivação para correr riscos», deverão ter a capacidade de «transformar o saber em euros».
De resto, segundo o académico, as ciências veterinárias continuam a ter nichos de mercado que necessitam de mais empreendedorismo, nomeadamente o sector da produção animal. «Ainda há pouco tempo encontrei uma antiga aluna minha que me disse que estava encantada com o trabalho que está a fazer numa clínica de grandes animais», justifica, acrescentando que, por exemplo, a aposta dos jovens veterinários em criar clínicas de animais de companhia já começa a dar alguns sinais de saturação, pois o «delicado momento económico que atravessa o país reflecte-se na procura deste tipo de serviços».

Na mesma medida, Dias da Silva autodefine-se como um «optimista», dado que a grande qualidade dos investigadores portugueses que «trabalham em grandes multinacionais estrangeiras» é prova de que os “estrangeirados” deveriam apressar o seu regresso a Portugal. «Se desenvolvem o seu trabalho lá fora, por que motivo não podem atingir o mesmo tipo de performance no seu país?». Porquê? «De facto, a sensibilidade dos nossos governantes para estas áreas não é das mais apuradas», reconhece.
Foto de caixa 9706

«Estrangulamentos financeiros»

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior está a braços com a “imposição” do emagrecimento de verbas imposto, isto é, os fundos estatais para a investigação têm vindo a diminuir. Dias da Silva assume que, por exemplo, este corte de verbas para o ensino superior está a prejudicar o CECAV com a falta de infra-estruturas e de espaços «onde se pudesse desenvolver actividade experimental».

Como conta, os «estrangulamentos financeiros» para a investigação científica «estão a obrigar os investigadores a ir ao mercado obter financiamento não apenas para os seus trabalhos, mas também para a sobrevivência das próprias universidades».

De todo modo, nas palavras de Dias da Silva, o trabalho do CECAV tem vindo a ser reconhecido pela Indústria Farmacêutica, que «está a colaborar connosco em vários projectos, designadamente a Pfizer e a Merck, entre outras. Ora, com certeza que esta aproximação destas grandes empresas não resultou de simpatias pessoais, mas sim do reconhecimento do mérito do nosso trabalho». Mas, na prática, o académico reconhece que as relações entre a Indústria e instituições estatais podem ser alvo de «alguns equívocos», uma vez que pode acontecer que os privados exigiam «resultados demasiado rápidos».

Remar contra os «dogmas de Bruxelas»

Quanto à performance do ministro Mariano Gago, Dias da Silva começa por escusar-se a comentar o desempenho do governante, mas, depois, adianta que «enquanto investigador, teve uma acção mais marcante do que aquela que está a ter como ministro». Em relação às ciências veterinárias, Dias da Silva crítica «o politicamente correcto» e a aceitação “semi-acéfala” dos «dogmas de Bruxelas», nomeadamente a questão do «produtivismo».

«Para um indivíduo citadino e rico não custa nada gastar centenas de euros em alimentação, mas para a classe média já não é bem assim. Aqueles chavões, como “morte à produção intensiva!” e outros, são altamente criticáveis, porque a ciência é dominada por pessoas que se instalaram no poder e nas universidades, e estão, grande parte deles, a esquecer-se de conceitos muito mais importantes como o da soberania alimentar do país, que são questões muito importantes».
Já o ministro da Agricultura, Jaime Silva, tem «um discurso politicamente correcto», e revela «algum distanciamento» dos problemas reais das pessoas, conclui.