Clínica self-made

Clínica self-made

Junta-se uma médica veterinária e um engenheiro mecânico e o que se obtém? Uma clínica chamada Bola de Pêlo. Mais do que ser a “cara”dos seus donos, a clínica é o produto das suas mãos, visto que grande parte do recheio foi feito pelo casal.

A caniche Núria tinha hora marcada para a sua vacina na Clínica Bola de Pêlo, em Varge Mondar, Rio de Mouro, Sintra. Mas vacinar a irrequieta cadela, de apenas alguns meses, poderia não ser tarefa fácil para alguém inexperiente no assunto. Contudo Joana Brito, médica veterinária desde 2000, não se deixou intimidar. Com a ajuda da auxiliar, Vanessa Martins, o pequeno animal acabou por receber a vacina, ao fim de alguns minutos de “luta”.

Mas não foi só a experiência que valeu a Joana Brito. A paixão por animais também é uma das suas armas no dia-a-dia. Compreender o que vai na alma destes companheiros de quatro patas é essencial e isso é algo que transparece até num daqueles que é, provavelmente, um dos afazeres mais simples de um médico veterinário: dar uma vacina. O tom de voz ideal, a festa no momento certo e já está! A Núria está vacinada e pronta para regressar a casa.

À conversa com a Veterinária Actual, a profissional revela que «sempre gostei de animais e nunca me vi a fazer outra coisa». E foi esta paixão que a levou à Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa.
A Bola de Pêlo é a sua primeira experiência como proprietária. O que a fez tomar a decisão de abrir um espaço seu? Na verdade, «foi a junção de vários factores», responde, explicando que «o facto de ter adquirido experiência que me permitisse pensar que era capaz de estar sozinha à frente de uma clínica e ter passado por várias onde conheci diferentes formas de trabalhar» foi determinante. Não obstante, na balança também pesou o «querer melhorar a minha condição de vida porque, infelizmente, os médicos veterinários não são muito bem pagos e é sempre melhor quando estamos a trabalhar para nós».

Aliás, a precariedade laboral foi algo que experimentou na pele. «Senti que o trabalho era muito precário. Apenas em dois sítios tive contrato de trabalho, de resto foi tudo a recibos verdes, com horários muito irregulares, pois, normalmente, era para preencher “ buracos” nos horários de pessoas que já trabalhavam nessas clínicas há mais tempo». Mas Joana Brito denuncia ainda outra circunstância difícil pela qual teve de passar: «ter de andar a correr de uma clínica para outra para conseguir fazer um número de horas razoável por mês».

Todavia, a profissional de medicina veterinária considera que nem foi das mais penalizadas, visto que «há colegas que ficam sempre com os piores horários, ou seja, são eles que fazem, por exemplo, as urgências… com a agravante de que isto acontece na fase de menor experiência da pessoa. Há muita gente que sai da faculdade, arranja emprego num hospital e tem de estar de serviço às urgências à noite e se calhar ainda não está bem preparada», salienta.

Made by Bola de Pêlo

Joana Brito tem um sócio, o marido, que é engenheiro mecânico. «Um dia propôs-me abrirmos uma clínica», conta, esclarecendo que a sua localização se deve aos factos «de ser perto da zona onde vivo e não ser uma área com uma grande concentração de médicos veterinários. Então, juntei o útil ao agradável e a Bola de Pêlo “nasceu”».
Quanto ao espaço em concreto, a médica veterinária refere que «nós por acaso já tínhamos visto esta loja e na altura até comentei que dava uma bela clínica». Foi então que, segundo a sua proprietária, surgiu a hipótese de o espaço ser comprado.

E esse foi o ponto de partida, pois logo a seguir esta equipa deitou mãos à obra e surgiu o projecto, «que é da autoria do meu marido». O objectivo foi «tentar ao máximo poupar recursos, visto que fizemos isto com as nossas economias».

Para tentar alcançar esta meta da poupança, «as jaulas foram feitas por ele e, por isso, o preço ficou bastante inferior ao de mercado, assim como a mesa do consultório. Nós é que pintamos o espaço e os móveis foram montados por mim e pelo meu pai», ou seja, grande parte da Bola de Pêlo é made by… Bola de Pêlo.

Hoje, passado um ano, a clínica tem ao dispor dos seus clientes serviços de consultas, exames complementares, cirurgias, vacinação, internamento, exames e tosquias, domicílio e urgências.

O “boca-a-boca”

No respeitante à clientela, Joana Brito considera que ultrapassou as suas expectativas. Isto apesar de ser da opinião que «não tenho muitos clientes, porque a clínica tem apenas um ano, ou seja, ainda estou no início. Mas creio que a afluência tem sido normal e, aliás, devo confessar que excedeu as minhas expectativas».

A médica veterinária define os seus clientes como sendo de classe média e, no geral, «seguem as minhas indicações, ou seja, quando peço para virem para fazer follow-up, quando faço marcação de vacinas, etc.». Aliás, esta licenciada em medicina veterinária acredita que «as pessoas procuram cada vez mais os médicos veterinários, não só em busca da medicina curativa, mas também pelo aspecto da prevenção».

Como não pode fazer publicidade, basicamente, foi a Bola de Pêlo que se auto-promoveu, já que «se deu a conhecer aqui no bairro». Para além de um anúncio nas páginas amarelas, «os animais e os seus donos chegam à clínica através do chamado “boca-a-boca”».

Actualmente, «só exerço aqui», diz. Porém, numa fase inicial, «ainda estive dois meses na clínica da colega com quem trabalhava antes de abrir este espaço e ela facilitou-me bastante». Mas, entretanto, «chegou aquele ponto em que fazia aqui falta, porque estava lá e as pessoas telefonavam-me porque viam a clínica e não estava aberta». Foi então que «achei que me devia dedicar a 100% à Bola de Pêlo».

Faz parte dos seus projectos futuros ter cada vez mais clientes, ou seja, «ter trabalho suficiente para me ocupar durante o dia e para, eventualmente, poder contratar um colega para repartirmos o trabalho e poder ter uma maior qualidade de vida, visto que neste momento trabalho de terça-feira a sábado».

A importância do estágio

Joana Brito não tem exactamente uma “especialidade”. «Em Portugal ainda não são reconhecidos colégios de especialidades. Mas há colegas que vão ao estrangeiro formarem-se em determinadas áreas, por cá procuramos ir ao máximo de congressos possíveis e tirar cursos que nos permitam complementar a nossa formação», sublinha.
A médica veterinária diz gostar de cirurgia, no entanto «começo a interessar-me por fisioterapia», confessa, acrescentando que «ainda não é uma área onde as pessoas apostam muito uma especialização». Mas no futuro «espero vir a fazer cursos que me permitam especializar nesta área».

Quando frequentava o ensino universitário a sua intenção era fazer clínica de grandes animais. Neste sentido, estava previsto fazer um estágio no fim do curso, «que acabei por não poder fazer e para não ficar parada consegui um estágio em pequenos animais e acabei por gostar tanto que já não quis tentar grandes animais», revela Joana Brito. Daí que, actualmente, esse sonho parece adiado em definitivo, pois continua sem fazer clínica de grandes animais».

Algo que a surpreendeu pela positiva foi a preparação teórica que recebeu na faculdade, circunstância que constatou a braços com a sua vida profissional. «Ninguém sai preparado da faculdade, por isso o estágio é muito importante», ressalva, acrescentando que «creio que a experiência aí adquirida nos dá o à vontade para continuarmos a crescer profissionalmente. Na faculdade temos uma boa preparação teórica, julgava que não, mas apercebi-me disso ao longo do estágio e à medida que fui progredindo na minha carreira, porque ia-me lembrando do que tinha aprendido».

Não obstante, para Joana Brito, a experiência prática é fundamental: «aprender a fazer cirurgias, pensos, ou mesmo a falar com os donos». Deste modo, algo que também salienta como primordial para o início da vida profissional é o local de estágio, «pois é preciso que contemple todas estas valências e felizmente o meu foi muito bom».

E é exactamente no respeitante à componente prática que defende que o curso de medicina veterinária deveria ter uma estrutura diferente, mais semelhante aos cursos de medicina, «onde as pessoas estudam determinadas matérias, têm logo as aulas práticas e fazem o exame e, ao mesmo tempo, têm estágios relacionados com esse bloco. Nós não temos essa abordagem prática. Em termos de clínica, a única experiência que tivemos foi umas aulas práticas no hospital da faculdade, no último ano, incluídas na cadeira de Clínica de Pequenos Animais, e incluídas na de Clínicas de Espécies Pecuárias tivemos umas aulas práticas nos estábulos… mas é muito pouco», conclui.