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Veterinários portugueses pelo mundo

“Ainda há uma grande divisão e falta de cooperação entre a medicina veterinária e a humana”

Joana Pessoa

Joana Pessoa

Investigadora e doutoranda na Teagasc|Agriculture and Food Development Authority e University College Dublin, na Irlanda, e residente do Colégio Europeu de Saúde Pública Veterinária

Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área?

De momento trabalho em investigação, na República da Irlanda. Estou a fazer o doutoramento em simultâneo com a residência pelo Colégio Europeu de Saúde Pública Veterinária, especificamente a subespecialidade de Medicina das Populações. Penso que a minha história não será diferente da de muitos outros colegas. Também escolhi o curso de Medicina Veterinária com o objetivo de fazer clínica de animais de companhia. No entanto, desde cedo me apercebi que essa área não se adequava ao meu perfil, e o meu interesse pela área da Epidemiologia despertou no segundo ano do curso, nas aulas dessa cadeira, lecionadas, entre outros, pelo professor Telmo Nunes, que foi a quem mais tarde recorri para ser o meu orientador do estágio final de curso. Sempre gostei de descobrir e aprender coisas novas, e esta área não só proporciona isso, como oferece um ambiente multidisciplinar, em que um dia de trabalho nunca é igual ao anterior.

Como e quando é que surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro? 

Tive a oportunidade de fazer o meu estágio final de curso e a dissertação de mestrado na Universidade Técnica da Dinamarca, em Copenhaga, sobre o impacto na saúde pública (humana) de diferentes agentes patogénicos transmitidos por alimentos. Depois disso, ficou ainda mais claro que o passo seguinte seria fazer o doutoramento ou uma residência em saúde pública, e para isso teria de procurar fora de Portugal.

Enquanto doutoranda, qual é o tema da sua tese de doutoramento? O que se encontra a investigar neste momento?

A minha tese de doutoramento está focada na validação e otimização de feedback de tecnologias de precisão (precision livestock farming) e dados provenientes de inspeção sanitária. Especificamente, o meu trabalho foca-se na monitorização de doenças respiratórias em suínos, no período de acabamento.

Como é que é um dia de trabalho normal para si?

Como mencionei anteriormente, tenho a sorte de ter dias muito diversificados. Entre visitas a explorações, matadouros, reuniões de projeto, congressos, workshops e aulas, passo muitos dias fora do escritório. Quando lá estou, o horário de trabalho é das 9 h às 17 h, mas tenho uma grande flexibilidade. Organizo as minhas horas no escritório dependendo da tarefa que irei desempenhar nesse dia. Se precisar de escrever sumários ou artigos, prefiro ir para o escritório quando está mais vazio, ou mesmo trabalhar a partir de casa; se estiver a fazer algo mais mecânico, como análise de dados ou preparar apresentações, um escritório movimentado não me atrapalha.

Como é que foi a adaptação a um trabalho fora de Portugal? Qual foi a principal aprendizagem até agora?

Estarmos longe da família e amigos é sempre complicado. O clima e a comida irlandeses também não ajudam, mas é um país lindíssimo e o povo irlandês tem muitas semelhanças com o nosso. A minha estratégia é vir a Portugal matar saudades assiduamente! Em termos profissionais, não houve adaptação, porque nunca trabalhei em Portugal.

Quais os seus planos para o futuro? Equaciona regressar a Portugal?

Se tudo correr bem, em dois anos estarei a acabar o doutoramento e a residência. Posteriormente, a curto e médio prazo, penso que o meu caminho não passará por Portugal. No entanto, far-me-ia muito feliz ter condições para poder regressar um dia.

Qual o trabalho/projeto que gostaria de desenvolver?

Se voltar para Portugal, será sempre para trabalhar na área académica e de investigação.

De que forma é que o setor de medicina veterinária na Irlanda está a ser afetado pela pandemia de covid-19?

Não trabalho diretamente na área clínica. No entanto, a Irlanda é um país com uma forte vertente económica proveniente do setor pecuário. Dado o estado de confinamento, existem menos visitas veterinárias a explorações. Relativamente à área de inspeção sanitária, os matadouros definiram planos de contingência, em que o acesso por parte de pessoas exteriores ao normal funcionamento das instalações está proibido.

O seu trabalho está muito ligado com a saúde pública. De que forma é que a pandemia veio realçar a importância desta área?

É uma pergunta muito interessante. Não há dúvida de que o setor de medicina veterinária percebe o conceito de “One Health” (“Uma Saúde”) e tem desenvolvido abordagens no intuito de cimentar a importância e impacto da saúde animal na saúde humana. No entanto, em muitos países, ainda há uma grande divisão e falta de cooperação entre a medicina veterinária e a humana. Espero que esta situação que vivemos hoje realce este problema e que seja o ponto de partida para a criação de iniciativas globais mais multidisciplinares.

Que conselhos dá aos recém-licenciados em medicina veterinária que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho em Portugal?

Penso que o principal é falarem com colegas mais velhos, com professores ou qualquer pessoa, conhecida ou não, que saibam que trabalhe na área em que estão interessados. Às vezes há oportunidades que são mal difundidas e dessa forma terão maior probabilidade de tomarem conhecimento delas. Criem uma conta de LinkedIn. Se o objetivo for fazer um doutoramento ou residência, procurem nos sites das universidades, dos colégios europeus e de institutos de investigação. Entretanto, preparem bons CV e tentem alargar as vossas capacidades e área de conhecimento (estágios, cursos online, etc).

*Artigo publicado originalmente na edição de junho de 2020 da VETERINÁRIA ATUAL.

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