A psic’análise da profissão

A psic’análise da profissão

Ao que nos foi possível apurar, são poucos os que conhecem, em Portugal, um estudo referente ao Reino Unido e que revela dados assustadores acerca da taxa de suicídio entre os médicos veterinários. É bom sinal, significa que não têm havido por cá motivos de alerta. Mas quando enveredamos pelas comparações, vêm à tona uma série de problemas e conflitos de classe por resolver, temáticas estruturantes que esperam resposta, corporizadas em perguntas, e mais perguntas, que pendem sobre o sector. Estaremos a formar correctamente as futuras gerações? Qual a percepção que a população tem hoje da profissão? É esta, afinal, uma área sujeita a grandes pressões emocionais? Qual o valor de conceitos como competitividade, concorrência, subemprego? Confira o resultado desta “análise” feita a três.

As conversas, já se sabe, vão-se desenrolando que nem novelo, e quando se vai ver, o início ficou já muito lá atrás. É como quem come cerejas: primeiro é só uma e, no fim das contas, resta uma taça cheia de nada.

Aqui foi quase assim. Quase, porque o nada deu em muito. O ponto de partida era um artigo publicado, em Outubro de 2005, na revista “The Veterinary Record”, da autoria de Richard E. W. Halliwell, do britânico Royal College of Veterinary Surgeons, e Brian D. Hoskin, presidente do Veterinary Benevolent Fund, com o sugestivo título “Reducing the suicide rate among veterinary surgeons: how the profession can help”. Pretendia-se uma discussão em torno deste tema, um possível enquadramento da realidade nacional à luz do descrito neste paper, e para o “debate” “puxámos” três convidados – Carlos Antunes Viegas, do Departamento de Ciências Veterinárias da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; Carlos Godinho, da Sociedade Portuguesa de Ciências Veterinárias; Ricardo Bexiga, doutorando na Universidade de Glasgow, Escócia -, três diferentes experiências, três pontos de vista diversos.

A meio termo, no entanto, as ideias transbordaram a temática, espraiando-se por caminhos tão diversos como a responsabilidade das Escolas na formação dos indivíduos, a capacidade (ou falta dela) dos profissionais para gerirem a sua carreira, as condições oferecidas pelo mercado de trabalho, a concorrência, a competitividade… etc… etc…
Foi assim que aconteceu, e ainda bem que assim foi. Ganhou a revista, ganham os nossos leitores. Mas o assunto, como será óbvio, fica longe de estar esgotado. Prometem-se, pois, novos capítulos!

O ponto de partida

Contam, então, os autores mencionados no seu artigo que há muito eram conhecidas as elevadas taxas de suicídio entre a profissão médica veterinária. Porém, salientam que a realidade traduzida num estudo publicado nessa mesma revista (Mellanby 2005) – que apontava para valores como 3,6 a 3,7 vezes mais que a média nacional do suicídio entre homens e ainda mais elevada entre mulheres, mais do dobro da taxa verificada na profissão médica e perto do dobro da médica dentária -, é bem mais trágica e assustadora do que à partida se podia imaginar.

Perante tal cenário, sentiram-se os autores na responsabilidade de esmiuçar um rol de propostas, filtradas de um conjunto de recomendações elaboradas no decorrer de uma série de reuniões no Royal College of Veterinary Surgeons, todas com um objectivo comum: reduzir o impacto de factores predisponentes e melhorar significativamente a disponibilidade de mecanismos de suporte aos profissionais em risco.

Sem esquecer a geografia, já que o universo amostrado nos estudos é referente ao Reino Unido, explanam Halliwell e Hoskin razões que poderão estar por trás das elevadas taxas de suicídio observadas entre a classe. Primeiro, falam na demonstração de uma relação entre o suicídio e valores elevados de QI (Voracek 2004), factor que vulnerabiliza, à partida, a profissão – apenas são admitidos nos cursos alunos com elevadíssimas médias -, ao que acresce a enorme exigência dos currículos, a qual, por seu turno, promove, ainda que involuntariamente, o atrofio do desenvolvimento comunicacional e compromete a maturidade emocional, mais ainda, sublinham, que os cursos de Medicina. A isto soma-se a saída abrupta dos recém-licenciados do ambiente aconchegado e protector da Universidade, para o isolamento a que os vota a prática profissional, ela própria altamente pressionante, conforme foi notado num inquérito conduzido por Mellanby e Herrtage (2004), em que apenas 43% dos jovens profissionais afirmam contar sempre com o apoio de outros médicos veterinários. Finalmente, os autores referem a muito frequente prática da eutanásia em pacientes, e a óbvia proximidade dos profissionais com agentes químicos letais, para além de alertarem para a evidência produzida de que eutanasiar animais pode influenciar o modo como se encara o valor sagrado da vida humana – num estudo, Kirwan (2005) revela que 93% dos veterinários inquiridos afirmavam que praticariam a eutanásia em humanos, em contraste com apenas 33% dos médicos.

Depois de desenhado o cenário, Halliwell e Hoskin propõem várias acções, papeis a desempenhar por vários actores, alguns por todos. Começam por sugerir a definição de um currículo académico estruturado para equipar os estudantes de capacidades de relativização e que lhes incuta, desde o primeiro momento, um conceito de harmonia entre trabalho e vida pessoal. Seguem defendendo que as escolas deverão preparar-se para apoiar os graduados no salto para o mercado de trabalho, encontrando formas de lhes conceder melhor orientação e apoio na escolha do seu primeiro emprego e de os monitorizar no decorrer dos anos iniciais das suas carreiras. Instam os mais velhos a assumir maior responsabilidade na orientação e suporte aos recém-chegados à profissão e apelam a uma maior sensibilidade por parte da classe para os sinais de perigo, enfatizando a ampla prova de que trazer estes assuntos para a luz do dia é de grande ajuda na prevenção do suicídio. Finalmente, invocam a criação de mecanismos centralizados de suporte no seio da profissão. Isto é, relembramos, no Reino Unido. Ora bem, e em Portugal?

Profissão com fronteiras

Para Carlos Godinho, importa primeiramente estabelecer um comparativo diferencial entre as duas realidades. Sublinha, por isso, que no “reino de sua majestade” «a organização dos serviços, e da própria profissão, segue um modelo distinto do que conhecemos nacionalmente, a vários níveis, nomeadamente ao nível das clínicas, da inspecção sanitária… o que acarreta, consequentemente, uma competitividade diferente. Por exemplo, ao nível da inspecção sanitária, os nossos inspectores são funcionários do Estado e têm uma lógica de trabalho que tem subjacente a aplicação da lei, ao passo que em Inglaterra este serviço é prestado por empresas privadas». Também no caso das clínicas veterinárias a organização é desigual: «enquanto cá começamos apenas agora a assistir a espaços com um corpo clínico composto por um número razoável de veterinários, em Inglaterra isso é comum desde há muitos anos, havendo casos em que se conjuga a prática da clínica rural com a de animais de companhia, englobando, num mesmo local, conjuntos de 20 a 30 pessoas. A competitividade é naturalmente diferente em ambos os países, o que gera, portanto, pressões discrepantes».

Marcada a devida distância, aliás mencionada por todos os intervenientes nesta peça, a verdade é que, nos múltiplos contactos que estabelecemos, denotámos uma forte estranheza relativamente à temática abordada, a qual tantas repercussões teve lá fora, evidenciando que o suicídio em Portugal não é, aparentemente e pelo menos no seio da classe veterinária, felizmente, motivo de grande preocupação. Não obstante, sublinha Carlos Viegas, o facto é que «os nossos sociólogos ainda não produziram nenhum estudo acerca deste assunto», ficando, pois, por saber, se esta realidade «será, ou não, assim tão extrapolável». Inquestionável parece ser o carácter assustador dos valores encontrados e a urgência que imprimem numa discussão em torno do assunto.

Para o professor da UTMAD, «há que reconhecer que existe um conjunto de factores que influem na nossa sociedade para que haja, pelo menos, um maior número de pressões nesta profissão».

«Estamos nas trevas!»

Para começar, diz, corroborado por Carlos Godinho, «a maior parte dos jovens que vem para Veterinária – entre 60 a 70% -, fá-lo em segunda escolha, o que constitui, logo à partida, um motivo de frustração». Depois, «a competitividade académica é hoje muito grande e noto que os jovens são muito mais stressados. Tenho, inclusive, alunos que mostram sinais preocupantes de depressão, assisto a muitas desistências logo no primeiro ano e a muitos casos de alunos que nem sequer conseguem frequentar o curso».

Ricardo Bexiga comenta, a propósito, que «pelo que me foi dado a conhecer quando fiz o curso em Portugal e durante o período que passei no Reino Unido, isso é verdade nalguns casos em Portugal, mas não no Reino Unido. Aí a selecção dos alunos inclui entrevistas aos candidatos e avaliação dos “estágios” que realizaram antes da candidatura. Isto garante, de alguma forma, que as motivações das pessoas são as melhores». Fica aqui uma sugestão, talvez.

A contribuir para esta situação, continua Carlos Viegas, estão os métodos de avaliação utilizados nas faculdades de Medicina Veterinária, «na sua generalidade imutáveis, medievais, inquisitoriais, que provocam um grande sofrimento às pessoas – são as orais, as práticas, os exames de necropsia, as lâminas… Julgo, frequentemente, que se busca um motivo para reprovar o aluno. Estamos nas trevas», comenta, acrescentando que «muitos queixam-se que têm um horário terrível e, efectivamente, são cerca de 42 horas semanais, o que é uma enormidade para quem ainda vai para casa trabalhar. Nestas idades, isto é asfixiante».

A distância entre professores e alunos é outro factor que aponta, o que é lamentável, pois como acredita Ricardo Bexiga, «os docentes podem ter um impacto elevado nas escolhas dos alunos, na sua atitude profissional futura, no seu sentido de responsabilidade e autoconfiança. E, reciprocamente, os estudantes também devem, de certa forma, condicionar a atitude dos professores».

Veterinária e futebol

Carlos Viegas fala da sua experiência e diz que, «desde que comecei a trabalhar no Ensino que alerto que os veterinários são um grupo profissional muito complicado. Grande parte dos alunos só se manifesta sobre a matéria curricular, futebol e pouco mais! Falta dar-lhes, a meu ver, um pouco mais de vida, proporcionar-lhes o contacto com outras experiências, algo que os currículos, actualmente, não permitem, porque afogam as pessoas com tanto conhecimento». Para si, «era importante que houvesse cadeiras de livre eleição, onde se pudesse, por exemplo, frequentar belas artes, ou sociologia… algo que precisassem para se completar enquanto indivíduos, porque tão importante quanto a técnica é o enriquecimento humano nas suas várias dimensões, e essa é uma responsabilidade que não vejo ser assumida pela Universidade; pelo contrário, noto uma quase dormência. Depois, claro, surgem as patologias, porque os estudantes não podem, não conseguem, desfrutar a vida em toda a sua plenitude».

Embora não discordando totalmente, Carlos Godinho opta, no entanto, por desdramatizar esta questão. Para o também presidente da SPCV, há, de facto, uma sobrecarga horária e um investimento de tempo em trabalho académico, pelo que é natural que os estudantes sintam alguma perturbação na sua vida pessoal, mas «não sei se este será um aspecto assim tão relevante na Medicina Veterinária, ao ponto de merecer um carácter diferenciador. No fundo, todos sabemos que um curso superior é uma fase que implica dedicação e julgo que a gestão do tempo depende principalmente de cada um».

Já no que concerne à criação de cadeiras opcionais, afirma que para cada um dos seis cursos de Medicina Veterinária existe um currículo diferente, pelo que «não devemos generalizar». Para além disso, adianta que «seria difícil arranjar um leque tão variado de cadeiras opcionais, até porque não há facilidade para ter tantos docentes com níveis aceitáveis para leccionar essas cadeiras». Mas, conceptualmente, concorda com o princípio e, de resto, «o próprio Processo de Bolonha impõe isso: há um conjunto de cadeiras básicas e depois o aluno compõe o seu currículo com cadeiras opcionais».

Para Ricardo Bexiga, mais que a criação de disciplinas de eleição pessoal, seria importante que fossem introduzidas «aulas que preparassem os futuros veterinários para lidar melhor com certas situações. Na instituição em que trabalho, por exemplo, os alunos têm aulas de “communication skills,” que não sendo uma área estritamente técnica, é essencial para lidar com o público e não só». No entanto, reforça, «a “educação do Homem”» não é feita, não se pode ficar, «pela adição de disciplinas aos currículos».

Precisam-se bússolas!

Carlos Godinho introduz no debate o Processo de Bolonha. «Temos que considerar o que está a acontecer nesta altura, com a transição do sistema de Ensino que tínhamos para o proposto por Bolonha, incluindo os aspectos relacionados com a avaliação. Nos sistemas tradicionais, e não exclusivos da área da Veterinária, há uma carga horária às vezes um bocadinho mais importante em termos de aulas, o que não deixa, se calhar, muito tempo para os alunos, mas com Bolonha, tanto quanto sei, pretende-se retirar peso a esses horários, obrigando os estudantes a fazer muito mais trabalho por fora, em casa, de grupo, de investigação, de preparação… Isto vai permitir, confio, uma maior gestão do tempo disponível».

Carlos Viegas menciona ainda a criação da figura do tutor dos alunos, que Godinho vê com bons olhos, especialmente «se for realmente útil na orientação dos estudantes para o seu futuro profissional». Sim, porque, defende, «uma das grandes dificuldades actuais é que, quando as pessoas estão em plena formação, são confrontadas com um conjunto de opções profissionais que inicialmente desconheciam e a selecção apresenta-se como um desafio, pela ignorância acerca de como se constituem exactamente essas áreas. Se o tutor conseguir funcionar como bússola, só por isto já valerá a pena».

Marialvas de patilha grande

A passagem para o mercado de trabalho constitui, de facto, e conforme apontam Halliwell e Hoskin, um momento crucial na vida dos médicos veterinários recém-formados, sendo fonte de grande ansiedade. Mas será que existem, em Portugal, motivos para angústia neste sector? As opiniões distanciam-se.

Carlos Godinho, o mais optimista, considera que, embora se comecem agora a perceber alguns laivos de subemprego, «já que há uma oferta de licenciados maior do que a procura, ainda estamos numa fase não muito exigente. Para além disto, existe uma boa receptividade por parte dos colegas mais velhos, pelo que a relação entre gerações é perfeitamente pacífica».

Carlos Viegas, por seu turno, defende que «existe uma grande competitividade, as pessoas têm horários de trabalho brutais, são muito mal pagas e não vêem recompensado o esforço que fizeram». Acresce o embate cru com a percepção de que a profissão, segundo afiança, «não é bem vista. A imagem que se tem do médico veterinário é bastante regional, distanciada das boas práticas europeias e do resto do mundo; é a do marialva de patilha grande, que gosta muito de uma “bebidinha”, que opera à noite e vai fumando um cigarro e falando ao telefone enquanto faz a higiene de uma cavidade oral». A culpa, assume, «é, no fundo, um pouco de todos nós. As pessoas não se empenham em mostrar algo diferente, e a Ordem e outras associações da classe estão muito adormecidas, agem quase como sociedades secretas, pouco fazendo para alterar a opinião pública de que esta é uma profissão encerrada nos anos 50 e, infelizmente, a verdade é que uma grande fatia dos veterinários ainda lá está!».

E continua, referindo a sua tristeza quando tantas vezes vê na Comunicação Social veterinários a fazer eutanásias nas câmaras municipais, «com aquela crueldade! É esta a imagem que passa da profissão para a sociedade! A Ordem deveria ter a preocupação de fazer todo um trabalho de marketing para alterar as percepções acerca desta classe».

Onde param as relações públicas?

Carlos Godinho prefere ponderar as palavras: «diria antes que a profissão não se soube valorizar ao longo dos anos, tendo sido conotada durante muito tempo com os animais de produção, pelo que havia um pouco aquela noção do João Semana, do veterinário de província. Falhámos, todos, na transmissão do que é hoje a nossa capacidade técnica e de intervenção e temos, todos, de desenvolver um trabalho no sentido contrário. Mas é evidente que a profissão é corporizada nas instituições que a representam, nomeadamente na própria Ordem, a qual, em primeira análise – ao invés das sociedades científicas -, tem o papel de transparecer para a população geral aquilo que é o contributo dos profissionais que representa, ou seja, tem de assumir a função de relações públicas da profissão».

Não obstante, acredita o professor Viegas que a sociedade está disposta a aceitar uma profissão diferente daquela que se habituou a considerar. «Sei que às vezes é frustrante, porque as vias de diálogo ainda não são muito fluidas, mas havendo o estímulo certo, a capacidade interventiva dos médicos veterinários será certamente reconhecida. Para mim, as gerações futuras são sempre incomparavelmente melhores que as antigas, e embora tenham de enfrentar novos desafios, estão também certamente melhor preparadas para o fazer».

Um salto de anos-luz

O contraponto chega com Ricardo Bexiga. No Reino Unido, testemunha, «a profissão recolhe uma melhor imagem junto da sociedade em geral, mas igualmente as falhas profissionais podem ter consequências legais mais graves. As clínicas são geralmente de maior dimensão, permitindo que cada veterinário trabalhe menor número de dias fora de horas (urgências) e, potencialmente, com mais apoio entre colegas. Têm frequentemente uma parte dedicada a animais de estimação e outra a espécies pecuárias, bem como uma farmácia veterinária, que garantem a viabilidade financeira do negócio. As associações profissionais são mais activas na protecção dos veterinários e na melhoria da classe em geral. No Reino Unido não existe subemprego junto dos veterinários mais jovens, que têm condições de estabilidade laboral e a recompensa financeira que merecem».

O real valor do trabalho

E qual pescadinha de rabo na boca, chegamos ao ponto de onde tínhamos partido. Acreditam os intervenientes que a profissão está sujeita a pressões tais que possam interferir no modo como encara a vida de um modo geral? Por exemplo, o facto de se lidar de perto com a eutanásia pode, de facto, levar a que se olhe para a vida de uma perspectiva diferente?

Ricardo Bexiga faz a ponte com o estudo britânico e começa por referir que «o suicídio entre a classe é um problema complexo e de difícil resolução», mas «não é um assunto novo, e seria interessante saber o que se passa, por exemplo, em relação a divórcios dentro desta classe profissional. A Veterinária pode ser uma profissão muito absorvente em termos de tempo e dedicação, mas que pode trazer muitas recompensas. No entanto, é frequentemente colocada antes da família e dos amigos, o que a longo prazo pode significar consequências negativas. É igualmente uma profissão em que continuamente se está a aprender e onde e impossível não cometer erros, o que também pode ser difícil de encarar». Para além disto, reforça, «o ambiente é hoje muito competitivo, o que, se por um lado, fomenta que muitos colegas procurem melhorar a sua formação e expandir os seus conhecimentos, por outro, infelizmente, suscita por vezes comportamentos menos éticos».

Carlos Viegas concorda que «há hoje mais ambição, coexistindo uma fraca preparação das pessoas para darem ao trabalho o valor que ele realmente tem, o que não é saudável», lamenta.

Insensíveis ao sofrimento?

Quanto à mencionada eutanásia, «e a outros assuntos por vezes mais delicados», a sua opinião acerca do modo como a profissão lida com ela fica um pouco ao lado do defendido pelos autores do estudo. «Desde que uma pessoa seja emocionalmente bem preparada e equilibrada, saberá certamente fazer a gestão pessoal dessas situações. Mais relevante parece-me o facto de que os médicos veterinários não estão capacitados para lidar com os proprietários de um animal eutanasiado. Julgo que há pouca sensibilidade para estas questões e, pelo contrário, tenho observado que os profissionais não sofrem e julgam ridículo o sofrimento dos outros. Sei que estou a ser um pouco duro nas palavras, mas esta é a realidade que tenho constatado: as pessoas são muito insensíveis ao sofrimento dos animais e dos próprios proprietários. Há aqui, portanto, muito trabalho a fazer».

«Mas se houver uma maior tendência para o suicídio nesta classe», declara, «ela deriva das muitas depressões, essas sim existentes e tratadas com fármacos que são, muitos deles, pró-suicídio».

Para Carlos Godinho não é com ligeireza que os médicos veterinários eutanasiam um animal, mas é óbvio «que encaram a situação com alguma tranquilidade, afinal é algo decorrente da sua própria vida profissional. Não obstante, acredito que todos entendem, principalmente quando falamos de animais de companhia, que estão implicados também laços afectivos importantes». A sensibilidade e sensibilidades sobre o tema são, conforme se constata, muito subjectivas.

E pronto, o prometido é devido, por isso encerramos aqui este debate, deixando mais portas abertas que fechadas, vias desimpedidas a futuras e mais aprofundadas discussões sobre a profissão. O importante, parece-nos, é fomentar o debate sobre os diversos pontos de vista que coexistem e que, encerrados em casulos, pouco podem contribuir para a evolução.