O interesse de Bárbara Traça foram sempre os animais de produção, mas a vida encaminhou-a para a prática clínica de animais de companhia. Abriu o Centro Veterinário Olival Basto há quase uma década e desde então conseguiu “pôr o bairro em ordem”, apostando na prevenção, e testemunhou na primeira pessoa a alteração demográfica que trouxe novos clientes e novos animais de companhia a esta periferia de Lisboa.
O Centro Veterinário Olival Basto cuida da saúde de animais de companhia, mas é mais do que um consultório veterinário. A história deste centro de atendimento médico-veterinário (CAMV) fala muito do que é a vida em comunidade, do sentido de pertença a um bairro e também espelha a evolução que os centros urbanos e os respetivos arredores viveram nos últimos anos.
E tudo isto se passa a partir de um espaço relativamente pequeno, com cerca de 50 m2, às portas de Lisboa, numa zona de fronteira no final da Calçada de Carriche, onde a cidade termina e começa a raia da antiga região saloia de Loures e Odivelas. A diretora clínica do CAMV conta à VETERINÁRIA ATUAL que este projeto começou a ser pensado em 2017. “Na altura, eu e a minha sócia chegámos a ter em vista uma loja com quase 200 metros quadrados, mas, na realidade, não tínhamos aquela ambição de ter um grande hospital, com muitos consultórios e casuística de última geração”, lembra a responsável, explicando de seguida que “estas instalações, apesar de serem bem mais pequenas, ficam na rua principal [do bairro de Olival de Basto] e têm mais visibilidade”, por ficarem no acesso direto a Lisboa e facilmente serem vistas pelas pessoas que transitam entre a vida de trabalho na capital e as zonas de habitação em Loures, Odivelas, Sacavém ou Amadora.
Depois de quase um ano de obras de adaptação, o Centro Veterinário Olival Basto abriu em 2018 neste pequeno espaço, que anteriormente até tinha sido um talho e desse tempo, manteve-se a estrutura com duas portas de entrada aproveitando para diferenciar a atividade: uma dá para o espaço onde se realizam os banhos, tosquias e todo o grooming de animais de companhia, a outra dá para a clínica propriamente dita. A planta do CAMV é simples, com uma pequena receção onde se destaca a tradicional balança para pesar os animais, um consultório, uma sala de cirurgia – posteriormente dividida para receber um pequeno laboratório de análises clínicas – ligada ao internamento no qual são feitos os recobros cirúrgicos e uma sala de raio X.
De uma desilusão, nasceu outra paixão
A escolha do espaço não foi, de todo, ao acaso. Bárbara Traça conhece aquelas ruas desde que se lembra de ser gente. A avó residia em Olival de Basto, fazia e vendia rissóis para a vizinhança, e todos foram acompanhando o percurso da menina até ela se formar, em 2010, em medicina veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa.
Porém, o caminho desejado pela jovem não era a clínica de animais de companhia. “Eu sempre gostei da pecuária, da produção animal e a ideia era começar a fazer clínica de grandes animais”, recorda a diretora clínica. O caminho não foi fácil, não o é principalmente “para quem cresce fora do meio da pecuária”, e em algumas entrevistas admite até que chegaram a torcer o nariz por ser uma mulher a querer trabalhar com animais de grande porte. Desiludida com a falta de oportunidades virou-se para os animais de companhia, numa altura em que tudo era diferente: a medicina veterinária tinha menos meios, menos respostas clínicas e as autarquias ainda não tinham começado a pôr em prática os programa CED (Capturar-Esterilizar-Devolver).
Começou por exercer numa clínica na zona da Ericeira que trabalhava conjuntamente com associações de proteção animal, sobretudo inglesas e alemãs, a fazer a medicina de abrigo, que, anos mais tarde, passou a ser assumida pelos centros de recolha animal. Ganhou traquejo e experiência em cirurgias eletivas, nomeadamente esterilizações/castrações, em medicina de prevenção e no tradicional desenrasque tão português, “porque trabalhava sozinha e não tinha colegas a quem pedir ajuda”.
Se a medicina de abrigo é hoje muito exigente, naquele tempo mais difícil era. Os casos são quase sempre muito complicados, o dinheiro não abunda, e quando se procuram soluções para tumores ou para cirurgias ortopédicas de animais atropelados ouve-se regularmente que não há fundos, que é um caso terminal, que o melhor é eutanasiar. “Mas, também são animais que não têm tutor, ou seja, não têm expetativas, então tudo o que fizéssemos ia ajudá-los, testando o que resultava em cada caso”, explica Bárbara Traça. Por isso, com o apoio das associações estrangeiras, com muitas tentativas e erros e com tratamentos paliativos, alguns casos tiveram sucesso, como o cão atropelado que foi enviado a três médicos veterinários com diferenciação em Ortopedia e voltou sempre com um prognóstico de não intervenção. O futuro esperado seria a eutanásia, mas não desistiram dele. A médica veterinária lembra-se bem dele, de como com suplementação, com tratamento sintomático e fisioterapia básica – que se entende por “quando chegava de manhã mexia as patas dele, ajudava-o a andar, misturava-o com os outros cães e no início ele apenas se arrastava”, conta – apesar de nunca ter recuperado a 100%, o cão readquiriu a marcha e foi adotado por uma associação estrangeira.
Hoje, histórias como esta acabam por a fazer reconhecer que começou “a olhar uma clínica de pequenos animais de outra maneira. Saí da faculdade a dizer que que faria qualquer coisa menos clínica de pequenos animais, mas conheci esse outro lado da clínica e ainda hoje gosto muito de medicina de abrigo”.
“Saí da faculdade a dizer que que faria qualquer coisa menos clínica de pequenos animais, mas conheci esse outro lado da clínica e ainda hoje gosto muito de medicina de abrigo”
Ainda assim, não esmoreceu a vontade de trabalhar com a veterinária de produção. Depois dessa experiência passou por um CAMV na Moita com atividade mista e aprofundou os conhecimentos de gestão, trabalhou numa loja de animais exóticos e aproveitou para terminar a pós-graduação nessas espécies, e passou pelos Açores enquanto tentava entrar na função pública. Foi por essa altura que começou a pensar em dividir o tempo entre a atividade de inspeção veterinária e a clínica de animais de companhia.
“Pôr o bairro em ordem” pelas mãos de quem o conhece
Regressada ao Continente, a médica veterinária sente a pressão dos vizinhos da avó para ser a médica veterinária dos animais do bairro. Conheciam-na desde pequena, confiavam nela e sentiam-se muito desprotegidos em relação aos cuidados veterinários nas redondezas. Não existia nada naquele bairro, as visitas ao médico veterinário em Odivelas ou em Lisboa exigiam muitas vezes o aluguer de táxi e os idosos nem sempre tinham capacidade financeira para mais essa despesa.
Com a experiência que ganhou, com um novo olhar para a medicina de animais de companhia e com as necessidades que observava na comunidade que a viu crescer, reuniram-se as condições para fazer nascer o Centro Veterinário Olival Basto. Inicialmente, Bárbara e a sócia começaram a trabalhar cada uma a 50% do tempo na clínica, até porque a atual diretora clínica, entretanto, entrou para os quadros da Câmara Municipal de Almada para continuar na medicina veterinária de abrigo. Nos primeiros anos de atividade, o CAMV colaborou com muitas associações nesse âmbito, mas depois os municípios assumiram a política de controlo e bem-estar animal, e a equipa – composta pelas duas sócias e uma auxiliar – começou a fidelizar clientes nas redondezas. “Tínhamos mais o cliente idoso, que pela conjuntura do local, negligenciava um pouco as profilaxias. Então, houve uma fase inicial em que tivemos de pôr o bairro em ordem em termos de microchips, vacinas, desparasitações”, conta Bárbara Traça, admitindo que “houve bastante adesão das pessoas, primeiro porque me conheciam, depois porque passaram a ter uma clínica à qual podiam levar o cão a pé”.
“Houve uma fase inicial em que tivemos de pôr o bairro em ordem em termos de microchips, vacinas, desparasitações”
Passados dois anos, veio a pandemia por Covid-19 e o contexto do Olival de Basto começou a mudar. Muitos idosos faleceram, o bairro começou a receber gente nova atraída pela localização às portas de Lisboa, com o metro do Sr. Roubado a poucos minutos de distância, pelas casas a preços mais baixos que os da capital, algumas delas até com quintal, e até uma nova urbanização nasceu ao lado da clínica, num espaço que antes funcionava como fábrica.
Medicina preventiva é a grande aposta
Famílias mais jovens começaram a entrar pela porta CAMV e com eles chegaram também mais gatos, já que anteriormente a maioria dos tutores tinha cães, e novas formas de encarar a medicina veterinária. Bárbara Traça também abriu novamente os horizontes: “Descobri que gosto muito de clínica e gosto muito da parte preventiva. Dá muito trabalho, porque os clientes não aderem logo. Como não se trata de situações urgentes, às vezes temos de dizer a mesma coisa várias vezes. A pessoa vem vacinar o animal e reforçamos, vem desparasitar e voltamos a reforçar, dá mais trabalho. Mas, no fundo, queremos apostar muito na medicina de prevenção e há também outra área da medicina veterinária que também gosto muito que é a nutracêutica”. Dá o exemplo de casos de animais com doença oncológica vistos na semana anterior à conversa com a VETERINÁRIA ATUAL, em que os tutores decidiram não fazer quimioterapia e apostaram numa abordagem paliativa com nutracêuticos, imunomoduladores, suplementos de ómegas e canabinoides, mesmo que isso implique gastos de algumas centenas de euros.
Os mais velhos que continuam a frequentar a clínica levantam outros desafios. É certo que estão menos despertos para a medicina preventiva e até podem ter menos condições financeiras, mas a maior preocupação de Bárbara Traça com esta população “nem são tanto os custos”, pois muitos olham para o animal como família, por serem a única companhia diária que têm. Conhece-os bem, muitos são da geração da avó, e com o avanço da idade a diretora clínica nota “que têm maior dificuldade em dar medicação diariamente e às vezes até se esquecem da medicação deles próprios. Têm de ser os filhos a lembrá-los todos os dias. Acho que não é tanto má vontade ou mentalidade, é mesmo uma dificuldade que os meus clientes com mais alguma idade têm em administrar a medicação aos seus animais”.
A equipa também mudou. A sócia decidiu sair do projeto, Bárbara ficou na direção clínica e reparte o tempo entre várias atividades. Está a fazer um doutoramento em agronegócio, vai em breve começar a trabalhar na Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural e está a meio-tempo no CAMV. “Estou na clínica a part-time e para já não tenciono deixar de fazer clínica”, admite, mesmo que em perspetiva esteja agora uma porta aberta pelo doutoramento para a sua primeira área de interesse.
Hoje, a diretora clínica tem a acompanhá-la no CAMV a estagiária de medicina veterinária Elisa Semedo, que de momento atua como enfermeira veterinária, e a auxiliar Sara Ferreira, que também faz a parte de tosquias. O médico veterinário Miguel Sena faz em regime de ambulatório as cirurgias programadas e cuida dos recobros e a equipa da Ecardio desloca-se ao CAMV sempre que a situação clínica de um animal o exige ecografias abdominais ou ecocardiogramas.
Quando o quadro clínico é urgente, carece de internamento com vigilância 24 horas ou exige conhecimentos mais diferenciados, a equipa do CAMV referencia para quem pode melhor ajudar os clientes. A médica veterinária conta que já chegou ela própria a levar um cão para ser intervencionado no centro de cirurgia de Loures e trouxe-o para fazer o pós-operatório na clínica. Quem diz Loures, diz o hospital veterinário em Telheiras, na Ramada, em Frielas ou mesmo o Hospital Escolar Veterinário da FMV, pois, reconhece, “acho que o boom dos hospitais veterinários tem que servir para alguma coisa, nem que seja para dar algum descanso aos colegas das clínicas”.
Para a clínica continuarão a ficar os cuidados de proximidade, com a confiança de quem conhece desde sempre muitos dos clientes que lhe entram pela porta. O Centro Veterinário Olival de Basto nasceu para a comunidade e quer continuar a ser o local dos cuidados do médico veterinário da família, sejam ela mais antiga ou recém-chegada ao bairro.
Posto de venda de medicamentos veterinários: Um investimento que “está parado”Há cerca de dois anos, Bárbara Traça decidiu legalizar o CAMV como posto de venda de medicamentos veterinários, no decurso do Regulamento de Medicamentos Veterinários que alterou as regras para a autorização, utilização e venda de medicamentos para a medicina veterinária na União Europeia.Foi um investimento que rondou os 10 mil euros, que exigiu a legalização de um diretor técnico do posto de venda que não podia exercer clínica, mas “é um investimento que está parado”, admite a responsável do CAMV. Existem regras muito apertadas na venda e na manutenção do posto de venda e há exigências legais relativamente à dispensa dos medicamentos. Todavia, muitos clínicos ainda não se adaptaram a essas regras, não adaptaram a forma de prescrição farmacológica ao novo modelo legal de receitas – que têm de incluir uma declaração de uso em “cascata”, indicando se o medicamento é para uso humano ou animal – o que impede, depois, que quem se dirige ao CAMV levante a medicação. “A pessoa fica extremamente frustrada porque eu não posso vender aquilo ao balcão [por exemplo, receituário emitido manualmente]”, admite Bárbara Traça, pelo menos da forma como foi prescrita.
Depois, existem os clientes que tentam comprar desparasitantes internos ao balcão, mas a médica veterinária diz que só pode fazê-lo com receita médica ou administrar essa medicação durante uma consulta de desparasitação e “as pessoas ficam extremamente zangadas porque sabem que existem colegas que os vendem ao balcão”, numa situação que não está conforme o quadro legal em vigor.
Mais fiscalização e controlo é o que Bárbara Traça diz que vai pedir numa reunião com a Direção-Geral da Alimentação e Veterinária [DGAV] de forma que as regras passem a ser respeitadas por todo o mercado.
A clínica até já deu formação sobre postos de venda de medicamentos veterinários a colegas, “que depois acabaram por não avançar com o posto de venda porque começaram a perceber as limitações que isto tinha”. “Existe uma grande burocracia por trás, que obriga a muito investimento e a muitos recursos humanos, e depois não é recompensado financeiramente porque não há esse controlo por parte da DGAV”, do cumprimento do quadro legal por parte das clínicas veterinárias, reconhece.

Direitos reservados 



