Duas jovens médicas veterinárias estão à frente deste centro de atendimento médico-veterinário (CAMV) que deseja ser uma equipa de saúde familiar para os animais de companhia. De portas abertas desde 2018, o Centro Veterinário da Aroeira deu uma nova vida a um espaço que já existia e tem vindo, paulatinamente, a crescer em atividade, na variedade de serviços prestados e nos membros que compõem a equipa. Uma história que tem acontecido sob o olhar (mais ou menos) atento do Zé e da Amora.
O destino dá muitas voltas. De facto, a expressão é um cliché e como todo o lugar-comum denota alguma falta de originalidade, mas, neste caso, assenta como uma luva (novo cliché) na história do Centro Veterinário da Aroeira.
Marta Fonseca e Mafalda Ribeiro foram vivendo vidas em paralelo, frequentando os mesmos lugares sem nunca se cruzarem. Ambas foram voluntárias no Canil da Aroeira, no concelho de Almada, mas em alturas diferentes, e as duas fizeram a mesma edição de um curso de reabilitação animal sem nunca terem convivido. Só quando Marta Fonseca decidiu embarcar na “aventura” de criar este espaço, como a própria designa várias vezes na conversa com a VETERINÁRIA ATUAL, é que os seus caminhos se cruzaram.
Começando pelo princípio. Marta Fonseca formou-se em Biologia na Universidade Lusófona e queria seguir o caminho da ilustração científica, mas durante o mestrado percebeu que a paixão que lhe guiava a vida era a medicina veterinária e acabou por se licenciar também como médica veterinária na mesma universidade. Quando procurava exercer a profissão, depara-se com um anúncio de venda das instalações do CAMV – que já funcionava como consultório veterinário – situado na Aroeira, localidade na margem sul do Tejo que combina a pacatez de uma zona habitacional com a movimentação da população flutuante que vem passar os meses mais quentes nas praias da Costa da Caparica.
Como até vivia nos arredores, a médica veterinária resolveu fazer a tradicional visita de prospeção que acabaria por lhe mudar a vida.
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A antiga clínica já estava fechada há cerca de dois anos, tinha perdido as licenças necessárias para o funcionamento e, por esse motivo, depois de comprar o espaço Marta Fonseca teve de se emaranhar na trabalhosa burocracia para abrir atividade, adaptar o espaço às novas exigências legais da prática clínica e, claro, partir para a seleção da equipa que a acompanharia “nesta aventura”, como lhe volta a chamar. “Tivemos mesmo de começar do zero, porque o antigo proprietário não tinha feito as alterações [ao espaço] que a legislação passou a exigir e a clínica também estava muito degradada. Precisava mesmo de obras”, recorda.
É nesse momento que Mafalda Ribeiro entra na história deste CAMV. Acabada de sair da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, ainda a aguardar a cédula da Ordem dos Médicos Veterinários, vai à entrevista com a proprietária do espaço, sai de lá com o primeiro emprego garantido e hoje é a diretora clínica do CAMV. “Sempre quis entrar num sítio e criar um projeto de início”, conta à VETERINÁRIA ATUAL, reforçando de seguida: “É muito gratificante começar a criar a nossa carteira de clientes e a criar confiança com as pessoas. Obviamente, tem os seus desafios, mas é muito giro”.
  “É muito gratificante começar a criar a nossa carteira de clientes e a criar confiança com as pessoas. Obviamente, tem os seus desafios, mas é muito giro”
Mafalda Ribeiro, médica veterinária e gerente
Abriram as portas em 2018 apenas com um consultório operacional no rés-do-chão, uma sala de cirurgia, um laboratório equipado para as análises bioquímicas básicas, uma equipa de três elementos – as duas médicas veterinárias e uma auxiliar – e um ambiente familiar para as profissionais e clientes, que desejam preservar ainda nos dias de hoje.
Lembram-se bem do primeiro dia de trabalho. Da ansiedade, dos preparativos que duraram até breves minutos antes de as portas se abrirem e também da curiosidade que despertaram na vizinhança. Numa zona residencial onde proliferam as vivendas unifamiliares, muitas são as casas onde existem animais de companhia e algumas famílias já eram clientes dos anteriores proprietários daquele espaço. Num primeiro momento, muitos dos vizinhos pensaram ser uma continuação do anterior projeto. “Os clientes mais velhotes foram os mais curiosos e os primeiros a aparecer”, recorda Mafalda Ribeiro que ainda tem bem presente a primeira consulta que realizou: “Foi um cão, um Yorkshire, que veio para uma consulta vacinal. O cãozinho já faleceu, mas a tutora continua a ser nossa cliente”.
Aliás, a equipa mantém muitos clientes desde os primeiros dias de atividade e até alguns que eram seguidos pelo anterior proprietário do espaço são hoje acompanhados no Centro Veterinário da Aroeira. A procura, relata Mafalda Ribeiro, é a de tutores que pretendem ter “um médico veterinário de família. Conhecemos os clientes, as famílias e a comunidade aqui à volta. Reparamos que muitas pessoas nos recomendam a amigos, funcionamos muito com o passa-palavra, e percebemos que os nossos clientes se conhecem uns aos outros. Procuramos ter um atendimento próximo e tentamos dar o máximo possível de valências para que as pessoas consigam fazer as coisas connosco e não tenham de se deslocar muitas vezes [a unidades mais diferenciadas]”, descreve a diretora clínica.
Um crescimento feito de pequenos passos
Desde 2018 que a empresa tem crescido. Passo a passo, “de forma sustentável” e ponderada, assegura Marta Fonseca, mas com um notório aumento da atividade clínica muito alavancado pela transformação populacional que a zona tem registado. Desde a pandemia por Covid-19 que pela porta entram cada vez mais franceses, ingleses e até americanos que têm adquirido imóveis na zona e vêm passar longas temporadas banhadas pelo bom tempo nacional. E como são pessoas que funcionam muito em comunidade com os compatriotas, também tem funcionado muito bem o “boca-a-boca” com estes clientes que, por norma, dizem as duas médicas veterinárias, são bastante exigentes nos cuidados aos animais de companhia. Exigência que também vem crescendo entre os tutores nacionais, asseguram, cada vez mais conscienciosos sobre as necessidades de cada espécie, sobre a responsabilidade que é receber um animal em casa e assegurar-lhe os cuidados de saúde e bem-estar que ajudam esse membro da família a ser mais feliz.
O crescimento da atividade exigiu mudanças, como reconhece Marta Fonseca: “Agora, que estamos a crescer, temos vindo a melhorar as condições do CAMV, seja as instalações físicas, seja os equipamentos de laboratório, assim como de exames complementares”. Começaram por aumentar o número de consultórios, passaram a ser dois no andar térreo – onde decorre a entrevista – perto da sala de cirurgia e é também nesse piso que têm já um espaço pensado para o raio-X, que será o próximo investimento. Na altura da visita aguardavam apenas as aprovações legais finais para avançar com a obra das instalações que vão receber o equipamento. O laboratório, entretanto, ganhou novas valências – um novo aparelho de análises bioquímicas e possibilidade de realização de hemogramas e de avaliações hormonais – e foi adquirido um ecógrafo.
“Agora, que estamos a crescer, temos vindo a melhorar as condições do CAMV, seja as instalações físicas, seja os equipamentos de laboratório, assim como de exames complementares”
Marta Fonseca, médica veterinária e diretora clínica
Tiveram de estender a atividade para a cave, onde instalaram mais um consultório, um gabinete para acolher a profissional que faz o grooming e é também aí onde fica o espaço de recobro, no qual recuperam os animais que são intervencionados na clínica. A cave tem ainda uma sala ampla, com possibilidade para acolher outras valências no futuro, mas, como repete Marta Fonseca, querem “crescer em qualidade e nos serviços que prestamos, mas de forma ponderada”. De momento, serve para os profissionais do CAMV relaxarem nos momentos de pausa.
E a equipa permanente também cresceu: integraram mais duas médicas veterinárias, mais uma auxiliar e, ao todo, são agora seis pessoas e dois gatos. Sim, porque nestes sete anos de projeto, dois felinos passaram a residir no CAMV: o Zé, um sénior pachorrento, e a Amora, uma gata tricolor mais desconfiada. Recebem a VETERINÁRIA ATUAL no que se pode designar como reino – que é como quem diz a sala da equipa na cave – com posturas diferentes: Zé, acordado da sesta pelo movimento da visita, cumprimenta e pede festas, enquanto Amora mostra-se reservada e muito alerta, como quem está pronta para se esconder se existir uma aproximação não consentida.
A história de ambos é comum a tantos relatos. “Vieram os dois da rua – primeiro o Zé e depois a Amora – e tinham problemas de saúde. Ainda tentámos a adoção, mas não correu bem e não podíamos deixar que voltassem para a rua”, recorda Marta Fonseca. Foram ficando, hoje são considerados parte da equipa e até têm peso nas decisões, pois se a primeira intenção era tornar o consultório da cave unicamente para felinos, o Zé não gostou da ideia. De cada vez que sentia outro felino perto dos seus aposentos, começava a miar e apesar de ser bonacheirão e pacífico – ao ponto de ter acolhido muito bem a Amora quando esta chegou – as suas manifestações não tornavam o ambiente cat friendly para os clientes e a equipa acabou por desistir da ideia. Não obstante, desde a pandemia por Covid-19 que passaram a trabalhar apenas com agendamento o que veio facilitar o encadeamento das consultas e procedimentos de modo a tentar ter uma atividade que seja a mais ajustada possível às necessidades de cada espécie, nomeadamente à sensibilidade felina.
Diferenciação: Uma aposta na melhoria dos cuidados
Nestes sete anos de atividade, o Centro Veterinário da Aroeira mudou – com as alterações levadas a cabo nas instalações – e as profissionais também, sobretudo alteraram-se os interesses de cada uma delas, de uma forma que não tinham previsto. Fruto, naturalmente, do crescimento do CAMV, das necessidades apresentadas pela população que seguem e também da vontade de expandir horizontes no conhecimento científico e melhorar os cuidados prestados.
A proprietária do CAMV começou apenas por se dedicar à gestão do espaço. “Estava aqui mais na parte de trás, não fazia consultas, nem lidava com os clientes. Depois, comecei a investir na formação, primeiro em Anestesia, posteriormente em Cirurgia, e dedicava-me mais a essas áreas. Só mais recentemente passei também a fazer consultas com os clientes”, explica Marta Fonseca. E é pelas suas mãos que continuam a passar os casos cirúrgicos da clínica – castrações, cirurgias oncológicas, destartarizações e extrações dentárias, cirurgias do palato ou a cherry eyes – tudo o que possa ser intervencionado em regime de ambulatório.
Já Mafalda Ribeiro durante a pandemia descobriu “um novo amor”: a medicina felina. Fez uma pós-graduação pela International Society of Feline Medicine (ISFM) – renomeada recentemente de iCatCare Veterinary Society – e agora declara-se “muito imersa nesse mundo felino. É mesmo a minha grande paixão”.
Marta Fonseca acrescenta: “Investimos também na formação da Mafalda em ecografia porque investimos no ecógrafo, de modo a passarmos a fazer internamente esses exames. A Vanessa Anjos dedica-se mais à Medicina de Reprodução e à Oftalmologia. A Beatriz Martins ainda está a explorar quais são os seus interesses. Está connosco há pouco tempo”. Na altura da visita, para 2026 apenas estava pensada uma formação da equipa em Anestesia e Marta Fonseca admitiu que pretende investir na sua formação individual na área da ecografia para passar a dar apoio nessa área a Mafalda Ribeiro.
Em termos de serviços, o CAMV tem ainda parcerias com profissionais que asseguram algumas especialidades em regime de ambulatório – como Cardiologia ou algumas terapias complementares, como é o caso da ozonoterapia – o mesmo acontecendo com a profissional que assegura o grooming.
Quando algum caso clínico é mais complexo, exige internamento, carece de uma intervenção mais diferenciada ou de exames imagiológicos mais aprofundados, a equipa recorre a algumas unidades hospitalares parceiras nos arredores para as quais referenciam os animais de companhia. “Tem funcionado muito bem para ambos os lados, quer com um hospital da Charneca da Caparica para onde referenciamos, quer com uma clínica de Corroios. Mandam-nos sempre a referência de volta e dão-nos sempre um resumo do que é que aconteceu”, assegura a diretora clínica.
É sempre um pouco mais difícil, principalmente para os tutores, quando aconselham a ida a um especialista em Lisboa, nomeadamente para casos de Neurologia, Ortopedia, Oncologia ou de Medicina Interna mais desafiantes. Mas, Marta Fonseca é apologista de que “quando há necessidade, é preferível referenciar para uma especialidade do que estar a enrolar o caso. Achamos que é o mais correto e os clientes também acabam por perceber” que é o melhor para o animal ser avaliado por olhos conhecedores dessas áreas em específico. Uma frontalidade e honestidade que ambas as médicas veterinárias consideram cimentar a relação de confiança com os clientes.
Contudo, e apesar do caminho já percorrido, a equipa quer continuar a pautar a atividade pelo mesmo princípio: crescer com ponderação. “Estamos a tentar que seja um crescimento sustentado. Não queremos que seja algo repentino e também não queremos ter urgências. Queremos continuar a ser uma clínica que faz medicina veterinária de proximidade”, um local onde os animais de companhia têm uma equipa familiar de saúde animal, reforça Marta Fonseca.
Dar de volta à comunidade
Marta e Mafalda já tinham um historial como voluntárias em associações de proteção e bem-estar animal e como responsáveis por um CAMV acharam que fazia todo o sentido continuar esse percurso, agora com mais ferramentas para puderem ajudar os animais que mais precisam. “Sobretudo ajudamos o Canil da Aroeira. Como já lá fazíamos voluntariado e conhecíamos as pessoas que estavam à frente da instituição desenvolvemos uma relação de confiança grande”, conta Marta Fonseca. E desde que abriram as portas, conta ainda a responsável, “vamos ao canil e vemos o que os animais precisam: fazemos análises, ajudamos na vacinação e nas desparasitações e ajudámos a estabelecer um protocolo [de cuidados]” que tem contribuído para melhorar a saúde dos animais residentes e a livrar o canil de alguns surtos frequentes neste tipo de abrigos.
“Temos muita atenção aos animais seniores, coitadinhos, são sempre os que ficam para trás [nas adoções]”, acrescenta Mafalda Ribeiro, lamentando uma realidade que é vivida em tantos abrigos nacionais.
E nessa senda da ajuda aos animais com mais idade, as médicas veterinárias passaram recentemente a dar apoio ao Refúgio dos Gatos do Bairro, no concelho vizinho do Seixal, um santuário que se dedica principalmente a recolher e cuidar de gatos adultos e seniores. “São imensos num mesmo espaço e, por incrível que pareça, estão sempre sossegados, não há conflito. Ficava lá a vida toda a olhar para os gatos”, descreve Marta Fonseca a rir.
Para Mafalda Ribeiro, este trabalho junto das associações dá à equipa um sentido de pertença à comunidade no qual o CAMV está inserido pois, como explica, “sabemos que existem cães e gatos que vão viver e morrer naqueles abrigos. Queremos ajudar, criar uma ponte entre as associações e os médicos veterinários, o que nem sempre é fácil, mas ajudamos dando o nosso tempo e tentando que tenham melhor qualidade de vida. Pelo menos têm cuidados de saúde, têm a barriguinha cheia e, claro, imenso amor dos voluntários”.
Ainda assim, como refere Marta Fonseca, as pessoas começam a estar cada vez mais sensibilizadas e as adoções da população felina e canina com mais idade acontecem com mais frequência. E para apoiar as decisões responsáveis das famílias, o Centro Veterinário da Aroeira tem condições especiais para quem decide dar um lar aos “velhotes” de cada uma das associações.

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