A doença renal crónica nos gatos é uma das patologias que mais preocupa médicos veterinários e tutores. Tomás Magalhães tem-se debruçado sobre o acompanhamento destes doentes e publica nova investigação, desta feita com a perspetiva dos cuidadores, na qual fica claro que ainda há pontos a melhorar. A introdução e seguimento da dieta renal, a avaliação da pressão arterial e a administração de quelantes de fosfato são as áreas mais críticas.
A abordagem clínica da doença renal crónica (DRC) da população felina tem ocupado grande parte da vida de Tomás Magalhães enquanto investigador. O trabalho mais recente – “Caregivers’ perspectives on feline chronic kidney disease in Portugal: a questionnaire-based study”, publicado em dezembro de 2025 no Journal of Feline Medicine and Surgery – debruçou-se sobre a perspetiva dos tutores de gatos diagnosticados com a patologia e as conclusões mostram há muito a melhorar no seguimento destes felinos.
Em declarações à VETERINÁRIA ATUAL, o investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e presidente do Grupo de Interesse Especial em Medicina Felina (GIEFEL) da Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC) assume que “a maioria dos tutores inquiridos reconheceu sentir-se devidamente informada por parte do médico veterinário assistente o que é, obviamente, positivo, mas existem algumas práticas que merecem a nossa atenção e têm que ser melhoradas”. O destaque do investigador vai para “a questão da introdução da dieta renal e para a administração do quelante de fosfato que não estão a ser feitas da melhor forma, limitando a sua eficácia e com isso o impacto que terão no prognóstico dos pacientes”.
Dieta renal continua a ser mal introduzida, reduzindo a eficácia
Segundo as orientações da International Renal Interest Society (IRIS) para o maneio da DRC nos felinos, a dieta renal é uma estratégia fundamental para o controlo da doença. É de apontar que um gato em dieta renal pode viver de duas a três vezes mais do que um alimentado com uma dieta não renal, “o que, se bem comunicado, poderia tornar os tutores mais propensos a manter seus gatos numa dieta renal a longo prazo. No entanto, apenas 2,5% dos tutores mencionaram estar cientes desse benefício, revelando uma oportunidade de melhoria para a equipa veterinária”, lê-se no estudo.
Não obstante, e apesar de 95,6% dos 405 tutores respondedores ter reconhecido que recebeu a recomendação de alteração alimentar por parte do médico veterinário assistente, apenas 84,2% a seguiram e, destes, 40,8% ofereciam diariamente algum alimento não renal. “Ou seja, temos cerca de 41% dos tutores a dizer que não consegue fazer uma dieta exclusivamente renal ao seu animal e sabemos a importância de manter estes pacientes com uma dieta alimentar renal em termos de prognóstico, porque tem impacto em termos de sobrevida, na redução de crises urémicas e no controlo dos sinais clínicos”, reconhece Tomás Magalhães. A intervenção dietética é considerada a base da abordagem terapêutica ao felino com DRC, sendo tipicamente caracterizada por um teor restrito de fósforo, por proteína de alta qualidade em quantidade moderada a restrita, por concentrações elevadas de ácidos gordos ómega-3, adição de potássio e vitaminas do complexo B.
  “Temos cerca de 41% dos tutores a dizer que não consegue fazer uma dieta exclusivamente renal ao seu animal e sabemos a importância de manter estes pacientes com uma dieta alimentar renal em termos de prognóstico, porque tem impacto em termos de sobrevida, na redução de crises urémicas e no controlo dos sinais clínicos”
Tomás Magalhães
Aliás, nos dados recolhidos pelas respostas dos tutores, em cerca de 20% dos que fizeram a transição alimentar para uma dieta renal, esta representava apenas 75% ou menos da alimentação diária do felino. Em suma, “há uma percentagem significativa dos tutores que não a consegue fazer de forma exclusiva, ainda que tenham feito a transição para a dieta renal”, acrescenta o investigador, o que está em consonância com a perceção de aceitação alimentar subótima observada pelos veterinários portugueses.
Diagnóstico precoce é chave para melhor prognóstico
De recordar que o trabalho agora publicado vem no seguimento do projeto de doutoramento de Tomás Magalhães que fez um “retrato do maneio clínico da DRC felina em Portugal”, como referiu à VETERINÁRIA ATUAL num artigo publicado na revista no início de 2024. A primeira publicação neste âmbito foi o estudo “Clinical management of feline chronic kidney disease in Portugal: a questionnaire-based study”, publicado em novembro de 2023 também no Journal of Feline Medicine & Surgery. Nesse trabalho, foram validadas respostas de 409 profissionais que já mostravam existir margem para melhorar o acompanhamento desta população, pois a quase a totalidade (99,3%) dos médicos veterinários nacionais inquiridos relataram que recomendavam a introdução da dieta renal, mas 36,9% reconheceu que, na prática, esta representava menos de 75% da ingestão diária do animal. Além disso, acrescentou Tomás Magalhães em 2024, a investigação já mostrava que “uma percentagem altíssima de colegas (73,4%) está a introduzir a dieta renal independentemente do estadio da doença”, mas sem fazer a correta transição. Nas respostas recolhidas, 20% dos clínicos reconheceram que não faziam transição e 74% disse que recomendava uma transição de duas semanas ou menos, embora as diretrizes normalmente recomendem uma transição gradual de quatro semanas ou mais, dependendo de cada animal.
Na investigação agora publicada, as respostas dos cuidadores corroboram o observado no inquérito aos médicos veterinários: a introdução da dieta renal é feita de forma não gradual e numa altura em que o animal já tem manifestações da doença o que compromete a aceitação devido à presença de náuseas, vómitos e à perda de apetite. Neste ponto em concreto, é de realçar que na investigação agora publicada quase 74% dos gatos já tinha sinais clínicos no momento do diagnóstico. “Quando diagnosticamos animais tardiamente há uma sobrecarga muito maior para os tutores, no que diz respeito aos cuidados que eles depois têm de garantir. Portanto, é importante diagnosticarmos a doença em estadios iniciais, de forma a conseguir mudar o prognóstico e também minimizar a sua sobrecarga para o tutor logo no momento do diagnóstico”, acrescenta o médico veterinário.
Pressão arterial continua a ser esquecida no diagnóstico da DRC
Outro dos pontos críticos observados nos resultados deste inquérito diz respeito à medição da pressão arterial (PA) do animal e veio igualmente corroborar os achados do estudo publicado em 2023. Apenas 46,4% dos tutores confirmaram que a PA foi avaliada no momento do diagnóstico, sendo que esta é uma ferramenta fundamental para estadiar a DRC e é recomendada pela IRIS. “A questão da PA já tinha sido algo verificado no questionário aos médicos veterinários e este trabalho mostra também haver uma percentagem significativa dos médicos veterinários que não realizava a medição da PA no momento do diagnóstico. Este é um ponto crítico pois faz com que não estejamos a fazer o subestadiamento correto da doença e, eventualmente, podemos estar a deixar escapar casos de hipertensão arterial, que é uma condição muito associada à doença renal”, explica o autor do trabalho. No estudo lê-se que, à medida que a DRC progride, o risco de desenvolver hipertensão tende a aumentar, o que pode explicar o maior número de gatos em tratamento para essa condição em comparação com aqueles identificados como hipertensos no momento do diagnóstico.
Em matéria de tratamento, “outro achado relevante foi que menos de 60% dos gatos diagnosticados com essas duas condições [DRC e PA] estavam, segundo relatos, em uso da medicação apropriada quando o tutor respondeu ao questionário, sugerindo que os demais ou não estavam a receber o tratamento recomendado ou não necessitavam mais dele devido à estabilização da doença”, é descrito nas conclusões. Os quelantes de fosfato foram fármacos comummente utilizados pelos tutores respondedores, no entanto, a sua administração pode não estar alinhada com as melhores práticas. Apesar de serem medicamentos com vasta utilização – “e serão cada vez mais comuns se não conseguirmos controlar a aceitação da dieta renal”, alerta Tomás Magalhães – o “ponto crítico é que há uma percentagem significativa (36.4%) dos tutores que estão a administrar quelantes de fosfato sem o alimento. Este desfasamento entre as refeições e a administração de quelante de fosfato faz com que a eficácia desta administração fique logo muito limitada”, acrescenta.
Vínculo emocional com animal não diminuiu
É certo que sendo tutores que se prontificaram a responder ao inquérito online, já pressupõe que sejam cuidadores interessados e atentos ao animal de companhia. No entanto, sendo a DRC uma patologia que exige cuidados para o resto da vida do animal, o comprometimento do tutor é essencial e o trabalho realçou que 70,4% dos inquiridos reconheceu que “o vínculo emocional com seu gato permaneceu o mesmo após o diagnóstico”, lê-se no estudo. “De qualquer forma, estratégias para garantir o apoio contínuo aos cuidadores devem ser incentivadas em todos os casos, a fim de minimizar o impacto potencialmente negativo da doença”, acrescenta-se.
Nas declarações à VETERINÁRIA ATUAL, Tomás Magalhães continua a reforçar a importância do diagnóstico precoce da DRC em felinos, sugerindo aos profissionais de saúde animal “procurarem ativamente sinais compatíveis com a doença e a fazerem as análises de check-up mesmo em animais que estão perfeitamente saudáveis”. E acrescenta: “Aconselho sempre, pelo menos a partir dos sete anos, a fazer um check-up anual, com análises de sangue, análises de urina, eventualmente uma ecografia abdominal, para identificar eventuais alterações compatíveis com esta doença, de forma a conseguirmos diagnosticar ainda numa fase assintomática, que é sempre esse o nosso objetivo”.
E em jeito de conclusão, o médico veterinário lembra que esta é uma doença “cujo maneio é de longo prazo e é muito importante que, aquando o diagnóstico, haja uma comunicação muito objetiva e transversal sobre os vários pontos deste maneio, que é multimodal, para que possamos maximizar o prognóstico destes pacientes”.
Investigação sobre DRC será alargada a mais países
Tomás Magalhães revelou à VETERINÁRIA ATUAL que a investigação sobre a DRC nos felinos vai continuar e o questionário que foi divulgado entre os tutores nacionais “já está a ser aplicado noutros países, nomeadamente no Reino Unido, nos Países Baixos, na França, no Brasil e vai começar também a ser aplicado brevemente no Chile, nos Estados Unidos da América e na China”.
O objetivo de expandir a investigação além-fronteiras é perceber se existem diferenças na abordagem à doença atendendo aos distintos contextos culturais e socioeconómicos das populações locais.
O questionário respondido pelos médicos veterinários nacionais também já está a ser aplicado noutros 15 países europeus – para resultar, posteriormente, numa publicação sobre a abordagem médica à patologia no continente europeu – e em países como Coreia do Sul, Israel, Chile, Brasil, existindo a expetativa de que a China e os Estados Unidos da América também entrem neste rol.
Estas recolhas de dados de tutores e médicos veterinários sobre a DRC felina prende-se com a vontade de, posteriormente, “criar recursos que possamos fornecer – quer a médicos veterinários, quer a tutores – no sentido de melhorar as práticas e com isso conseguirmos que o maneio da doença renal crónica seja aprimorado, de forma a assegurar um bom prognóstico para estes gatos”, revelou o presidente do GIEFEL. Esses recursos podem passar por infografias, vídeos ou outras plataformas de comunicação que esclareçam os profissionais de saúde animal e os tutores sobre as melhores abordagens ao gato com DRC.
Afinal, reforça Tomás Magalhães, “vimos no anterior estudo que a maior parte dos médicos respeitam as guidelines internacionais, e neste confirmamos que os tutores se sentem informados sobre a doença, mas a verdade é que quer num trabalho, quer noutro, ficou claro que há espaço para melhoria” no acompanhamento dos felinos com DRC.

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