Um grupo de investigadores da Faculdade de Veterinária da Universidade de Cambridge identificou mais doze raças de cães com risco acrescido de desenvolver a síndrome de obstrução das vias respiratórias braquicefálicas.
Segundo os cientistas, entre as raças agora associadas à doença estão o Pequinês, Shih Tzu, Boston Terrier, Staffordshire Bull Terrier, Cavalier King Charles Spaniel, Chihuahua e Boxer.
O estudo, publicado na PLOS One, reforça que a síndrome de obstrução das vias respiratórias braquicefálicas não afeta apenas as raças “clássicas” mais estudadas e mostra que a prevalência e a gravidade variam muito entre raças e até dentro da mesma raça.
A equipa analisou 14 raças adicionais. No total, foram avaliados quase 900 cães. Doze das catorze raças apresentaram algum nível detetável de anomalia respiratória. Os valores mais elevados surgiram no Pequinês (89% com afetação) e no Chin Japonês (82%), percentagens comparáveis às observadas na raça Pug, Bulldog Francês e Bulldog.
O estudo classificou cinco raças como tendo risco moderado da síndrome — King Charles Spaniel, Shih Tzu, Grifon de Bruxelas, Boston Terrier e Dogo de Bordéus — com entre metade e três quartos dos cães avaliados afetados.
Outras cinco raças foram enquadradas em risco leve (Staffordshire Bull Terrier, Cavalier King Charles Spaniel, Chihuahua, Boxer e Affenpinscher): cerca de metade apresentava algum grau de respiração ruidosa, mas apenas poucos casos eram clinicamente significativos.
As observações ocorreram em consultas individuais no Queen’s Veterinary School Hospital, em exposições caninas e em dias específicos de rastreios de saúde por raça. Para comparar resultados entre raças, os investigadores adaptaram o sistema de classificação da função respiratória usado pelo Kennel Club do Reino Unido e pela Universidade de Cambridge para Bulldogs Franceses, Bulldogs e Pugs, aplicando-o às 14 raças adicionais.
A equipa avaliou a respiração antes e depois de uma prova de exercício de três minutos, registando ruídos respiratórios das vias aéreas superiores e sinais de esforço ou desconforto. Os cães sem ruído e sem dificuldade foram classificados como saudáveis; os restantes foram categorizados com a síndrome de leve a grave.
O estudo também identificou fatores que elevam a probabilidade de síndrome de obstrução das vias respiratórias braquicefálicas: excesso de peso, narinas estreitas (estenose) e uma cabeça mais larga e curta.
A investigadora Fran Tomlinson, codiretora do estudo, sublinhou que a síndrome existe “num espectro”, desde situações ligeiras até casos graves com impacto significativo no bem-estar. A responsável recordou ainda que, embora cirurgia, controlo de peso e outras medidas possam ajudar, a condição é hereditária e “ainda há muito a compreender” para reduzir o risco em gerações futuras.
A análise encontrou ainda associações específicas por raça. No Shih Tzu e no Staffordshire Bull Terrier, caudas mais curtas estiveram ligadas a maior risco; neste último, cães com caudas mais longas tiveram cerca de 30% menos probabilidade da síndrome.
Nas raças Boston Terrier e Staffordshire Bull Terrier, pescoços proporcionalmente mais grossos foram associados a maior afetação da síndrome, algo que os cientistas consideram coerente com a proximidade genética a raças como os Bulldogs.
Já nas raças Chihuahua e no King Charles Spaniel, corpos relativamente mais longos e menor altura estiveram associados a maior probabilidade de sinais respiratórios. O excesso de peso destacou-se como fator importante na raça Cavalier King Charles Spaniel, Shih Tzu e Affenpinscher, sugerindo que a perda de peso pode ser uma ferramenta prática para reduzir risco nestas raças.
Ainda assim, o estudo concluiu que peso, estenose das narinas e proporção craniofacial explicam apenas cerca de 20% da variação da síndrome entre raças. Por isso, a avaliação respiratória direta continua a ser o método mais fiável para decidir que cães devem ser usados na reprodução e quais podem beneficiar de intervenção veterinária, sublinharam os investigadores.
Para estes, a mensagem é clara: cada raça tem um perfil próprio e a redução deste problema exige um foco específico e sustentado, com seleção responsável, rastreios e cuidados preventivos.

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