Investigação

A cura para a leishmaniose chegou – pelo menos para 12 beagles

Uma das responsáveis portuguesas pela investigação, Anabela Cordeiro da Silva, diz que a descoberta é “revolucionária”. Neste momento, decorrem negociações com a indústria farmacêutica veterinária para introduzir o composto no mercado. E, segundo a investigadora, não há motivos para que esta solução também não seja eficaz em gatos.

A cura da leishmaniose pode ter sido descoberta – e há investigadores portugueses responsáveis por isso. Se até há pouco tempo os médicos veterinários portugueses estavam céticos em relação a uma cura, o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) provou o contrário. A entidade portuense integrou um consórcio internacional que descobriu uma molécula capaz de tratar esta zoonose endémica em Portugal. “Trata-se de um composto mais eficaz, menos tóxico, mais barato do que os tratamentos disponíveis e permite que seja administrado por via oral”, revelou em comunicado o i3S. Estas são características que permitem apelidar este tratamento de “revolucionário”, confirmou à VETERINÁRIA ATUAL Anabela Cordeiro da Silva, coordenadora do grupo de investigação português Parasite Disease do i3S, que participou neste projeto.

O i3S anunciou que 12 cães com leishmaniose, que fizeram parte da investigação, ficaram totalmente curados e foram entretanto adotados. Em 2017, um grupo de investigadores do i3S tinha já anunciado que havia identificado uma molécula libertada pelo parasita da leishmaniose que tinha a capacidade de desativar determinadas células responsáveis pela defesa do organismo, o que podia dificultar o combate à doença.

O novo medicamento, responsável pela cura dos 12 animais, resulta do projeto de investigação NMTryp (New Medicine for Trypanosomatidic Infections), que integrou 12 parceiros (nove instituições académicas e três empresas) oriundos da Europa e de países em que a doença é endémica, como Itália, Grécia, Portugal, Sudão e Brasil. A iniciativa foi coordenada por Maria Paola Costi, da universidade italiana de Modena, e foi financiada em 7,6 milhões de euros pela União Europeia em 2014, não só para encontrar uma solução para a leishmaniose, mas também para a doença do sono e de Chagas.

Foram precisos seis anos de investigação para anunciar os bons resultados: a equipa analisou cerca de meio milhão de moléculas até conseguir obter um composto químico que se revelou eficaz em 12 cães infetados. Os cientistas trabalharam na síntese química de moléculas, em testes in vitro em células, depois em ratos e hamsters, e só depois em cães.

Já a fase dos testes em cães decorreu, segundo o jornal Público, na Faculdade de Veterinária da Universidade Complutense de Madrid. Além de um grupo de controlo de seis cães que se mantiveram infetados e sem tratamento (sendo este só realizado depois, por questões éticas), foi aplicada miltefosina a quatro animais (um composto também usado em humanos e já disponível no mercado), enquanto 12 beagles receberam o novo composto químico.

Berta, Bimba, Cañita, Gala, Charlize, Chula, Frida, Gilda, Ginger, Lola, Rubia e Tula ficaram totalmente livres de leishmaniose graças ao novo fármaco. Estiveram quase um ano no hospital veterinário para acompanhar e garantir os seus progressos e, após quase um ano de adoção, ainda são seguidos pelos cientistas.

“A vantagem do novo composto, além da eficácia, é a não toxicidade. Enquanto os compostos no mercado causam vómitos, falência renal, lesões hepáticas, diarreias, perda de peso, este composto não mostrou ser tóxico tanto nos ratinhos como nos cães”, disse a investigadora ao jornal Público.

De momento, decorrem negociações com a indústria farmacêutica veterinária, depois de o novo composto ter sido patenteado na Europa e nos Estados Unidos. “Obtivemos um composto de síntese química, logo muito mais barato, que funciona, é de administração oral e tem menor toxicidade para os animais do que os fármacos disponíveis no mercado”, disse Anabela Cordeiro da Silva. “Não tenho dúvidas de que este composto será brevemente comercializado para os cãezinhos.”

Neste momento, adiantou Anabela Cordeiro da Silva, “só nos falta determinar o local preciso do parasita em que o composto atua, apesar de já termos indicação do seu mecanismo de ação e iniciar os ensaios clínicos de fase I em humanos”.

“Para uso veterinário já temos a indústria veterinária interessada e os processos de negociação do licenciamento da patente estão em curso. Para uso humano, apesar dos testes em macacos terem sido promissores em termos de toxicidade, existe ainda um longo percurso, pois o mesmo tem de percorrer o longo caminho dos diferentes ensaios clínicos desde a fase I até fase IV”, resumiu a coordenadora do grupo de investigação num e-mail enviado à VETERINÁRIA ATUAL.

Quanto à aplicação deste fármaco em gatos, Anabela Cordeiro da Silva explica: “Pelos conhecimentos que temos, não vemos razão para não ser eficaz em gatos, contudo, nestes animais ainda estamos a definir a doença com um estudo que está em curso no grupo para posteriormente podermos testar o novo fármaco nestes animais.”

As conclusões do estudo foram reunidas num artigo que está agora a ser preparado pelos diferentes parceiros que participaram no trabalho, acrescentou a investigadora. “A nossa intenção é submeter à Nature no formato letter, contudo, desde a submissão até ser publicado, o caminho pode ser curto ou longo.”

A leishmaniose canina é causada pelo parasita Leishmania infantum. O cão é o principal hospedeiro reservatório, e há muitos animais infetados que não manifestam a doença. Gatos, raposas e roedores podem ser também afetados.

O parasita é transmitido tanto a humanos como caninos pela picada de flebótomos. Os cães que vivem sempre no exterior e de pelo curto correm maior risco de serem picados e, por isso, de infeção. Porém, nos humanos, a doença também pode ser transmitida por utilizadores de drogas injetáveis infetados durante a partilha de agulhas ou por dadores de sangue infetados, nos países em que o despiste da doença não é obrigatório, como em Portugal.

Em comunicado, o i3S mencionou ainda o número baixo de casos humanos de infeção. Segundo dados das administrações regionais de Saúde, registaram-se 375 casos em humanos entre 1999 e 2009, em particular na região de Lisboa e Vale do Tejo.

Nos canídeos, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária revelou que, só em 2017, no âmbito de campanhas oficiais de vacinação antirrábica, foram identificados 441 casos de leishmaniose em cães.