Equinos

Ortopedia de equinos aposta cada vez mais na Medicina Regenerativa e Fisioterapia

A prevenção das lesões ortopédicas dos cavalos é hoje o grande desafio desta especialidade da medicina veterinária, a par do tratamento e recuperação. Para isso, as terapias regenerativas e a fisioterapia são as apostas. Os especialistas com quem falámos salientam que Portugal dispõe dos melhores profissionais, técnicas e equipamentos para fazer este trabalho, faltando apenas a Cintigrafia Óssea.

Veterinários, treinadores e ferradores trabalham cada vez mais em conjunto para prevenir futuras lesões “ainda no ventre da mãe, através de uma alimentação cuidada”, salienta Nuno Bernardes, médico veterinário no CVET Equinos – Podiatria e Veterinária Equina. Mesmo assim, “mais tarde ou mais cedo, todos os cavalos vão ter pequenas lesões, por isso é fundamental gerir o seu treino”, afirma a médica veterinária Mónica Mira. E João Paulo Marques, da Equidesporto – Assistência Veterinária Móvel defende “que existe um reconhecimento crescente de que o tratamento das patologias ortopédicas exige uma abordagem multifacetada e abrangente, o sucesso na recuperação de lesões depende não só do tratamento médico e/ou cirúrgico, mas de todo um processo de Reabilitação em que a Medicina Física e a Fisioterapia desempenham um papel importante”.

A gestora da Hippiatrica – Equine Medical Center refere que as lesões ortopédicas dos cavalos “variam de acordo com a modalidade, pois umas têm mais incidência que outras dependendo do tipo de exercício e o nível de exigência física. Artrites/Osteoartrite (inflamação das estruturas que compõem a articulação), Tendinites (inflamação do tecido tendinoso) e Desmites (inflamação do tecido ligamentar) são as patologias ortopédicas mais frequentes” e Ana Ferreira salienta que “estas lesões condicionam o bem-estar dos animais e, no caso de cavalos de desporto, são fatores decisivos para a sua performance. Algumas lesões ortopédicas podem ditar o fim da carreira desportiva dos cavalos”.

Nuno Bernardes, do CVET Equinos – Podiatria e Veterinária Equina, diz-nos que “estas lesões são fruto da utilização desportiva dos cavalos uma vez que são, regra geral, consequência de traumatismos reiterados sobre o sistema músculo-esquelético destes animais” e acrescenta: “Há ainda a frisar o caso das Laminites que, sendo cada vez mais consideradas uma síndrome com reflexo no sistema músculo-esquelético, em particular no casco dos cavalos, acometem anualmente inúmeros animais podendo inutilizá-los definitivamente”. O médico veterinário frisa que “este último caso pode mesmo levar à necessidade de proceder à destruição humanitária dos animais, devido à dor intensa e incontrolável que os pode afetar”.

Endurance mais próximo das Corridas

Mónica Mira, médica oficial de Endurance (Resistência Equestre) – que já é a segunda disciplina mais representada a nível da Federação Equestre Internacional – conta à VETERINÁRIA ATUAL que “as principais lesões, neste desporto, são no ligamento suspensor do boleto anterior, nomeadamente a nível da origem proximal, algumas delas com envolvimento ósseo (entesopatias proximais). Em segundo lugar vêm as artropatias de boleto, principalmente nos boletos anteriores, mas que também podem ocorrer nos posteriores”.

A gerente da Al Equine salienta que “são lesões de desgaste, normalmente de caráter crónico e quase sempre bilaterais” porque “tem a ver com as características deste desporto: são essencialmente provas de longa distância, que provocam esforços repetitivos sobre os tecidos moles do aparelho locomotor do cavalo e vão induzir pequenas lesões”.

Com o desenvolvimento deste desporto e, principalmente, o aumento da velocidade das provas “ninguém acreditava que um cavalo pudesse fazer, por exemplo, uma prova de 100km, com uma média de 30km/h”, refere Mónica Mira, “as lesões do cavalo de Endurance aproximam-se assim cada vez mais das do cavalo de corrida” e um dos problemas desses cavalos são as lesões catastróficas, nomeadamente as fraturas de stress.  “Este trabalho e reino repetitivo pode induzir fragilidades ao nível do córtex ósseo, que depois se podem transformar em fraturas, que normalmente ocorrem nos treinos fortes ou durante as provas”.

Por isso é crucial “saber gerir a dureza dos pisos, a intensidade dos treinos e a carreira desportiva do cavalo” e “é fundamental escolher cavalos que nos possam dar a indicação de que vão ser saudáveis do ponto de vista locomotor, ou seja, com aprumos corretos que vão permitir uma correta distribuição das forças a nível da carga dos membros e prolongar a longevidade desportiva do cavalo”, salienta a médica veterinária.

Prevenir é o melhor remédio

Ditado antigo, mas que se aplica de forma crescente na ortopedia de equinos, quer seja pela escolha do cavalo mais adequado a cada disciplina ou pela aposta na fisioterapia e outras terapias, para evitar que as patologias surjam.

Nuno Bernardes salienta que “é durante o primeiro ano de vida que, através de uma atenção muito cuidada do crescimento e orientação dos aprumos dos poldros, se podem minimizar cargas desequilibradas sobre as articulações e tendões que podem provocar as lesões mencionadas”. O médico veterinário lembra ainda que “uma boa alimentação, um cuidado muito regular e profissional dos cascos e sua ferração, um condicionamento físico progressivo e consistente, períodos de recuperação adequados após trabalho e competição e um conhecimento profundo dos limites de cada animal poderá evitar que estas patologias tenham uma relevância ainda maior”.

Também Carolina Nascimento, do Hidrovet – Centro de Reabilitação Equina, explica que “o nosso principal objetivo não é apenas recuperar uma lesão sem dor, mas interferir de um modo preventivo com um programa de alto rendimento, realizando um trabalho terapêutico que resulta numa menor probabilidade de recidiva e de novas lesões”.

E Sara Abreu, igualmente médica veterinária especializada em fisioterapia equina, afirma que “na HTS, além de prestarmos os tratamentos médico-veterinários já habitualmente instituídos nestes casos, apresentamos opções de tratamentos complementares tanto para recuperação, como para prevenção de lesões ao nível do sistema músculo-esquelético recorrendo a equipamentos especializados tais como passadeira aquática, spa, laser e shockwave”.

Nuno Bernardes considera que “os profissionais do setor estão cada vez melhor preparados e equipados para fazer face à resolução destes problemas. Ainda assim é fundamental trabalhar na prevenção e na desmistificação de algumas questões. No conhecimento ainda maior da biomecânica e das exigências físicas da utilização dos cavalos, compreendendo que não são máquinas, mas entidades biológicas que respondem como tal… quer na forma, como no tempo em que reagem às lesões”.

Da fisioterapia ao Spa

Por isso, João Paulo Marques, da Equidesporto – Assistência Veterinária Móvel e membro da direção da International Association of Veterinary Rehabilitation and Physical Therapy (IAVRPT) salienta que a Medicina Física e a Fisioterapia desempenham um papel importante. “A minha atividade profissional principal desenvolve-se precisamente nesta área, paralelamente e em complementaridade com a utilização de terapêuticas não convencionais, como a Acupunctura e a Quiroprática, e atualmente tenho o privilégio de contar com a confiança de um número crescente de colegas que regularmente me referem casos nestas áreas”, afirma o médico veterinário que possui certificados internacionais em Reabilitação Equina (CERP), Quiroprática (IVCA) e Acupuntura (IVAS). (Ver Caixa)

Na HTS, Sara Abreu diz-nos que “o trabalho em passadeira aquática permite exercitar o cavalo diminuindo a carga do seu peso sobre as diversas estruturas dos membros distais (tendões, ligamentos, articulações) e ainda sem a carga adicional do cavaleiro”. Enquanto Carolina Nascimento, do Hidrovet, refere que “a resistência ao movimento provocada pela locomoção num meio aquático previne a atrofia muscular, fibrose e dor associada à imobilidade, tendo efeitos benéficos também na capacidade cardiorrespiratória”.

Outro equipamento utilizado, na HTS e no HidroVet, é o Spa (Crioterapia) “que funciona com água salgada a 2ºC e tanto pode ser usado como tratamento, como para prevenção de lesões a nível dos membros distais”, afirma Sara Abreu, acrescentando que “o shockwave tem grande aplicabilidade ao nível do tratamento de desmite do ligamento suspensor do boleto, bem como em casos de sobrecanas, sobremãos, sobrepés e fraturas. E também apresenta propriedades analgésicas bastante potentes”.

Os dois centros possuem outros tratamentos mais comuns (Laser, Ultrassom, etc.) e o HidroVet “incorporou recentemente a Acupuntura, com a colaboração da Dra. Mafalda Pardal (IVAS,) assim como a ozonoterapia”, refere Carolina Nascimento.

Sara Abreu quis ainda frisar que “a fisioterapia é uma área crescente principalmente em veterinária e é considerada uma parte fundamental na manutenção e recuperação de qualquer atleta. É indicada em situações de lesão músculo-esquelética, diminuição de performance ou mesmo apenas para melhorar a condição física do cavalo de modo a atingir o seu pico máximo a nível desportivo”.

Terapêuticas e equipamentos ao melhor nível

A Ortopedia de Equinos tem sido pioneira na utilização de novos tratamentos e terapêuticas, defende Nuno Bernardes e Ana Ferreira acrescenta que “alguns dos médicos veterinários de equinos dedicados à ortopedia em Portugal procuram uma formação e enriquecimento nesta área de forma contínua, assim como investem na aquisição de novos equipamentos, o que contribui para o melhor serviço prestado aos pacientes e acompanhamento da evolução científica no que respeita à área”.

A médica veterinária que trabalha na Hippiatria – Equine Medical Center diz ainda que “da mesma forma, alguns ferradores mostram grande interesse na evolução na sua área, havendo até veterinários que se dedicam exclusivamente à ferração, especialmente à ortopédica”. Falando dessa mesma área, “condicionado pelo interesse pessoal”, Nuno Bernardes chama a atenção “para a necessidade de um cuidado cada vez mais profissional dos cascos dos cavalos. Este cuidado permite que os cavalos se mantenham equilibrados respeitando as cargas em cada membro. Permite reduzir o impacto das vibrações com a utilização de materiais mais leves e com maior capacidade de amortecimento. Além disso é a regularidade desta atenção sobre os cascos que mais diferença faz: períodos de intervalo entre ferrações superiores a 45 dias são de evitar”.

Quanto às terapias, Ana Ferreira conta-nos que “nos últimos anos têm-se desenvolvido novas terapias, como o gel de poliacrilamida para articulações. Também terapias regenerativas têm vindo a ser cada vez mais usadas, o PRP (Plasma Rico em Plaquetas) é uma terapia aplicada com sucesso em lesões tendinosas e ligamentares, assim como o ACP (Autologus Conditionated Plasma) que de um modo geral é um PRP mais concentrado, criado mais recentemente e que existe disponível no nosso país. O IRAP (Interleukin-1 Receptor Antagonist Protein) para tratamento da Osteoartrite (uma das principais doenças dos cavalos do desporto, que limitam em muito a sua performance) é uma terapia recente em Portugal e com resultados muito positivos”.

E a médica veterinária acrescenta: “O PRP, ACP e IRAP normalmente obtidos a partir do próprio paciente, não são causa de reações adversas por serem autólogos (do próprio) assim como não comprometem qualquer controlo de doping realizado pois não envolve a administração de fármacos”.

A novidade: Ressonância Magnética

“A novidade mais recente de que tenho conhecimento é que, neste momento [julho], está em fase final de instalação um equipamento de MRI (Ressonância Magnética). Provavelmente já estará em funcionamento quando sair este artigo”, disse-nos João Paulo Marques, acrescentando: “Na minha opinião, como há muito venho a referir, Portugal não fica atrás de outros países da Europa, com mais prestígio no que diz respeito à qualidade dos médicos veterinários de equinos, mas a inexistência de equipamento de Ressonância Magnética e de Cintigrafia no nosso país constituía uma dificuldade significativa na obtenção ou confirmação de um diagnóstico mais exato condicionando a escolha dos tratamentos e o resultado final”.

Também Mónica Mira congratula-se pela ressonância magnética, “importante para identificar algumas lesões ósseas precocemente”, mas salienta que “há um meio de diagnóstico que ainda nos faz muita falta, que é largamente utilizado nos cavalos de corrida, e que pode ser útil para os cavalos de Endurance: a Cintigrafia Óssea”, adiantando que “normalmente recorremos a Madrid ou à Universidade de Cáceres para a fazer, porque tem a vantagem de poder identificar precocemente todas as lesões ósseas, nomeadamente essas que depois vão resultar em fratura”.

Manuel Torrealba, diretor da Hippiatrica – Equine Medical Center confirma-nos que “está em processo de instalação um equipamento de ressonância magnética” que “é um esforço conjunto entre a Hippiatrica e a Hallmarq”, adiantando: “sentimo-nos honrados por podermos cumprir com o perfil que a Hallmarq espera dos seus parceiros e assim trazermos esta alta tecnologia às nossas instalações”.

Terapêuticas não-convencionais

João Paulo Marques, da Equidesporto – Assistência Veterinária Móvel, não quis deixar de falar de “uma questão que penso que nos deve causar a todos alguma preocupação, embora não seja específica dos equinos” afirmando que “aparentemente em dissintonia com uma certa consciência crescente transversal a vários países de que exercer medicina não é apenas prescrever medicamentos e/ou referir para cirurgia, ganhando importância uma abordagem integrativa que pode incluir outras modalidades terapêuticas em complementaridade dos tratamentos convencionais, a nossa OMV (ou alguns membros dos seus Órgãos Sociais em particular) parece querer limitar o livre arbítrio dos seus membros, com ameaças implícitas de procedimentos disciplinares aos colegas que resolverem utilizar as chamadas terapêuticas não convencionais na sua prática clínica, parecendo incluir todas estas modalidades ‘no mesmo saco’ e partindo do princípio de que até prova em contrário são todas desprovidas de fundamentação científica”.

O médico veterinário assegura que é “completamente a favor de uma discussão séria sobre este assunto e de uma avaliação da evidência científica de várias modalidades terapêuticas, mas parece-me verdadeiramente inqualificável e inaceitável a forma como alguns membros do Conselho Profissional e Deontológico se têm manifestado publicamente a este respeito, revelando à partida uma falta de isenção e de imparcialidade que, a meu ver, não deveriam ser compatíveis com as funções que desempenham na OMV”. E acrescenta: “O senhor Bastonário já demonstrou que não partilha da mesma opinião e que modalidades como a Acupunctura, por exemplo, deverão ser rapidamente reconhecidas mediante análise da sua fundamentação científica e que outras modalidades poderão ser igualmente analisadas com isenção, mas ainda assim a recente polémica a este respeito e a forma como foi desencadeada surpreendeu-me”.