Luís Montenegro: «Veterinário e donos devem trabalhar em conjunto»

Luís Montenegro: «Veterinário e donos devem trabalhar em conjunto»

Os animais estão sujeitos a vários erros alimentares, o que provoca diversas patologias gastrointestinais, alerta Luís Montenegro, director clínico do Hospital Veterinário Montenegro. Em entrevista à Veterinária Actual, o director clínico salienta que «uma alimentação adequada é o melhor que se pode fazer por um animal para que este tenha saúde». À margem do V Congresso de Gastroenterologia, que se realizou nos dias 17 e 18 de Janeiro, Luís Montenegro considera que, em Portugal, a medicina veterinária está com um bom nível, logo «não temos do que nos envergonhar comparando com o que se passa no resto do mundo».

Veterinária Actual – Este ano o Congresso de Gastroenterologia aposta na formação e inovação entre os veterinários. Há lacunas nestes dois aspectos?
Luís Montenegro – Não. Neste momento, a nível da Europa é oferecida uma grande possibilidade de formação aos veterinários. A questão é que, muitas vezes, essa formação está associada a um comércio muito marcado. Nós tivemos uma ideia diferente porque conhecíamos os colegas e achamos que podíamos dar um contributo na formação das pessoas. Começamos por convidar as pessoas mais próximas, conseguindo que a indústria farmacêutica nos conseguisse patrocinar, de forma a podermos ter essa despesa assegurada neste tipo de evento. Somos diferentes no sentido que nunca associamos a formação a nenhum proveito económico. Assim, as pessoas também ficaram agradadas com esta nova forma de contribuir para a formação, o que muito nos orgulha, porque achamos que estamos claramente a colaborar para que haja um enriquecimento da nossa classe em Portugal e mesmo de Espanha, em termos de conhecimento, e sem que a isso esteja associado o factor económico.

A sociedade valoriza o papel do veterinário?
Acho que a sociedade sempre valorizou. Uma sociedade só se pode considerar perfeitamente desenvolvida quando se começa a preocupar com os animais. Mas não só com os animais domésticos. Sem dúvida que actualmente Portugal é um país desenvolvido e o cuidar dos animais é um reflexo disso mesmo. A população considera os animais como fazendo parte integrante do seu meio. E cada vez há mais preocupação em lhes proporcionar bem-estar e uma maior qualidade de vida.

Nesta época de crise, os animais não ficam esquecidos?
Acho que não. As pessoas têm menos possibilidades, logo têm de fazer algumas restrições. Os animais são no seio familiar um ente querido, por isso não vai ser descorada a despesa com o animal se este precisar.

O tema principal do Congresso é a gastroenterologia. Existem raças mais susceptíveis a patologias gastrointestinais?
A gastroenterologia é uma causa que traz muitos dos animais à consulta. Esses animais são sujeitos a muitos erros alimentares, o que leva a que sofram patologias gastrointestinais. Em relação às raças, as raças grandes estão mais sujeitas a uma emergência gastroenterológica, que é a dilatação do estômago e essa é uma característica destas raças. Todas as outras não têm doenças em particular. Têm todas é muitos problemas gastrointestinais dos erros alimentares a que são sujeitos no dia-a-dia. O cão tem um defeito que é se alimentar por gula. As pessoas muitas vezes não têm consciência e dão-lhes de comer. O que leva a que a obesidade nos nossos animais, nomeadamente no cão, seja, neste momento, uma doença crónica que merece uma especial atenção. Esta situação reflecte o que se passa com as pessoas. Estas comem de uma forma desajustada e acabam por passar esse princípio ao animal. Penso que ao explicarmos às pessoas que uma alimentação adequada e uma boa condição corporal são o melhor que se pode fazer por um animal para que este tenha saúde acabamos por passar esta mensagem ao proprietário. E, dessa forma, acho que acabamos por ter um papel na saúde pública porque ajudaremos a considerar a obesidade um problema.

Esses erros são, muitas vezes, culpa dos donos?
É uma simbiose entre dono e animal. Ambos se desleixam e comem mais do que o que devem. Normalmente, uma pessoa que é pouco preocupada com a sua alimentação não vai ser cuidadosa com a alimentação do seu animal.

Em que casos é estritamente necessário recorrer à cirurgia gastrointestinal?
A cirurgia gastrointestinal só é realizada quando não há outra forma de resolver determinada patologia. O sucesso depende muito do motivo que origina essa intervenção cirúrgica. Se tivermos oportunidade de, atempadamente, diagnosticar o problema e conseguirmos exercitar todo o nosso protocolo a percentagem de sucesso é equivalente à que se verifica na medicina humana. Mas uma coisa é estarmos a falar de um corpo estranho, em que nós cirurgicamente podemos resolver por completo o problema. Outra, é falarmos de uma patologia oncológica em que aí a cirurgia poderá não resolver o problema. A cirurgia faz parte de todo o conjunto do maneio médico do animal em que determinadas situações é o procedimento acertado.

A nível da inseminação artificial, o Hospital de Montenegro consegue taxas de sucesso que concorrem com os melhores centros de referência mundial. A que se deve esse sucesso?
Temos uma taxa de sucesso como normalmente têm as clínicas em Portugal. A inseminação artificial é uma técnica relativamente simples. Se formos rigorosos no cumprimento do protocolo acabamos por ter taxas de sucesso elevadas, que rodam os 80%.
O sucesso na medicina veterinária deve-se, essencialmente, ao rigor e ao cumprimento de todos os passos protocolares, no sentido de nada poder escapar ao nosso controlo e, dessa forma, podermos ser bem sucedidos naquilo a que nos propomos fazer.

E o que ainda falta fazer na área da inseminação artificial em Portugal?
Não falta muito. Estamos a fazer tudo aquilo que se faz no resto do mundo. Actualmente, começa-se a ponderar a possibilidade de cada vez mais se usar a inseminação artificial em situações de património genético, ou seja, a inseminação artificial permitirá que se possa preservar, principalmente no macho, determinadas características genéticas que podem anos mais tarde ser aproveitadas para conseguir algum resultado em termos de melhoria de determinadas raças.

Nessa área, estamos a acompanhar o que se faz fora de Portugal?
Em veterinária, acho que estamos com um bom nível e que não temos do que nos envergonhar comparando com o que se passa no resto do mundo. Acho que em Portugal se trabalha bem. É claro que o nosso objectivo é melhorar, mas não nos podemos considerar um país subdesenvolvido no serviço de cuidados médico-veterinários quando comparados com os melhores do mundo.

Como vê o desenvolvimento da investigação no nosso país?
Na prática clínica, aquilo que simplesmente fazemos é tentar colaborar com todos os projectos de investigação que nos são propostos. A investigação é mais da responsabilidade das nossas universidades e, na maioria dos casos, há trabalhos em curso de excelente qualidade e nós só fornecemos material para que esses estudos possam prosseguir. Os clínicos práticos não fazem investigação.

Que papel desempenham as universidades?
As universidades têm isso como principal objectivo. Actualmente, como estamos com algumas dificuldades económicas e as faculdades também se deparam com elas, elas próprias vão competindo um pouco com o mercado de trabalho e vão fazendo aquilo que fazemos na nossa prática clínica. Penso que se calhar o fazem porque são obrigados a tal. Acredito que quem dirige as universidades o que gosta de fazer é de ensinar e investigar. Acho que as nossas universidades, de uma forma geral, possibilitam um bom ensino. É claro que muitas vezes, e como são muitas em Portugal e não há uma concentração de esforço, deparam-se com algumas dificuldades em termos de equipamento e outras necessidades. Dificuldades que o nosso país tem problemas em comportar pelo elevado número de universidades existentes. Imagine-se que em Portugal existiam só duas universidades e aí conseguíamos juntar todos os excelentes professores e todos os meios técnicos. Tínhamos duas universidades de topo.

Na veterinária há ligação entre as universidades e o mercado de trabalho?
Os licenciados em Portugal têm normalmente um estágio curricular obrigatório e isso leva a que ainda sob tutela dos seus professores esses novos licenciados vão tendo algum contacto com a prática clínica, fazendo, a posteriori, um relatório de actividades que penso que funciona muito bem para a integração no mercado de trabalho.

Em que consiste a biossegurança?
Tudo o que diz respeito à segurança alimentar deverá estar sob a tutela do veterinário. Penso que o nosso curso nos possibilita um conhecimento que permite garantir em termos de saúde pública uma maior qualidade alimentar. Por isso, julgo que devemos ser tidos em conta e ter uma opinião final para que todos nos possamos alimentar com o máximo de segurança e confiança possível.

Qual a sua opinião sobre o trabalho da União Europeia nesta área?
Todos esses trabalhos têm como objectivo melhorar a qualidade dos produtos postos no mercado.

É importante a ligação entre os donos e os veterinários?
É fundamental. É impossível o veterinário por si só tratar o animal. Tenta-se cada vez mais ter uma medicina com pouco tempo de hospitalização. Os veterinários têm que tratar bem, mas precisamos que esses cuidados sejam continuados por parte dos proprietários. Para mim, o veterinário e o proprietário têm de trabalhar em equipa para que o resultado final seja conseguido.

As pessoas estão sensibilizadas para essa importância?
Cada vez mais. A pessoa começa a ficar sensibilizada na aquisição do seu animal. Aquela teoria de que dão o animal e é mais um está completamente ultrapassada em Portugal. Neste momento, claramente as pessoas procuram saber se têm ou não possibilidade de ter o animal. Possibilidade não só económica mas também de tempo e de espaço. O dono como pensa cada vez mais dessa forma acaba por se sentir mais responsável pela vida do seu animal, por isso vai-lhe possibilitando tudo aquilo que ele necessita. Tal como possibilita a outros membros da família.

A sociedade no geral trata bem os seus animais?
Como trabalhamos na prática clínica também temos contacto com os bons donos. Aquele que é mau nem a nós chega. Mas tem melhorado muito. Até porque actualmente existe uma crítica social quando o proprietário não presta um bom cuidado ao seu animal. Cuidado não só de saúde mas também no dia-a-dia, em termos de conforto, possibilidade de o animal se exercitar, alimentação adequada. Quando tudo isto não é conferido por parte do dono há uma crítica social que ajuda a controlar esse problema. Longe vai o tempo em que as pessoas eram criticadas por gastar dinheiro com o animal.

Qual o papel do Estado?
O Estado em tudo tem um papel fundamental. Mas não podemos esperar que o Estado faça tudo. Acho que pode fazer algum esforço no sentido de também ele contribuir para a melhoria das condições dos nossos animais. Mas penso que temos de ser nós, sociedade, a conseguir isso.

Quais os principais desafios da profissão?
Continuar a ter os animais em melhor condição de vida no geral. Também como promotores de saúde pública, cada vez mais contribuir para o progresso da ciência e para o desenvolvimento de novas técnicas que em sinergia com a medicina humana possam possibilitar melhores protocolos de tratamento de animais e pessoas. Penso que numa sociedade global em que vivemos, Portugal pode começar, inclusive na veterinária, a dar um contributo para que no geral a ciência médica possa ter o nosso carimbo e a nossa marca. Porque Portugal tem condições para que tal aconteça.

Que projectos futuros tem para o Hospital Montenegro?
Vamos tentar, enquanto tivermos apoios, repetir este Congresso no mesmo modelo e sem o objectivo económico, proporcionando uma formação de alta qualidade, o convívio entre colegas, com o objectivo de unir toda a classe e dessa forma podermos todos melhorar no futuro. A nível do hospital, temos vários planos. Pensamos num futuro criar uma estrutura nova que possa possibilitar melhores condições a todos aqueles que nos procuram. Mas penso que as estruturas não são o mais importante. Preocupo-me mais com a minha equipa. Tenho uma equipa fabulosa e como tal tenho a certeza que vamos continuar a prestar um bom serviço.