Quais são as principais causas do hipertiroidismo felino?
O hipertiroidismo felino está sobretudo associado à idade, ou seja, quanto mais velho for o gato, maior probabilidade tem de desenvolver a doença. Está também provado que aparece com mais frequência em gatos que consomem comida húmida, nomeadamente comida enlatada. Acredita-se que tal possa acontecer devido a alguma substância contida nas embalagens e que poderá influenciar o desenvolvimento de hiperplasias na glândula tiroideia. Mas estes são apenas fatores de risco, nenhum vai originar obrigatoriamente hipertiroidismo nos gatos.
A partir de que idade é mais normal o desenvolvimento da doença?
Pode começar a surgir a partir dos seis anos de idade, mas é mais frequente a partir dos dez anos.
Há alguma raça de gatos mais predisposta ao desenvolvimento desta patologia?
Não. Sabe-se que os siameses desenvolvem um pouco menos a doença, mas não há uma raça mais predisposta que outra.
Qual é a prevalência da doença?
Na Alemanha e no Reino Unido a prevalência de hipertiroidismo felino ronda os 11%, mas este valor varia muito de país para país. Esta variação pode acontecer porque, por exemplo, também difere a taxa de consumo de comida enlatada. Por outro lado nem todos os países diagnosticam a doença de forma igual, nem sempre o hipertiroidismo é uma hipótese considerada.
Quais são os sintomas mais frequentes?
Os sintomas mais frequentes são beber muita água, aumento da quantidade de comida ingerida, perda de peso e maior agitação. Porém, acontece frequentemente a doença ser diagnosticada em fases muito avançadas, com os gatos já muito doentes. Porque os sintomas nem sempre são muito preocupantes. Embora os gatos mostrem alguma agitação, não são necessariamente maus para os seus donos. E se estavam muito gordos, acabam por ficar com o seu peso normal, o que também não chama muito a atenção. O facto de beberem mais água também não costuma ser motivo de preocupação. Muitas vezes os donos que descobrem que o gato está doente dizem que acreditavam que o animal estava bem e feliz. Tudo isto acaba por dificultar ou atrasar o diagnóstico.
Quais são as consequências de não tratar o hipertiroidismo felino?
A falta de tratamento pode ter graves consequências, nomeadamente ao nível dos rins e coração. O hipertiroidismo felino aumenta a frequência cardíaca, pelo que o músculo cardíaco tem de fazer mais trabalho, o que dá azo ao desenvolvimento de doenças cardíacas a longo prazo que podem mesmo conduzir à morte. Outra das possíveis consequências é a hipertensão, que também afeta o coração e diversos órgãos, especialmente o rim. Os gatos com hipertiroidismo não tratado tendem a ficar com a função renal muito afetada a longo prazo.
Quais são os exames que permitem diagnosticar a doença?
A observação do gato tem de nos fornecer pistas. Pode ser que o animal tenha taquicardia, mas poderá não ter e, nesse caso, não é fácil diagnosticar. Então têm de ser feitas análises clínicas. É fundamental fazer T4 (tiroxina) em todos os gatos em relação aos quais há suspeitas. Mas a simples determinação da T4 normal não exclui a possibilidade de o gato ser hipertiroideu. Há que continuar a pesquisar se os sintomas estão presentes, analisando a T4 livre e a TSH. É muito importante a realização das análises, sobretudo porque é muito mais frequente o hipertiroidismo não evidente do que o evidente.
Que tratamentos estão disponíveis?
Existem vários tratamentos possíveis. Um deles é a cirurgia, mas antes de esta intervenção ser realizada é importante que o gato faça uma cintigrafia. Este exame permite localizar corretamente o tecido afetado, para que a cirurgia seja realizada com precisão. Porém, a cintigrafia não está disponível em todos os centros. Trata-se de uma técnica curativa se for bem executada, mas o problema pode aparecer noutra glândula. Outro tratamento possível é a radioterapia. É uma técnica fantástica, mas são poucos os centros que a fazem. Por exemplo, em Espanha e em Portugal não é possível recorrer a esta hipótese. Os donos que optem por esta solução têm de se deslocar a França ou à Alemanha. Por seu turno, a terapia com fármacos é a mais tradicional. Agora há uma outra opção, a dieta y/d com iodo restringido, que é uma alternativa tão boa como a terapia farmacológica.
Quais são as vantagens e desvantagens da terapia com fármacos e da nova dieta?
A terapia com fármacos implica dar comprimidos todos os dias, com a dificuldade que isso acarreta. Alguns gatos aguentam-se apenas com um comprimido por dia, mas outros têm de tomar mais. A dieta também pode ser complicada de levar a cabo, porque tem de ser exclusiva e alguns donos gostam muito de variar a comida dos animais. Outro problema surge se houver mais gatos em casa, porque os animais saudáveis não devem comer exclusivamente esta comida. Neste caso, a solução poderia ser disponibilizar para todos a dieta com iodo restringido, mas sem esquecer de dar, diariamente, aos gatos que não têm a doença uma ração normal, fechando-os na cozinha, por exemplo. Desta forma estaria garantida a compensação necessária de iodo. Tanto a terapêutica com comprimidos como a dieta são para toda a vida. Em termos de custo financeiro não é fácil fazer uma comparação direta entre uma opção e outra, tal depende de diversos fatores.
Se os gatos com hipertiroidismo tendem a estar um pouco mais agitados, ou até agressivos, poderá ser complicado dar-lhes comprimidos todos os dias. Nessas situações é preferível optar pela dieta?
É verdade que estes gatos estão um pouco mais agitados e custa sempre ao dono dar os comprimidos. Mas também é verdade que a dieta pode igualmente ser complicada de administrar porque os gatos não gostam de comer sempre a mesma coisa. Então há que ter em conta cada caso e valorizar as preferências do dono. As duas opções são boas e é preciso ter presente que ambas são de longo prazo. Para alguns donos será mais fácil, ou fará mais sentido dar os comprimidos porque o fazem com alguma facilidade ou até porque têm outros gatos em casa e o custo final de dar a dieta a todos pode não lhes compensar.
Quem é Marisa Palmero
Marisa Palmero é médica veterinária em Madrid e veio a Portugal a convite da Cesman-Hill´s Pet Nutrition para apresentar um simpósio de casos clínicos interativos sobre hipertiroidismo felino. O encontro realizou-se em Lisboa e no Porto nos dias 16 e 17 de maio respetivamente. A veterinária é cofundadora do Gattos Centro Clínico Veterinario, de Madrid, onde desenvolve a sua atividade profissional. É membro da Asociación Madrileña de Veterinarios de Animales de Compañía (AMVAC), da Asociación de Veterinarios Españoles Especialistas en Pequeños Animales (AVEPA), pertence ao Grupo de Trabalho de Medicina Felina de Espanha (GEMFE) desde a sua criação e integra a European Society of Feline Medicine desde 2005.
Sintomas mais frequentes
O hipertiroidismo felino surge em gatos adultos ou idosos sem qualquer relação com a raça ou sexo. Os sintomas podem ser de difícil reconhecimento, o que acaba por dificultar o diagnóstico. Acredita-se que a prevalência da doença seja mais elevada nos países em que os clínicos estão mais sensíveis para o problema. Entre os sintomas mais frequentes destacam-se:
Perda de peso
Hiperatividade
Mais apetite
Aumento do consumo de água
Micções mais frequentes
Aumento do ritmo cardíaco e arritmias
Vómitos e diarreia

