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Animais de Companhia

APMVEAC dedica novos grupos a animais exóticos e raças de conformação morfológica extrema

APMVEAC dedica novos grupos a animais exóticos e raças de conformação morfológica extrema

A Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (APMVEAC) arranca 2026 com a criação de dois novos grupos: um dirigido a animais exóticos e outro que irá estudar qual a melhor forma de abordar junto de médicos veterinários, indústria e tutores a problemática dos animais de raças de conformação morfológica extrema. A VETERINÁRIA ATUAL falou com os responsáveis sobre os objetivos de cada uma destas novas estruturas.

O anúncio foi feito no final do ano passado: a APMVEAC inicia 2026 com a criação do Grupo de Interesse Especial em Animais Exóticos e a formação de um Grupo de Trabalho sobre a problemática das raças de conformação morfológica extrema. A VETERINÁRIA ATUAL falou com Emir Chaher, presidente da Associação, sobre os objetivos inerentes a cada um destes grupos. Segundo o responsável, a criação de um Grupo de Interesse Especial (GIE) dedicado aos chamados novos animais de companhia “era uma ambição que tínhamos para colocar em andamento há muitos anos”, visto que esta é uma área da medicina veterinária que a APMVEAC considera necessitar de maior reconhecimento entre os profissionais que estão na prática clínica.

 

Emir Chaher admite que a presença dos animais de companhia considerados exóticos tem vindo a crescer na atividade quotidiana dos centros de atendimento médico-veterinário (CAMV), muito embora nos lares nacionais sempre tenha existido a tradição de manter coelhos e hamsters, os animais mais comuns deste grupo específico. “Há décadas que isso acontece, o que é novidade é o aparecimento de outros animais, como os répteis e as aves exóticas”, acrescenta o presidente da APMVEAC, o que tem feito aumentar a necessidade de melhorar e partilhar conhecimentos entre a comunidade médica veterinária.

A impulsionar a criação deste novo GIE – que se junta aos restantes 15 da APMVEAC (ver caixa) – esteve também a organização do ICARE’26 – International Conference on Avian, Herpetological, Exotic Mammal, Zoo and Wildlife Medicine, a maior conferência mundial de animais exóticos. Portugal foi o país escolhido para ser anfitrião da 7.ª Conferência Internacional dedicada a esta população, que terá lugar de 11 a 15 de abril no Centro de Congressos de Lisboa, com a vertente prática formativa a decorrer na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa (FMV-UL). De recordar que o encontro, que acontece a cada dois anos, tem como parceiros de organização o European College of Zoological Medicine (ECZM), a European Association of Avian Veterinarians (EAAV), a Association of Exotic Mammal Veterinarians (AEMV) e a Association of Reptile and Amphibian Veterinarians (ARAV), sendo o comité organizativo local coordenado pelo médico veterinário Daniel Castro. “Justamente por ser um Congresso organizado em Lisboa decidimos desafiar os colegas que já fazem parte da APMVEAC e trabalham com animais exóticos, e outros colegas interessados, a porem em funcionamento um grupo de interesse em animais exóticos e, durante o evento, organizarem algumas atividades próprias para divulgar o grupo e atrair colegas que tenham interesse em animais exóticos”, acrescenta Emir Chaher.

 

Animais exóticos: Um crescimento desafiante
A coordenar o GIE em Animais Exóticos estará Ana Reisinho, atual coordenadora do Serviço de Animais Exóticos do Hospital Escolar Veterinário da FMV-UL, que já era a responsável na APMVEAC pelas traduções para português dos documentos da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA). Em conversa com a VETERINÁRIA ATUAL, a médica veterinária admite que a vertente dos animais exóticos “tem crescido muito, quer em números de colegas que fazem esta área, quer na procura da parte dos clientes, porque, garantidamente, há 15 anos as pessoas não tinham noção [do que era ter um animal exótico]”.

Nos últimos anos, Ana Reisinho tem observado “uma exigência maior da parte do público, uma procura maior e uma oferta maior também” no leque de CAMV que vão disponibilizando os cuidados diferenciados a estas espécies e, por inerência, na dispersão de profissionais que se interessam por estes animais de companhia. Nessa medida, admite a coordenadora do GIE, “há necessidade de agregar essas pessoas, porque não existe nenhuma instituição em Portugal que agregue os veterinários que veem os novos animais de companhia”. Mas, por outro lado, acrescenta, “acho também importante oferecermos bases aos colegas que não têm esta valência [de atividade], para que, eventualmente, se lhes aparecer em consulta um animal destes possam, pelo menos antes de referenciarem, dar uma ajuda a esses animais, que também merecem”.

 

“Há necessidade de agregar essas pessoas, porque não existe nenhuma instituição em Portugal que agregue os veterinários que veem os novos animais de companhia”
Ana Reisinho, coordenadora do GIE em Animais Exóticos

 

Ana Reisinho tem dedicado a vida profissional a este grupo de animais e tem sido espetadora atenta das alterações que o mundo da medicina veterinária registou face ao crescente interesse pelas espécies exóticas. E o reflexo desse cenário originou a necessidade de revisão curricular do programa educativo da FMV-UL “que passou a incluir uma disciplina curricular obrigatória de exóticos. Anteriormente existia apenas uma [cadeira] opcional para quem quisesse estudar [esta área]  no quinto ano, mas agora todos os alunos que passam por aqui, pelo menos na nossa instituição, terão uma disciplina anual onde vão ter as primeiras noções sobre animais exóticos”, adianta a responsável.

Sobre o GIE, Ana Reisinho esclarece que está em marcha a constituição da equipa que colocará em andamento as atividades do grupo, sendo que o ICARE’26 será uma ótima oportunidade para divulgar a existência da estrutura junto da comunidade. Posteriormente, acrescenta, “o GIE funcionará como os restantes da APMVEAC, com a realização de uma ou duas formações durante o ano, para médicos e enfermeiros também”. Na agenda de eventos da APMVEAC para 2026 está já programada uma formação em animais exóticos que acontecerá a 27 de junho na sede do Sindicato Nacional dos Médicos Veterinários, em Lisboa, e a 28 de Junho na Casa da Prelada, no Porto, e contará com o especialista europeu Manfred Hochleithner e com Claudia Hochleithner.

Grupo de Trabalho: Ter a evidência científica a apoiar as decisões de médicos veterinários e tutores
O ano de 2026 fica também marcado pela criação do Grupo de Trabalho sobre a problemática das raças de animais de companhia com conformação morfológica extrema. Ao contrário dos GIE, que são permanentes e “têm uma atividade própria e organizada pelos próprios grupos, para desenvolver uma área específica da medicina veterinária”, os Grupos de Trabalho “são criados ad hoc pelo Conselho Diretivo da APMVEAC para abordar um assunto específico, no qual achamos que a Associação deve envolver-se, mas que funcionam unicamente enquanto a esse assunto justificar a sua existência”, explica Emir Chaher. O mesmo aconteceu com o Grupo de Trabalho sobre o licenciamento radiológico dos CAMV e o grupo que trabalhou nos recursos sobre o bem-estar profissional e a saúde mental que culminou com a criação da plataforma no site da APMVEAC sobre esta temática. “Há já muitos anos que nos debruçamos sobre o tema da criação de animais com características extremas e da seleção genética, inclusive no Congresso Mundial da WSAVA que aconteceu em Portugal [em 2023] foi um dos temas da responsabilidade da APMVEAC. Fala-se muito dos cães braquicefálicos, mas o nosso grupo pretende abordar todas as manifestações de características extremas de animais de companhia, em gatos, coelhos e não é só os animais braquicefálicos, mas também alguns tipos de seleções de raças que acabam por manifestar problemas de saúde graves” acrescenta o responsável.

A ideia de criação deste Grupo de Trabalho vem na sequência das tomadas de posição de organizações internacionais de medicina veterinária – como a WSAVA e a Federation of European Companion Animal Veterinary Associations (FECAVA) – pretendendo a Associação nacional fazer uma compilação “dos consensos que já existem dentro da profissão”, mas sobretudo, acrescenta o dirigente, tornar “o médico veterinário de animais de companhia num agente fundamental na divulgação desta problemática” e uma voz a ser ouvida na criação de políticas públicas.

Tal como aconteceu para a saúde mental, é objetivo deste grupo criar dentro do site da APMVEAC um hub que aglomere informação para profissionais de saúde animal – para que possam aconselhar os tutores no momento de escolher um animal de companhia – e para tutores, de forma que a compra de animais seja informada e consciente. “A APMVEAC é uma associação técnico-científica e os nossos objetivos não são de criação de legislação, de algum tipo de alteração legislativa ou de proibição [de criação de algumas raças] como existe noutros países. O nosso objetivo é criar parecer técnicos, baseados em evidência científica, que sirvam aos colegas e a quem de direito para tomar decisões fundamentadas acerca deste tema”, acrescenta o presidente da APMVEAC.

“A APMVEAC é uma associação técnico-científica e os nossos objetivos não são de criação de legislação, de algum tipo de alteração legislativa ou de proibição [de criação de algumas raças] como existe noutros países. O nosso objetivo é criar parecer técnicos, baseados em evidência científica, que sirvam aos colegas e a quem de direito para tomar decisões fundamentadas acerca deste tema”
Emir Chaher, presidente da APMVEAC

Pensar, em primeiro lugar, na saúde do animal
À frente do Grupo de Trabalho sobre a problemática das raças de animais de companhia com conformação morfológica extrema estará Paulo Pereira, presidente da Secção Regional Centro da APMVEAC. Terá a companhia de Emir Chaher, Patrícia Branco, vice-presidente da APMVEAC, Inês Freitas, médica veterinária e criadora, Manuel Sant’Ana, especialista europeu diplomado pelo European College of Animal Welfare and Behavioural Medicine (ECAWBM) e membro da Comissão Científica da Associação, Tomás Magalhães, presidente do GIE de Medicina Felina, Inês Guerra presidente do GIE de Comportamento e Bem-Estar Animal, Paulo Borges, presidente do GIE de Reprodução, e Teresa Abrantes que exerce funções de diretora da APMVEAC desde o final de 2025.

Paulo Pereira lembra, em declarações à VETERINÁRIA ATUAL, que além do trabalho realizado aquando do Congresso da WSAVA em Lisboa e dos webinares realizados sobre este assunto, já em 2017 a Associação dirigiu uma carta a empresas farmacêuticas e a grupos de media “a chamar a atenção para a utilização de animais de conformação morfológica extrema” pois “podia ser um convite a que estes se tornassem mais populares o que, se calhar, não era o recomendável”.

Não obstante, a APMVEAC teve o cuidado de não restringir o grupo aos animais braquicefálicos e alargar o âmbito de atuação a todas as morfologias consideradas extremas. “É claro que se fala muito de braquicefálicos, até porque são as raças mais vendidas neste momento e são elas que nos aparecem muito mais frequentemente. Mas, não queremos apenas focar-nos apenas nessas raças e também não só em cães e gatos, pois também existe extreme breeding nos coelhos. Portanto, também há todo um conjunto de animais para além dos braquicefálicos que podem beneficiar desta discussão”, acrescenta Paulo Pereira.

Benefícios sobretudo que podem ser sentidos ao nível da saúde destas espécies, uma vez que, sublinha o responsável, “são animais, que se formos a ver quantas especialidades abordam os braquiocefálicos por doenças específicas, provavelmente mais de metade das especialidades de medicina veterinária vão ter algum trabalho concreto específico nestas raças. E, na verdade, se alargarmos o conceito da conformação extrema, em princípio serão mesmo todas as especialidades”. Daí que seja importante consciencializar médicos veterinários para o aconselhamento dos tutores, para os cuidados específicos destas raças, coletando e disponibilizando a mais recente evidência científica publicada sobre estas raças. Também está a ser ponderada a realização de um webinar para profissionais de saúde animal sobre a abordagem ao animal de companhia de raça com conformação morfológica extrema.

“Se formos a ver quantas especialidades abordam os braquiocefálicos por doenças específicas, provavelmente mais de metade das especialidades de medicina veterinária vão ter algum trabalho concreto específico nestas raças. E, na verdade, se alargarmos o conceito da conformação extrema, em princípio serão mesmo todas as especialidades”
Paulo Pereira, coordenador do Grupo de Trabalho sobre raças de animais de companhia com conformação morfológica extrema

É igualmente um objetivo ter tutores conscientes do que os espera quando adquirem um animal com características morfológicas extremas. Aliás, eventualmente, poderá ser equacionado disponibilizar no site da APMVEAC um “documento pré-compra ou pré-adoção destes animais” no qual sejam elencados os vários problemas de saúde que podem afetar cada espécie.

De fora, reitera o coordenador do Grupo de Trabalho, parece estar o intento de advogar algum tipo de proibição de criação destas raças, como aconteceu nos Países Baixos, que já proibiu a criação de 20 raças de braquicéfalos, e da Noruega que avançou com a proibição a criação do Bulldog Inglês e Cavalier King Charles Spaniel.

GIE de Estomatologia relançado
Na conversa com a VETERINÁRIA ATUAL, Emir Chaher avança ainda que foi “relançado o GIE de Estomatologia”, que será coordenado por Lisa Mestrinho, professora na FMV-UL e diplomada pelo American Veterinary Dental College e pelo European Veterinary Dental College.O presidente da Associação reconhece que o relançamento da atividade deste GIE está diretamente relacionado com a realização do 33RD European Veterinary Dental Forum (EVDF), organizado pela European Veterinary Dental Society (EVDS) em colaboração com o European Veterinary Dental College (EVDC) e um comité local anfitrião para o evento, com participação da APMVEAC, que decorrerá entre 7 e 9 de maio próximo no Porto.De recordar que, de momento, existem 16 GIE no seio da APMVEAC que cobrem as áreas de interesse da Medicina Felina, da Oftalmologia, da Gestão e Administração Veterinária, da Traumatologia e Ortopedia Veterinária, da Oncologia, da Medicina Interna, do Diagnóstico por Imagem, da Cirurgia, do Comportamento e Bem-Estar Animal, da Anestesia e Analgesia Veterinária, da Nutrição, da Reprodução de Animais de Companhia, de Dermatologia e Imunoalergologia, Animais Exóticos, Estomatologia e Reabilitação Animal.

 

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