Veterinários Portugueses pelo Mundo

“Há um gosto quase que irracional que faz com que adore neurologia”

Susana Monforte, junior clinical veterinarian in neurology, Universidade de Cambridge

Qual a sua área de especialidade e porque escolheu essa área?

A minha área de especialidade é Neurologia (médica e cirúrgica). Embora a maioria dos meus pacientes sejam animais de companhia, por vezes também vejo animais de produção ou equinos. Foi durante o último ano de faculdade, onde passei uma temporada na Universidade de Cornell e fiz a minha rotação desta especialidade, que decidi que queria ser neurologista, depois de ver a minha primeira craniotomia. A abordagem lógica e sistemática e a ponte que estabelece entre diferentes disciplinas (além da neurologia médica e neurocirurgia podemos ainda falar de neuro-oftalmologia, neuro-oncologia, neuropatologia, neuro-imagiologia) atraem-me imenso. Há, depois, um gosto quase que irracional que faz com que simplesmente adore neurologia!

Como surgiu a oportunidade de trabalhar no estrangeiro? Onde trabalha neste momento e qual a sua função?

Como parte do meu estágio final tinha sido feito na Universidade de Cambridge. Concorri para fazer internato (Junior Clinical Training Scholarship) na mesma instituição e consegui ser selecionada. Depois de acabar o internato fiquei por Cambridge. Trabalhei como veterinária em hospitais e clínicas de pequenos animais na região e passei algum tempo no departamento de Neurociências da Universidade de Cambridge. Entretanto surgiu a oportunidade de trabalhar como Junior Clinical Veterinarian in Neurology (a minha posição atual, que funciona como um segundo internato, mas apenas em Neurologia) em Cambridge, na Universidade, e, daqui a um mês, começo a residência (Senior Clinical Training Scholarship) na mesma instituição.

O que a fez tomar a decisão de sair de Portugal?

Sempre tive como objectivo, desde o término do curso, ir para fora do país de modo a conseguir ter treino formal na especialidade que tinha escolhido. No meu último ano de faculdade, durante o qual passei por Cambridge, Cornell e U.Penn, percebi que hospitais escolares multidisciplinares eram o ambiente ideal para prosseguir com os meus estudos. Neste tipo de hospitais teria acesso não só a profissionais no topo na sua especialidade, mas a equipamentos (como ressonância magnética ou máquinas para electrodiagnosticos) que me ajudariam a tornar a melhor profissional que posso ser. Além disso sempre ambicionei viver, pelo menos durante algum tempo, num outro país. Acho que crescemos muito a nível pessoal.

Quais as diferenças que encontra entre os métodos de trabalho nos dois países? Ou seja, como é um dia de trabalho normal?

O dia começa por volta das 08:00, em que avalio os pacientes internados, fazendo um exame clínico e neurológico juntamente com os alunos. Às 09:00 discuto os casos com os colegas e durante a manhã temos consultas e/ou neurocirurgia. Durante a tarde fazemos outros procedimentos, como ressonâncias magnéticas, colheita de líquido cefalorraquidiano ou exames electrodiagnosticos. A natureza desta especialidade faz com que uma grande percentagem dos nossos casos cheguem como emergências, e esta ordem pode alterar-se por completo! Há ainda outras atividades durante a semana, em preparação para o exame da especialidade. Isto inclui Journal Clubs, clube de neuropatologia, clube de ressonância magnética, etc. Entretanto, se tiver algum tempo livre, geralmente dedico-o ao ensino ou a investigação. Geralmente por volta das 19:00 os relatórios sobre os casos já foram enviados para o veterinário que o referiu e o dia de trabalho termina.

Como é viver fora de Portugal? Conseguiu adaptar-se bem?

Não tive qualquer problema em adaptar-me a viver no Reino Unido. Tenho a sorte de viver numa cidade extremamente internacional e tenho amigos de várias nacionalidades, incluindo ingleses. Mesmo no trabalho cerca de metade dos meus colegas são estrangeiros. Mas não acho que a cultura seja assim tão diferente, e a proximidade geográfica com Portugal significa que, mesmo estando noutro país, consigo visitar a família com frequência.

Quais os seus planos para o futuro?

Acabar a residência e passar o exame de especialidade. Gostaria de continuar a trabalhar num hospital multidisciplinar e conjugar o trabalho clínico com investigação de qualidade.

Equaciona voltar a Portugal?

Sim, mas a médio prazo. Gostaria imenso de desenvolver colaborações com colegas em Portugal.

Se sim qual o trabalho/projeto gostaria de desenvolver?

Faz-se em Portugal medicina veterinária de muita qualidade, mas acho que faria todo o sentido no futuro estabelecer mais colaborações entre colegas generalistas e veterinários que optaram pela especialização, de modo a poder oferecer o melhor cuidado possível ao paciente. Adoraria poder contribuir não só para esta relação, mas também para a formação de novos colegas e poder associar ensino, clínica e investigação, áreas que, de formas diferentes, são muito estimulantes.

Que conselhos dá aos recém-licenciados com dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?

Que sejam determinados. Haverá sempre adversidades ao longo da vida, mas o importante é não perder a esperança e a convicção que um dia chegam onde querem. Mas não podem ficar sentados à espera que algo aconteça, as oportunidades criam-se! Entretanto não se esqueçam de viver, a carreira não é tudo.

Qual o seu sonho?

Um dia uma colega ofereceu-me um caderno que dizia: eu não tenho sonhos, tenho planos. Portanto os meus planos são atingir realização pessoal, incluindo ter mais tempo para os amigos e família, viajar mais, enriquecer a vida daqueles que me rodeiam e também a minha. E também concretização profissional: ser a melhor neurologista que posso ser, explorar mais a especialidade, mas que um dia também seja recordada como uma pessoa com quem era um prazer trabalhar!