Dermatologia: Doenças à flor da pele

Dermatologia: Doenças à flor da pele

Uma área complexa da medicina veterinária, devido ao sem número de patologias cutâneas que os animais podem apresentar, bem como todas as outras doenças que se manifestam na pele, os problemas dermatológicos são, actualmente, um dos principais motivos de consulta em animais de companhia. Do sucesso do tratamento depende um bom diagnóstico, mas sobretudo o completo seguimento da prescrição médica que nem sempre é acatada pelos donos, impacientes, e com a falta de sinais de melhoras visíveis. 

Dado o facto de ser uma patologia com sinais visíveis e actualmente os animais passarem a maior parte do seu tempo dentro de casa e em contacto com os donos, estes têm tendência a consultar o médico veterinário cada vez mais cedo.

Contudo, uma vez que os bichos não falam, a pele e a pelagem serve muitas vezes de interlocutor para o médico veterinário perceber o estado de saúde do animal e, muitas vezes, a história que contam não é nada feliz. Isto porque é comum aparecerem animais com «a pele em muito mau estado e em fases avançadas da doença, principalmente nos últimos tempos», conforme conta Nélia Carvalho, directora clínica da Clínica Veterinária Quinta do Anjo, em Palmela. 

Problemas muito comuns

E entre as principais queixas encontram-se problemas de origem alérgica, nomeadamente a alergia à picada de pulga, a dermatite atópica, ou as reacções adversas aos alimentos, mas também a perda de pêlo, geral ou parcial, muitas vezes associadas a factores sazonais ou endócrinos.

Otites externas, tumores cutâneos ou dermatofitoses também são comuns, mas são as sarnas demodécicas que têm estado no topo dos casos dermatológicos no consultório de Nélia Carvalho.

Na zona de Leiria, conforme conta Olga Lagoa de Sousa, uma das fundadoras da Clínica Veterinária do Lis, há «uma incidência muito elevada de problemas alérgicos (dermatites alérgicas), sendo a dermatite de alergia à picada da pulga a mais relevante».

Por seu turno, Isabel Serra, da Clínica Vetandom, em Lisboa, conta que a prevalência nos felinos vai para a dermatofitose, e no caso dos canídeos a demodecose (provocada por ácaros) e as dermatites por alergia à picada de pulga.

Por último, Sofia Marques avalia as doenças alérgicas, a atopia, a intolerância dietética que pode ter manifestações dermatológicas e a dermatite por picada da pulga ou por outros ectoparasitas como as doenças dermatológicas com maior prevalência entre os animais de companhia portugueses.

Contudo, há ainda que contar com as doenças não dermatológicas, «mas que se podem manifestar com sintomas na pele, nomeadamente doenças endócrinas (hiperadrenocorticismo, hipotiroidismo, dermatoses sensíveis a castração) e a não menos rara leishmaniose, doença parasitária, em que o parasita se aloja particularmente no sangue e outros órgãos, nomeadamente a pele», conta a médica veterinária que acrescenta ainda que o ouvido, «um órgão muito relacionado com a pele e que traz muitos pacientes à consulta» tem entre «a maior causa de otites a alergia, especialmente a atopia».

Animais mais afectados

Conforme explica Sofia Marques, «os animais de pêlo curto são mais sensíveis por terem a pele mais exposta», além de que «as raças mais propensas a problemas dermatológicos são aquelas cuja pele tende a ser mais oleosa (Shar-Pei, Fox Terrier, Basset Hound)». Além disso, também os canídeos ou felinos de cor branca são propensos a dermatites solares e tumores de pele e os cães são «mais propensos a atopia – doença geneticamente hereditária», sendo as raças mais afectadas o Labrador, Cocker Spaniel, Caniche, Golden Retrievier, Fox Terrier, Westy, Pastor Alemão, Shar-Pei e Beagle, segundo descreve Sofia Marques.

Na clínica do Liz também se nota uma «maior prevalência no cão do que o gato, e raças como o Retriever do Labrador e os Golden Retriever são das mais afectadas».

Já Isabel Serra revela que, se em termos de raças estas patologias são transversais, as lesões «são sempre mais exuberantes em animais de pelagens compridas, talvez porque detectadas mais tardiamente pelos donos».

«Diagnóstico nem sempre é fácil»

As alterações da pele e pêlos dos animais são os primeiros sinais de que algo pode estar errado, pelo que há que estar atento e fazer o diagnóstico o mais precocemente possível. Assim, sinais como pruridos persistentes, feridas e manchas ou alteração de coloração na pele, presença de ectoparasitas e queda de pêlo permanente são os principais alertas.

Dado tratar-se de um problema normalmente visível, há uma tendência para os donos se deslocarem cada vez mais cedo à clínica, que Isabel Serra explica se dever ao facto de temerem pela sua saúde e dos restantes familiares, «pois têm sempre receio que se tratem de situações contagiosas para humanos ou restantes animais da casa». Contudo, nem sempre assim é. Como conta Nélia Carvalho, «há animais que chegam já num estado muito avançado da doença, com lesões muito exuberantes, em que se torna difícil detectar a causa primária».

Há ainda que contar com algum mimetismo entre as lesões e de, apesar de estas serem facilmente acessíveis ao exame clínico, o diagnóstico ser complicado. Assim, face a estas dificuldades, um exame clínico bem conduzido e exames complementares adequados são a chave de um diagnóstico etiológico e também de um tratamento eficaz.

Maior diversidade de auxiliares

Em termos de diagnóstico, Isabel Serra, da Clínica Vetandom, em Lisboa, afirma que actualmente os médicos veterinários têm ao seu dispor «uma enorme variedade de exames complementares que na prática diária nos permitem fazer o despiste da real causa do problema». Mesmo nos casos em que a clínica não dispõe dos equipamentos necessários, «com facilidade, nas grandes cidades, se consegue fazer uma biópsia cutânea, raspagens para observação microscópica, ou mesmo, testes de alergias com diversificados painéis de alergenos, até testes de screening para eventual confirmação de alergias», explica Isabel Serra.

Além disso, a médica veterinária sublinha a necessidade do «preenchimento de adequadas fichas técnicas dermatológicas, compilando toda a informação sobre o animal e descrição pormenorizada das lesões observadas», dado que, desta forma, se consegue, «com maior grau de certeza, chegar à génese do problema».

Aumentar eficácia

Se para Olga Lagoa de Sousa, os meios de diagnóstico não têm tido muitos desenvolvimentos nos últimos anos, já no caso da medicação a médica veterinária considera que a «introdução da ciclosporina veio ajudar muito no controle de doenças atópicas que eram muito difíceis de controlar com outras medicações».

Também Isabel Serra, da Clínica Vetandom, em Lisboa, diz que, «na área da dermatologia, como nas restantes especialidades, os avanços passam pela tentativa de reduzir drasticamente efeitos colaterais dos medicamentos, face a uma maior eficácia».

Sofia Marques diz mesmo que «têm havido alguns avanços por parte dos laboratórios veterinários, no desenvolvimento de fármacos mais eficazes e com menos efeitos secundários no tratamento de ectoparasitas e atopia».

A médica veterinária revela que a investigação levada a cabo «principalmente na Europa e cujos avanços nos são comunicados por meio de simpósios, congressos ou monografias distribuídas pelos delegados de propaganda médico-veterinária, vão-nos mantendo a par dos avanços nesse sentido».

Além disso, considera que a nutrição também tem desempenhado um papel preponderante, «nomeadamente através de nutrientes anti-inflamatórios que coadjuvam medicamentos no maneio de doenças crónicas da pele, como a atopia».

Outra grande inovação que destaca é a aplicação de antiparasitários externos de longa duração, «de modo simples, seguro, eficaz e com poucas chatices para os donos. Basta dizer que antigamente tratávamos as sarnas com produtos de cheiro desagradável, de aplicação quase diária, e agora basta um spot on mensal, praticamente sem cheiro e seguro até mesmo para as crianças que convivem com o cão».

Meios de prevenção

E os antiparasitários externos são apontados como um dos principais meios de prevenção de doenças dermatológicas, além do facto de «ajudarem bastante na redução dos problemas alérgicos», destaca Olga Lagoa de Sousa para quem, «uma pele e pêlo bem cuidado, também são fundamentais para o bem-estar dermatológico do animal».

Outro dos cuidados que Sofia Marques recomenda é, «se o animal em questão for de cor branca, evitar a exposição solar a horas de maior calor ou colocar protector solar de nível máximo». Já no caso de o cão ter a pele oleosa, a médica veterinária recomenda champôs e spot ons para controlo da seborreia.

Além disso, Sofia Marques recorda que «existem dietas específicas para maneio de atopia e de outros problemas dermatológicos», e que se devem «evitar alimentos que possam causar alergias».

Isabel Serra deixa ainda um conselho para os donos dos animais: «aproveitar momentos de ternura, de  festinhas ou durante o pentear para analisar o cão ou gato, estando atentos para o aparecimento de manchas, nódulos ou pústulas».

O factor preço

A resolução do problema dérmico é sempre demorada e obriga a algumas visitas ao médico veterinário, bem como ao cumprimento estrito das indicações e medicação prescritas.

Entre as principais dificuldades encontradas no tratamento deste tipo de problemas, a médica veterinária de Leiria destaca a questão monetária, aliada «à falta de tempo dos donos e o não cumprimento dos conselhos e medicações prescritos».

Também Sofia Marques descreve algumas dificuldades no tratamento dos animais afectadas por estas patologias, que se prendem sobretudo com o facto de a prevenção da picada das pulgas não ser feita com a devida periodicidade, «ou porque os medicamentos spot on são caros ou porque os donos se esquecem».

E porque o factor preço continua a ter grande preponderância na hora de adoptar determinado tratamento, Sofia Marques refere que «na área da atopia se desenvolveu um medicamento eficaz e seguro no seu maneio, mas cujo preço proibitivo – na ordem dos 50 euros ou mais – impede que a maioria dos donos colabore». Assim, como elucida, «muitas vezes temos de recorrer à antiga cortisona, com os seus terríveis efeitos secundários, porque o dono não comporta financeiramente a dieta, os suplementos e os tratamentos inovadores».

Aliás, a médica veterinária proprietária de uma clínica com o seu nome, em Lisboa, sublinha ainda que também a leishmaniose tem visto diversos avanços em termos de tratamento, «porém muitas vezes voltamos aos comprimidos diários, porque o tratamento inovador é demasiado dispendioso para a carteira do dono».

No fundo, a grande dificuldade para o médico veterinário passa então por «ver, em termos da qualidade de vida do paciente e da bolsa do cliente, qual a melhor opção». Depois há ainda que prever se o tratamento vai de facto ser seguido à risca para o bem-estar animal, o que implica, nas palavras de Sofia Marques, «termos o bom-senso de prescrever o tratamento mais adequado ao caso em questão, sob pena do animal não ser tratado por falta de colaboração por parte do dono».

Os donos são a maior dificuldade

No entanto, não se pode esquecer que, estando a lidar com animais e sendo o prurido um dos principais sinais de uma patologia dermatológica, «não podemos contar com a sua colaboração para não traumatizarem a zona em tratamento», frisa Isabel Serra, para quem o recurso a protectores como o colar isabelino é fundamental, embora seja «muitas vezes boicotado pelos proprietários por pena do seu animal que “parece tão infeliz”».

No fundo, para esta médica veterinária, «as quatro dificuldades podem traduzir-se por apenas uma: os donos!». E esclarece que «para se ter sucesso na solução de um problema de pele, como qualquer outro, é preciso: fazer o diagnóstico correcto, o que por vezes exige vários exames complementares à consulta; introduzir uma medicação adequada; eventualmente uma mudança de ração; e, finalmente, aguardar o tempo necessário de tratamento para que o agente causador seja eliminado completamente da pele. Tudo isto implica custos e tempo, levando, por vezes, os donos a desistirem a meio do percurso. Há também casos recorrentes em que, como demora a crescer o pêlo, por exemplo, vão por iniciativa própria associando drogas não recomendadas, quebrando a dieta, o que origina, por vezes, verdadeiros quebra-cabeças para o clínico», elucida a médica veterinária da Clínica Vetandom.