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Investigação

Na saúde e na doença: tutores recomendam braquicéfalos apesar dos seus problemas clínicos

Brachycephalic Working Group volta a pedir precaução na utilização de braquicéfalos em publicidade

Nem os problemas de saúde os demovem: 93% dos detentores de cães braquicéfalos querem ter outro cão da mesma raça no futuro e 65,5% recomendariam a raça do seu cão a outras pessoas, concluiu um estudo realizado por quatro investigadores britânicos e publicado ontem na revista científica Plos One.

A pesquisa tinha como objetivo avaliar as intenções dos detentores de braquicéfalos quanto à reaquisição ou recomendação destas raças. Outra das metas era utilizar métodos qualitativos para explorar porque é que estes detentores recomendariam ou não cães destas raças.

Para tal, foram avaliados 2168 detentores de braquicéfalos, conhecidos pela sua maior propensão para sofrer de problemas respiratórios (culpa do focinho “achatado” e maxilar superior curto), digestivos e alérgicos.

No estudo, realizado por investigadores da Royal Veterinary College e da Universidade de Nottingham Trent, em Inglaterra, e da Universidade de Edimburgo, na Escócia, participaram tutores de pugs, buldogues e buldogues franceses.

Os constrangimentos de saúde destes animais já levaram alguns países, como os Países Baixos, a proibir a sua criação, mas estas raças continuam a ser populares entre muitos tutores.

Cães como os pugs e os buldogues franceses, além de terem uma dimensão que se adequa bem aos apartamentos citadinos, “são adoráveis brincalhões com um carácter inconfundível”, descreveu o médico veterinário Luís Cruz numa entrevista sobre os problemas de saúde da raça à VETERINÁRIA ATUAL.

Os autores do artigo, intitulado Come for the looks, stay for the personality? A mixed methods investigation of reacquisition and owner recommendation of Bulldogs, French Bulldogs and Pugs, mencionam ainda que o “apelo braquicefálico” passa indubitavelmente pela sua aparência. Com feições arredondadas, que se assemelham às de um bebé, os braquicéfalos espoletam “emoções positivas e reações de cuidado nos adultos humanos”, dizem os investigadores.

Mas, com a sua popularidade em ascensão por todo o mundo, como refere o artigo científico, os problemas de saúde associados a estas raças também proliferam. A motivação dos cientistas ficou assim bem expressa no artigo: “Perceber como se desenvolve a lealdade a uma raça, e se pode ou não ser atenuada, vai ser fundamental para controlar o atual boom populacional das raças braquicéfalas a longo prazo.”

Uma das conclusões a que chegaram é que na primeira vez que o tutor adquire um cão destas raças, a probabilidade de reaquisição ou de recomendação vai aumentar. O mesmo sucede se a relação tutor-animal for particularmente forte. Porém, a probabilidade de recomendação destes animais a outros tutores ou de reaquisição diminui quanto mais problemas de saúde o cão tiver ou se este demonstrar problemas comportamentais mais graves do que o esperado.

Os investigadores também concluíram que as pessoas aconselham a aquisição de braquicéfalos devido ao seu bom temperamento e atributos comportamentais, adaptação a espaços pequenos e estilo de vida sedentário, e boa relação com crianças.

Por outro lado, os tutores recomendam menos estes cães quando há uma alta prevalência de patologias, maior custo com o animal (maioritariamente para resolução de problemas de saúde), questões éticas e de bem-estar relacionadas com a criação destes caninos, e ainda impactos negativos para o seu estilo de vida. Neste último aspeto, foram referidos argumentos que vão desde a grande queda de pelo a problemas comportamentais exibidos pelos animais.

Ainda assim, os investigadores afirmam que os problemas de saúde dos animais não afetam tanto quanto se poderia pensar a probabilidade de reaquisição ou recomendação destes animais. Afirmam ainda que os tutores tendem a “normalizar” estes problemas, comparando, por exemplo, o melhor estado de saúde do seu cão comparativamente a outros exemplares da raça.