A comunicação entre humanos e cães parece simples, mas muitas vezes não o é. Pequenos erros na forma como falamos, nos mexemos ou até no nosso estado emocional podem criar mal-entendidos que afetam a convivência diária.
A conclusão é de um artigo da autoria das etólogas veterinárias Maria Josep Piñol e Gabriella Tami, que explica como os cães interpretam sinais humanos como a voz, o corpo, os gestos e até os cheiros emocionais.
Segundo as autoras, apesar de humanos e cães viverem juntos há pelo menos 15 mil anos, continuam a existir muitos mal-entendidos porque cada espécie percebe o mundo de forma diferente.
As autoras sublinham que vários estudos científicos confirmam que os cães conseguem detetar o cheiro do medo e do stress das pessoas. Esta capacidade surge ainda na fase em que são cachorros, o que indica que é inata.
Quando sentem esse odor, podem ficar mais inquietos, ofegantes, cautelosos ou evitar explorar o ambiente. Nem todos reagem da mesma forma: alguns afastam-se, outros aproximam-se com curiosidade. O temperamento e a experiência de vida influenciam a resposta.
O artigo enfatiza também que os cães são extremamente sensíveis à linguagem corporal humana: postura, movimentos, expressões faciais e olhar. Muitas vezes, estes sinais têm mais peso do que as palavras.
Se uma pessoa diz “vem aqui” com um tom simpático, mas tem uma expressão zangada, o cão pode hesitar, uma vez que percebe a incoerência.
Os cães também entendem bem os gestos referenciais, como apontar ou olhar numa direção. Usam essas pistas para orientar o seu comportamento. Se o tutor tenta afastar o cão de algo usando a voz, mas mantém o corpo e o olhar focados nesse objeto, o cão pode manter o interesse em vez de se afastar.
Além disso, os cães avaliam a fiabilidade das pessoas. Quando alguém aponta repetidamente para locais sem interesse, eles deixam de seguir esses gestos.
De acordo com o artigo, em comandos como “senta”, os cães aprendem a associar palavra e gesto. Se o tutor diz “senta”, mas faz sem querer o gesto de “deita”, o cão tende a seguir o gesto. Isto acontece porque, durante o treino, uma das duas informações torna-se mais relevante. Quando há contradição, a resposta deixa de ser fiável.
Segundo a análise das etólogas, os cães reagem mais à entoação do que ao significado das palavras. Tons agudos tendem a excitar e ativar, enquanto tons graves ajudam a acalmar ou a travar comportamentos.
Um “quieto” dito com voz aguda pode excitar o cão. Um “vamos” dito num tom grave pode ter um efeito inibidor. Para funcionar, o tom tem de combinar com o objetivo.
As responsáveis pelo artigo explicam que os cães não processam a linguagem como os humanos. Podem aprender muitas palavras, mas a compreensão depende do contexto, da clareza do som e de quem fala.
Além disso, entendem melhor palavras ditas devagar, com entoação estável e por pessoas conhecidas. Alterações no início da palavra confundem mais do que mudanças no fim. A par disso, falar depressa ou com variações bruscas de tom dificulta a compreensão. Na prática, os cães respondem mais a como falamos e a quem fala do que às palavras em si.
As autoras frisaram ainda que, quando uma palavra é usada em situações contraditórias, perde significado. Ou seja, dizer “não passa nada” antes de algo desagradável faz com que essa frase passe a funcionar como um aviso, e não como tranquilização.
O mesmo acontece com comandos como “vem”, usados tanto para coisas boas como para situações negativas. O cão começa a hesitar porque já não sabe o que esperar.
De acordo com o artigo, a comunicação com os cães é mais eficaz quando voz, corpo e estado emocional estão alinhados, uma vez que os cães são muito sensíveis a sinais involuntários, como tensão muscular, postura e emoções.

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