Esteve como vogal da direção no mandato anterior e, em setembro de 2025, Patrícia Luís assumiu a presidência da Federação Académica de Medicina Veterinária (FAMV). Em entrevista à VETERINÁRIA ATUAL, a propósito do mais recente congresso da organização, a estudante do 5º ano do curso da Universidade de Évora fala das preocupações dos seus congéneres face à desadequação dos currículos de ensino e deixa alertas sobre a forma como os mais jovens veem o atual mercado de trabalho.
Assumiu a direção da FAMV em setembro de 2025. Que balanço faz dos primeiros meses de trabalho?
Um dos principais objetivos enquanto presidente era expandir o nosso alcance entre os estudantes de medicina veterinária. Afinal, a grande maioria dos alunos fica a conhecer a Federação já nos anos clínicos do curso, ou seja, normalmente no quarto ou quinto ano, porque ao longo da nossa formação vamos tornando-nos mais conscientes da realidade e procuramos saber mais sobre a profissão, sobre o que é que ser médico veterinário. É nessa procura que os alunos acabam por encontrar a Federação.
O que fiz logo no início do mandato foi ter a certeza de que conheciam a Federação desde o primeiro ano do curso. Portanto, em setembro, tive a oportunidade de estar presente em quatro faculdades de medicina veterinária – na Universidade Lusófona, na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, na Escola Universitária Vasco da Gama e na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – na sessão de boas-vindas aos colegas do primeiro ano.
É importante dar a conhecer a Federação desde o primeiro ano de curso, apresentar o nosso trabalho e assim, se o estudante tiver interesse no associativismo, pode juntar-se a nós mais cedo e progredir dentro da FAMV.
Esse foi um ponto debatido no mais recente congresso da FAMV: o pouco interesse dos estudantes e dos profissionais mais jovens de medicina veterinária no associativismo. Que razões encontra para essa falta de vontade para integrarem movimentos associativos como a Federação, as associações de estudantes ou o Sindicato Nacional dos Médicos Veterinários (SNMV)?
Acho que se prende, maioritariamente, com três fatores. Em primeiro lugar, existe o desconhecimento do que faz um dirigente associativo. Os estudantes têm conhecimento das associações de estudantes, que normalmente estão sempre presentes desde o nosso primeiro dia enquanto alunos, mas, ao mesmo tempo, desconhecem o papel da Federação, que é um órgão nacional e que representa os estudantes de medicina veterinária em organismos como o Conselho Nacional da Juventude e o Fórum Nacional de Estudantes de Saúde.
Em segundo lugar, acho que se prende um pouco com a questão do trabalho. É bastante difícil estar nestas funções enquanto estudante, porque não conseguimos dar uma pausa nos nossos estudos para exercer o papel de dirigente associativo. O nosso curso é muito exigente e existem anos em que temos uma grande carga horária. Já cheguei a ter um semestre em que tinha 35 horas semanais, é quase um trabalho, e, depois, todos os fins de semana estou em alguma faculdade ou estou em algum evento a representar a Federação. Acho que dentro do nosso curso não há muito espaço para se ser dirigente associativo.
Acredito ainda que muitos colegas não sabem como manifestar o seu descontentamento. Não sei, por isso, até se não se sentirão um pouco receosos de assumir uma função de dirigente associativo, que é quem vocaliza as preocupações. Tenho colegas que vocalizam, que gostariam de ter uma voz mais ativa, mas às vezes têm medo de tomar uma posição. O dirigente associativo, obviamente, tem este papel de ser assertivo, de comunicar os problemas que existem.
Todos os meses reúno com os nossos associados, que são os representantes das diferentes associações de estudantes de medicina veterinária, e os colegas dizem sentir que o plano curricular já não se adapta exatamente às exigências do mercado de trabalho atual.
E enquanto dirigente associativa, nas visitas que faz às faculdades de medicina veterinária, quais as principais queixas dos seus colegas de curso relativamente à formação académica?
Temos a questão das revisões dos planos curriculares. Todos os meses reúno com os nossos associados, que são os representantes das diferentes associações de estudantes de medicina veterinária, e os colegas dizem sentir que o plano curricular já não se adapta exatamente às exigências do mercado de trabalho atual.
Algumas técnicas cirúrgicas, por exemplo, talvez já não sejam as mais praticadas na clínica ou em ambiente hospitalar. Muitos colegas sentem que é preciso fazer uma revisão do currículo com maior frequência.
Outra coisa que também apontam é que falta explorar outras áreas da medicina veterinária durante o curso. Temos planos curriculares muito presos à clínica, ao ambiente hospitalar de animais de companhia, eventualmente à pecuária, e deixam um pouco de fora as outras funções do médico veterinário, nomeadamente na função pública, a inspeção sanitária, ou mesmo a figura do veterinário municipal. Uma das preocupações na medicina veterinária é que os estudantes não conhecem as diferentes áreas em que o médico veterinário atua.
Esse apontamento faz a ponte para o debate no mais recente congresso da FAMV, durante o qual se falou, precisamente, desse foco dos currículos académicos na medicina veterinária de animais de companhia. Há uma visão um pouco “minimalista” do que o médico veterinário pode fazer profissionalmente?
Existem algumas disciplinas opcionais, em certas instituições de ensino, que abrem o leque na visão do que a medicina veterinária faz. Por exemplo, na Universidade de Évora há uma disciplina opcional de medicina de abrigo, na qual muitos dos colegas conheceram a existência do médico veterinário municipal.
Acredito que no currículo de ensino não haja espaço para existir uma unidade curricular para cada uma das áreas de medicina veterinária. Por isso, acho que também tem de partir um pouco dos estudantes serem participativos, terem curiosidade e perceber quais são as áreas da medicina veterinária que podemos seguir. É certo que a grande maioria tem interesse pela área dos animais de companhia, mas é importante sermos participativos em congressos, webinars ou fazer investigação própria e ver onde é que os médicos veterinários estão presentes.
Transição para mercado de trabalho “é feita de uma maneira muito abrupta”
Outro dos pontos falado no debate foi desconhecimento dos alunos sobre a vida laboral de um médico veterinário. Como pensa que poderia ser colmatada essa falta de informação sobre o que será, na prática, a vossa vida profissional?
Algo muito essencial na nossa formação seria conhecer as diferentes realidades profissionais, com a realização de estágios extracurriculares. Desde o meu segundo ano que, durante o período do verão, realizo estágios extracurriculares por minha iniciativa e consegui perceber, realmente, o que é que um médico faz no ambiente hospitalar e de clínica, já que a minha área de interesse são os animais de companhia.
Por exemplo, tenho colegas que não pensavam na hipótese de emprego na inspeção sanitária, mas fizeram o estágio de verão num matadouro e foi algo que lhes despertou o interesse.
Na Federação somos parceiros da Associação Portuguesa de Jovens Médicos Veterinários e temos apostado na comunicação entre a comunidade médico-veterinária. Já realizamos uma série de webinars em que médicos veterinários de diferentes áreas, tanto das áreas mais clássicas – como dos animais de companhia, dos equinos e da pecuária – mas também tivemos um médico veterinário que trabalha no marketing, o Dr. Bernardo Soares, e o Dr. Xavier Canavilhas, que falou da sua experiência na Ordem dos Médicos Veterinários. Temos também o papel do médico veterinário na vigilância e na saúde pública e parece-me essencial estendermos os nossos horizontes e contactar com esses médicos veterinários que atuam nos campos menos explorados.
Temos planos curriculares muito presos à clínica, ao ambiente hospitalar de animais de companhia, à pecuária e deixam um pouco de fora as outras funções do médico veterinário.
A inspeção sanitária e a saúde pública, são áreas muito sensíveis e fundamentais para a sociedade, que são desempenhadas por médicos veterinários. Todavia, efetivamente, os cursos públicos têm ficado desertos. O que afasta os jovens? A remuneração? A carreira?
É muito pouco falado nas universidades o papel do médico veterinário na função pública. Acho que a grande maioria dos estudantes, especialmente os mais novos, acredita que trabalhamos sempre para entidades privadas, seja numa clínica ou um hospital, e não conhecem que existem médicos veterinários na função pública.
Falou da remuneração, e, obviamente, o dinheiro não é tudo na vida, mas acho que é um grande ponto a considerar, assim como o facto de não haver uma grande progressão de carreira. Querendo ou não, o cenário é bastante desmotivador para alguém que queira atuar na área.
Mas, o mercado de trabalho privado da medicina veterinária também tem mudado. Hoje há menos o profissional liberal que abre o seu consultório privado e são mais as clínicas de média dimensão e os hospitais veterinários os grandes empregadores. Estas alterações laborais são faladas nas faculdades, entre os estudantes?
Uma coisa que falamos muito é sobre os turnos noturnos, porque é um ponto que nos assusta muito… O trabalhar em feriados e aos fins de semana. Nas instituições de ensino, acredito que na maior parte delas, temos uma unidade curricular em que temos de fazer turnos nos hospitais universitários, fazemos fins de semana e turnos noturnos. Então, isto é uma realidade que conhecemos.
Só que a diferença da medicina veterinária para a medicina humana é que na medicina humana esses turnos estão tabelados e são remunerados, coincidentemente com esse esforço a mais que é feito. E do conhecimento que tenho, na medicina veterinária não existe uma tabela salarial como há na medicina humana, onde têm essa segurança.
Sobre as matérias laborais o que mais preocupa os estudantes? É a questão remuneratória? No debate do Congresso transpareceu que há mais motivos para os jovens abandonarem a profissão…
Parece-me que a transição da academia para o mercado de trabalho é feita de uma maneira muito abrupta. Realizamos o nosso estágio curricular, entregamos o nosso relatório de estágio, entregamos a nossa dissertação de mestrado e, de um dia para o outro, estamos formados. Nós não temos nenhum tipo de indicação, por exemplo, de como nos registarmos na Ordem dos Médicos Veterinários e, acredito, até há colegas que não sabem que têm de estar inscritos na Ordem para atuar. Sinto que caímos de paraquedas na vida profissional e não temos uma transição muito suave.
Acredito também que muitos de nós sentimos que o nosso primeiro ano profissional é muito de aprendizagem. Obviamente não deveremos estar num turno hospitalar completamente sozinhos, mas começamos a carregar uma grande responsabilidade, que é ter a saúde de um animal completamente nas nossas mãos. Parece-me que não existe uma grande preparação, nem profissional, nem psicológica, sobre a responsabilidade que é tratar de uma vida.
Existe um grande desamparo dos estudantes quando vão para o mercado de trabalho e temos de nos apoiar muito nos médicos veterinários que estejam dispostos a ajudar.
Uma das principais dificuldades apontadas é que os estudantes vão para medicina veterinária porque querem tratar animais, mas têm mesmo é de lidar com pessoas, ou seja, os tutores. Como é que na academia é tratada essa componente relacional com os tutores e o peso que tem no burnout profissional?
Não acredito que tenhamos, de todo, a formação necessária para saber comunicar com os tutores. Sei que, em algumas renovações dos planos curriculares mais recentes, algumas instituições de ensino já integram uma unidade curricular de estratégias de comunicação ou de comunicação com o tutor.
Como estou agora no quinto ano, o meu plano curricular não apanhou esta alteração. Pessoalmente, nunca tive qualquer tipo de formação para saber como comunicar com um tutor. O mais próximo disso foi nos estágios que realizei, por conta própria, em ambiente hospitalar, onde vi como é que os médicos lidavam com os tutores. Para recolher uma boa anamnese, é fundamental conseguirmos fazer as perguntas certas, ganhar a confiança do tutor para recolhermos uma anamnese realmente verídica. É uma situação que também já experimentei: às vezes os tutores não confiam muito em nós, porque acham que vamos ser um pouco julgadores e omitem detalhes importantes na anamnese.
Não acredito que tenhamos, de todo, a formação necessária para saber comunicar com os tutores.
Nesses estágios que foi realizando ao longo da sua formação, o que mais a surpreendeu no dia adia dos profissionais nas clínicas e hospitais veterinários?
A área da medicina de veterinária de que mais gosto é o diagnóstico por imagem. Portanto, grande parte da minha experiência foi fechada numa sala, com as luzes escuras, a ver imagens de TAC.
Mas, o que me espantou mais foi, realmente, o quanto nós, enquanto médicos veterinários, que queremos tratar só de animais, temos de saber trabalhar em equipa e lidar com pessoas. Seja com os tutores, como com a equipa multidisciplinar, temos de saber comunicar com os enfermeiros, com os auxiliares. E, realmente, o que me chocou um pouco mais foi ver que alguns médicos veterinários e enfermeiros tinham outros trabalhos, ou tinham outras funções, fora daquele ambiente hospitalar ou clínico, exatamente por não terem a possibilidade financeira para se restringirem apenas a um trabalho.
Outro exemplo, na área do diagnóstico por imagem, é que o médico veterinário que acompanhava tinha o seu horário de trabalho estipulado, durante o qual estava no hospital a realizar os exames, mas depois, quando chegava a casa, ia escrever os relatórios de todos os exames que fez naquele dia. Portanto, na medicina veterinária, mesmo em casa continuamos a trabalhar, a fazer os relatórios ou a pesquisar mais sobre um caso específico. Muitas vezes ficamos apreensivos para saber como está o nosso paciente e temos de comunicar com o tutor para fazer o update do animal que estamos a acompanhar.
“Especialização vai trazer também uma maior valorização social”
Sobre o tema escolhido para o debate no Congresso da FAMV, o que se pode fazer para fixar os jovens na profissão de médico veterinário?
Integro o Fórum Nacional de Estudantes de Saúde, comunico com outros agentes associativos da medicina humana, da medicina dentária, da psicologia e vejo que é um problema transversal aos profissionais de saúde: simplesmente não são bem remunerados. A realidade é que, em medicina veterinária, temos um curso muito exigente, dedicamos seis anos da nossa vida a estudar para medicina – porque apesar de muitas vezes se referirem a nós como veterinários, nós somos médicos veterinários – mas, depois, não temos essa valorização financeira.
A medicina veterinária é muito reduzida à paixão por animais, mas infelizmente, nos dias de hoje, a nossa paixão por animais não consegue sustentar a nossa vida, não conseguimos comprar uma casa, comprar um carro.
A maioria dos jovens profissionais até aos 35 anos (73%) recebe menos de 1.500 euros mensais, segundo dados recolhidos pelo inquérito do Conselho de Jovens Médicos Veterinários. Com esses 1.500 euros brutos, especialmente para pessoas que vivem em Lisboa e no Porto, não é possível ter independência financeira.
Vemos outras realidades, como por exemplo na Irlanda, em que os médicos veterinários ganham muito mais do que nós e, por isso, obviamente vai ser muito mais apelativo fazer vida fora de Portugal.
A questão da especialização veterinária, da criação de colégios de especialidade, poderia ajudar a valorizar financeiramente a profissão?
Com certeza. Enquanto praticantes da medicina, a nossa função é garantir que os nossos pacientes recebem o melhor tratamento possível e a especialização diz exatamente que aquele profissional apresenta uma diferenciação e é altamente qualificado para a realização do procedimento X ou atuar em determinada área.
A medicina veterinária está constantemente em evolução, especialmente a medicina de animais de companhia é algo em constante evolução tecnológica e de conhecimento. Por isso, é crucial irmo-nos atualizando e especializarmo-nos nas áreas que podem ser alvo de especialização.
E obviamente que essa especialização vai trazer também uma maior valorização social. Acho que não somos bem vistos como médicos e a especialização ia auxiliar a visão do médico veterinário na sociedade em geral.
A medicina veterinária é muito reduzida à paixão por animais, mas infelizmente, nos dias de hoje, a nossa paixão por animais não consegue sustentar a nossa vida.
Considera que a sociedade é muito dura para o médico veterinário?
Sim, sem dúvida. Tive uma experiência pessoal, por volta do segundo ou terceiro ano, em que estava sentada fora do hospital universitário e uma tutora ao sair com o cão no colo e disse-me: “Vocês são os estudantes de medicina veterinária, não é? Quando vocês forem médicos veterinários, baixem os preços das consultas”. Portanto, somos vistos como vigaristas, como se nós quiséssemos impor esses preços às pessoas. Nós não temos a valorização que um médico tem, não temos essa perceção social de que também salvamos vidas.
Até ao final do seu mandato, tem mais algum projeto ou iniciativa que queira colocar no terreno? E, já agora, pretende recandidatar-se para mais um mandato?
Idealmente, o mandato termina no segundo trimestre do ano fiscal, ou seja, prevemos que termine por volta de maio ou junho.
Neste momento, estou mais focada no Fórum Nacional dos Estudantes de Saúde, no qual começámos um novo biénio de 2025-2027. Estou a conhecer a nova equipa e estamos a elaborar uma auscultação dos jovens profissionais e dos estudantes da área da saúde. Estamos a trabalhar também num caderno reivindicativo para apresentar a entidades reguladoras das diferentes profissões para nós, os atuais estudantes, conseguirmos melhorar as nossas condições no futuro.
Que mensagem gostava de deixar para os seus colegas que estão neste momento no curso de medicina veterinária?
Aos colegas mais novos, dos primeiros anos de curso, gostaria de endereçar uma mensagem de força. O nosso curso é exigente, mas vale a pena e nos nossos primeiros anos devemos manter uma mente aberta, explorar várias áreas, ser participativos e também, obviamente, explorar o associativismo. Procurem saber o que é o associativismo, ver como é que estudantes podem fazer a diferença, porque ser estudante não é só estudar, é também saber lutar pelos nossos direitos e ter uma voz ativa.
Para os colegas que vão terminar agora junto comigo, desejo que tenham uma ótima transição para o mercado de trabalho. Acrescento que a Federação está sempre disposta a ajudar todos os estudantes nessa transição ou em qualquer ponto do seu percurso académico e espero que todos nós tenhamos um excelente futuro pela frente.

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