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Opinião: Transformação digital

Dilen Ratanji Site e

“Transformação digital”: uma expressão que existe há anos, mas que não poderia ter contornos mais atuais. A transformação digital não representa tanto uma novidade, mas sobretudo a confirmação de uma crescente consciencialização sobre o papel que as tecnologias de informação podem desempenhar em diferentes áreas de negócio. E a covid foi o trigger para esta expressão voltar à ribalta.

A digitalização é um mecanismo que permite otimizar processos, criar maior eficiência nas operações, acrescentando-lhes valor por meio das novas tecnologias. O sucesso da digitalização depende da inovação tecnológica e proporciona maior produtividade e rentabilidade nos negócios. Qual é o CAMV que imagina, hoje em dia, não ter um software para faturação e gestão clínica, um TPA para os pagamentos ou um digitalizador para o seu raio-x? É possível trabalharmos sem estas tecnologias? Sim, mas não seria a mesma coisa.

No entanto, a tecnologia tem apenas a missão de facilitar a mudança. A tecnologia proporciona novas oportunidades que podem ou não resultar com sucesso, perante outros fatores que genericamente se podem agrupar em duas dimensões críticas: negócio e cultura. A telemedicina, que se tentou impor neste período da pandemia, com todos os benefícios que lhe são reconhecidos (e algumas limitações, claro), acabou por não ter tanto sucesso na nossa sociedade, seja na medicina veterinária como na humana. E qual a razão para isso? Fatores psicográficos e culturais. Países como o Reino Unido e os EUA tiveram um boom na utilização desta tecnologia neste período crítico, pois já era de uso recorrente mesmo antes da pandemia.

A crise provocada pelo novo coronavírus veio revelar, em poucos dias, que muitos dos fatores inibidores da transformação digital podem, afinal, rapidamente deixar de ser inibidores. Perante a adversidade do contexto pandémico, muitas empresas procuram alterar, de forma célere e ágil, os seus modelos de negócio, os seus processos de trabalho e, assim, pôr em prática a sua transição digital: redefinindo a proposta de valor, acrescentando-lhes algo mais, e usando as tecnologias. É evidente que a medicina veterinária implica necessariamente contacto presencial com o tutor e com o animal, pelo que as tecnologias de apoio à comunicação com os tutores têm natureza acessória, ainda que sejam imprescindíveis para uma boa estratégia de relacionamento, como é o caso das redes sociais, SMS ou e-mails.

Neste período crítico que atravessamos, a utilização das tecnologias de informação impediu um abalo mais significativo na nossa economia. O Governo reforçou a presença digital dos serviços de apoio aos cidadãos. As lojas de comércio tradicional reforçaram a sua presença digital nas redes sociais para divulgarem os serviços. As vendas online dispararam, incluindo para compra de ração, produtos medicamentosos e acessórios pet. Os sistemas de gestão das cadeias de abastecimento permitiram dar resposta à abrupta mudança da procura. E ainda poderíamos apresentar exemplos das escolas, ginásios ou restaurantes, que se reinventaram num ápice com os seus processos de digitalização.

Muitos milhares de trabalhadores estão neste momento em teletrabalho a partir de casa e não me parece que nos próximos meses esta realidade se vá alterar muito. Haverá seguramente muitos regressos às empresas, mas o paradigma do teletrabalho veio para ficar. O modelo híbrido de teletrabalho e presença física é uma tendência para o futuro.

A atual ameaça à saúde pública e as medidas de quarentena tomadas para a sua mitigação vieram mostrar às organizações a necessidade e as vantagens de acautelarem a sua transição digital. O vírus veio mostrar às organizações que deverão reforçar a sua aposta nas tecnologias e prepararem-se para uma verdadeira transformação digital nos próximos anos.

Estes últimos meses têm mostrado que uma economia mais digital é uma economia mais bem preparada para lidar contra a covid. No entanto, parece óbvio que as empresas tradicionais sem qualquer vocação ou esforço digital perderão a carruagem da transformação digital.

Infelizmente, as medidas de distanciamento social limitam que os CAMV possam ter o fluxo de clientes adequado à sua capacidade, podendo gerar uma quebra de faturação neste período. Mas, por outro lado, as medidas de apoio do Governo (nomeadamente o lay-off) proporcionaram a muitos CAMV uma maior rentabilidade, essencialmente por via da redução de custos com recursos humanos e de natureza fiscal.

Mas será que o perfil de consumo nos CAMV tem vindo a alterar? Não creio, ainda que o peso relativo da alimentação, petshop ou desparasitantes tenha naturalmente baixado na faturação global dos CAMV. Os serviços veterinários mantêm a dinâmica do passado.

É inegável que a covid trouxe o inimaginável, mas é nos momentos de grande dificuldade que a humanidade se reinventa. Os meios digitais permitiram (e permitirão) manter as atividades e até desenvolver negócios, mas também abriram uma caixa de Pandora. É necessário ir mais longe neste caminho digital, mas sem esquecer o insubstituível papel do fator humano, vital para a sustentação do negócio da medicina veterinária.

*Artigo de opinião publicado originalmente na edição de julho/agosto de 2020 da VETERINÁRIA ATUAL.

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