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Médicos veterinários

A medicina veterinária “é uma profissão muito nobre, mas muito difícil”

De que forma a ligação entre os tutores e os animais de companhia tem impacto na saúde mental da classe médica veterinária?

Miguel Barbosa, psicólogo clínico e professor universitário, trouxe esse tema à mais recente edição das Jornadas Médico-Veterinárias, que decorreu entre 8 e 10 de março, defendendo que a ligação cada vez mais estreita entre as pessoas e os animais tem influenciado os níveis de burnout dos profissionais.

 

No primeiro dia das XLVII Jornadas Médico-Veterinárias – organizadas em conjunto pela Faculdade de Medicina Veterinária (FMV) da Universidade de Lisboa, pelo Hospital Escolar Veterinário e pela Associação de Estudantes da FMV – Miguel Barbosa trouxe ao encontro uma das temáticas que mais preocupa a classe médico-veterinária: a saúde mental.

É certo que está bastante estudado, e já bem fundamentado cientificamente, a forma como “os contextos laborais podem impactar a saúde mental” dos trabalhadores. Afinal, sublinhou o orador, psicólogo e professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa (FPUL), no local de trabalho “vivemos situações de enorme stress, com prazos a cumprir, uma carga de trabalho que, por vezes, é irrealista” face às expectativas que colegas, entidades empregadoras e até mesmo o profissional se coloca a si próprio.

 

Tudo isto conflui, muitas vezes, numa dificuldade em equilibrar a vida laboral e a vida pessoal, com frequentes situações em que “acabamos por aceitar tudo e somos incapazes de responder a nada”, reconheceu Miguel Barbosa. O profissional nem é capaz de responder à sobrecarga que sente em relação à família, nem às expectativas das chefias “e a certa altura estamos completamente esgotados numa situação em que nós próprios nos colocamos pela dificuldade que, por vezes, temos em dizer não e em estabelecer limites”.

Os resultados deste cenário na classe médico-veterinária são conhecidos e já foram documentados em vários estudos. Segundo os trabalhos internacionais citados pelo orador, 66% dos médicos veterinários apresentam quadros de depressão, cerca de 30% está em elevado risco de burnout e um em cada seis reconheceu que já pensou em suicídio.

 

Apostar numa comunicação eficaz, em que as pessoas se sintam “verdadeiramente acolhidas e compreendidas neste contacto clínico” irá fazer com que estas tendam “a ser mais colaborantes, a aceitar melhor o que estamos a propor” e “o impacto direto é haver uma maior adesão [à terapêutica], uma redução da ansiedade e uma maior satisfação em lidar com aquela clínica ou hospital” Miguel Barbosa, psicólogo e professor na FPUL

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Sobre o que se conhece da realidade portuguesa, Miguel Barbosa lembrou os dados do VetsSurvey 2021 nos quais mais de 50% dos médicos veterinários portugueses reconheceu que já pensou desistir da profissão e Portugal foi catalogado como “o País do mundo com maiores níveis de stress na profissão veterinária. Estes resultados são extremamente preocupantes”, reconheceu o orador.

 

Não é, então, de estranhar que, perante estes reconhecidos desafios, o psicólogo considere que a medicina veterinária “é uma profissão muito nobre, mas muito difícil”.

O luto por um animal de companhia é “um luto desautorizado”

Miguel Barbosa tem dedicado grande parte da vida profissional ao estudo do luto e, mais recentemente, iniciou um trabalho de investigação sobre a realização do luto por parte dos tutores de animais de companhia.

A ideia pode parecer, a quem está fora do setor da saúde animal, um pouco descabida já que, na sociedade em geral, ainda prolifera muito a conceção de que “é patético alguém fazer o luto por um animal de companhia”.

Contudo, os dados do estudo que já foram trabalhados e que serão em breve divulgados – que resultam de mais de mil respostas de tutores de animais de companhia – mostram “que as pessoas fazem um luto de um animal de companhia de forma muito semelhante ao luto pelas perdas humanas e as manifestações são basicamente as mesmas”.

O psiquiatra relevou que 54% dos inquiridos reconheceram que a perda do animal de companhia foi tão ou mais dolorosa do que a perda de um familiar e 11% chegou mesmo a admitir que “foi a perda mais dolorosa que teve na vida”.

Contudo, apesar do que sentem, voltou a sublinhar o psiquiatra, os tutores consideram que a sociedade desvaloriza a dor dessa perda. É como se este fosse “um luto desautorizado” pela sociedade, que percebe esse tipo de sentimentos pela perda de um pai, de um filho, “mas por um cão, um gato, um hamster?”

“É como se houvesse um conjunto de categorias [de importância] e os animais são de segunda classe e isso significa que estas pessoas não têm contextos sociais para expressar a sua dor de forma aberta e sentem-se isoladas”, relatou Miguel Barbosa.

Um animal é família: e agora?

Além do impacto que as condições de trabalho têm no cenário estudado e descrito sobre a saúde mental da classe médica veterinária, o professor universitário tem-se dedicado a estudar um novo desafio na profissão: a influência que a forma como as pessoas passaram a olhar para os animais de companhia tem afetado a vida na prática clínica e, consequentemente, a saúde mental dos médicos veterinários.

Se “há 20 anos a relação com o animal, enquanto animal de companhia, era mais rural, nos últimos anos foi galopante [o crescimento da ligação entre as pessoas e os animais] e foi-se transformando a presença dos animais nos lares portugueses”.

Na realidade, atualmente em mais de metade dos lares nacionais existe, pelo menos, um animal de companhia e estes, com a cada vez maior urbanização das populações, passaram a cumprir funções que anteriormente não tinham. As pessoas nas cidades passaram a estar mais isoladas, sem redes de suporte familiar e o animal passou a ser a companhia que veio colmatar essas lacunas, passando a ser visto não apenas como um amigo, “mas como mais um elemento da família”, reconheceu o psicólogo.

“Há 20 anos a relação com o animal, enquanto animal de companhia, era mais rural, nos últimos anos foi galopante [o crescimento da ligação entre as pessoas e os animais] e foi-se transformando a presença dos animais nos lares portugueses” Miguel Barbosa, psicólogo e professor na FPUL

Esta alteração do lugar ocupado pelo animal na vida das pessoas trouxe desafios ao dia-a-dia dos profissionais da medicina veterinária. A comunicação com os tutores passou a ser uma vertente ainda mais importante do trabalho tanto para os auxiliares, como para os enfermeiros e, particularmente, para os médicos veterinários.

Sobretudo, quando está em causa comunicar um diagnóstico grave ou de desfecho incerto, o impacto que essas notícias têm nos tutores e a angústia que provocam exigem do profissional um maior compromisso a explicar o que está em causa para que a tomada de decisão final pelo cliente seja o mais consciente e informada possível.

E se é certo que a eutanásia sempre fez parte do quotidiano destes profissionais de saúde animal, o impacto que esta tem nos dias de hoje no tutor, que acaba por ser o decisor final, ganhou dimensões para as quais os médicos veterinários não foram treinados para lidar. No fundo, com a proximidade que hoje existe entre tutores e animais de companhia, muitos olham para esta decisão como eutanasiar um membro da família.

Os médicos veterinários também passaram a ter de lidar com situações que só recentemente começaram a chegar à medicina veterinária – embora já existam há alguns anos na medicina humana – como os cuidados paliativos, que também exigem novas ferramentas de comunicação e de relacionamento entre profissionais e tutores.

Aprender a comunicar com perfis diferentes de tutores

A comunicação, além de depender das ferramentas individuais de cada profissional de saúde animal, depende também do tipo de tutor que este tem à sua frente, cuja exigência tem vindo a aumentar na mesma proporção da cada vez maior ligação entre pessoas e animais.

Miguel Barbosa identificou alguns dos perfis de tutores que podem representar um desafio acrescido para os profissionais de saúde. Se por um lado os tutores muito ansiosos e preocupados com a saúde do animal “são intensos no que é o contacto clínico”, por outro os que estão particularmente envolvidos do ponto de vista emocional “ficam muito reativos a qualquer comunicação e a qualquer realidade que coloque em causa a saúde e bem-estar do animal”.

O psicólogo apontou ainda os clientes “desconfiados e muito céticos” que não acreditam em nada do que o médico veterinário está a propor e acusam-no de apenas querer ganhar dinheiro à conta do animal, que acabam não raras vezes por se tornarem em clientes agressivos.

Depois, existem também os clientes que estão em negação, que não querem aceitar a realidade que o clínico está a apresentar, o que é “um mecanismo psicológico perante uma situação que nos é totalmente insuportável”, explicou o psicólogo.

Uma característica que pode ser transversal a todos estes perfis de tutores é a falta de cooperação com o médico veterinário, alguma resistência em aceitar e implementar as soluções clínicas propostas e essa espécie de braço-de-ferro psicológico que se estabelece entre o profissional e o cliente acaba por ser mais um fator a influenciar a saúde mental desta classe de profissionais.

“Perante estas alterações, passou a ser particularmente importante na medicina veterinária o aspeto da comunicação clínica” Miguel Barbosa, psicólogo e professor na FPUL

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“Perante estas alterações, passou a ser particularmente importante na medicina veterinária o aspeto da comunicação clínica”, reconheceu Miguel Barbosa, lembrando que tudo aquilo que é dito, a forma como é dito ou até aquilo que é omitido é passível de provocar dano no doente e no tutor.

Por já ser reconhecida a importância da comunicação da relação entre médico e doente, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa já desenvolveu “estratégias pedagógicas para os profissionais de saúde aprenderem a gerir a comunicação [com os doentes, os familiares e os cuidadores], como a apresentação de más notícias, de diagnósticos reservados, de situações de cuidados paliativos, para lidar com o doente em negação” que são aplicadas à medicina humana e que, com as devidas adaptações, poderiam ser incorporadas no ensino da medicina veterinária. Afinal, acredita Miguel Barbosa, aplicar estes roteiros à medicina veterinária seria muito semelhante ao já realizado na medicina humana, uma vez que “[falar com] os tutores que têm esta relação com os animais é similar a falar com os tutores em pediatria”.

Apostar numa comunicação eficaz, em que as pessoas se sintam “verdadeiramente acolhidas e compreendidas neste contacto clínico” irá fazer com que estas tendam “a ser mais colaborantes, a aceitar melhor o que estamos a propor” e “o impacto direto é haver uma maior adesão [à terapêutica], uma redução da ansiedade e uma maior satisfação em lidar com aquela clínica ou hospital, com aquela equipa, o que vai ter também um impacto na fidelização do cliente à equipa e no cumprimento com o pagamento”, defendeu o orador.

Em suma, tudo circunstâncias que vão ajudar a diminuir as preocupações do profissional de medicina veterinária relativamente à relação com os tutores.

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